O trabalho, publicado na revista Nature Communications, abre caminhos para o desenvolvimento de terapias inovadoras que poderão eliminar estas populações bacterianas e combater infeções crónicas e recorrentes. O estudo centra‑se no comportamento intracelular de estirpes de Staphylococcus aureus resistentes à meticilina (MRSA), um patógeno responsável por milhares de infeções em meio hospitalar e comunitário e considerado a segunda causa mais comum de morte associada à resistência bacteriana a antibióticos. Estima‑se que a bactéria seja responsável por mais de um milhão de mortes por ano em todo o mundo.
Utilizando ensaios de infeção combinados com microscopia de fluorescência automatizada de larga escala, os investigadores identificaram 73 genes bacterianos que influenciam fortemente a capacidade de S. aureus invadir, persistir e multiplicar‑se no interior de células humanas, os chamados fagócitos não profissionais, e até de causar a morte destas células. O estudo analisou 1.920 mutantes bacterianos, uma escala sem precedentes para este tipo de investigação.
Para a responsável pelo projeto e investigadora principal, Ana Eulálio, “compreender os mecanismos de infeção e adaptação intracelular da bactéria Staphylococcus aureus permitiu‑nos desvendar como este microrganismo consegue escapar ao sistema imunitário e resistir aos antibióticos, expandindo assim o conhecimento recente sobre a sua biologia e virulência”.
O trabalho destacou ainda uma descoberta particularmente relevante, nomeadamente uma nova função da enzima nicotinamidase (PncA) na regulação do sistema de controlo de virulência bacteriano conhecido como agr (Accessory Gene Regulator). A equipa demonstrou que a PncA influencia a atividade do sistema agr através da modulação do metabolismo da bactéria — um achado que abre novas perspetivas para explorar o papel do metabolismo bacteriano na infeção e no desenvolvimento de estratégias terapêuticas direcionadas.
“Nos últimos anos tem‑se acumulado evidência de que a Staphylococcus aureus não é apenas um patógeno extracelular, mas que consegue estabelecer‑se dentro de células humanas, contribuindo para infeções persistentes”, explica Ana Eulálio. A caracterização do papel de PncA na virulência intracelular oferece múltiplos pontos de partida para novos alvos terapêuticos e para uma compreensão mais profunda das interações entre bactéria e hospedeiro.
O estudo resulta de uma colaboração internacional entre o CNC‑UC, investigadores do Centro Nacional de Biotecnologia – CSIC (Espanha) e do Imperial College London. A investigação do grupo RNA & Infeção do CNC‑UC, liderado por Ana Eulálio, foi recentemente financiada com cerca de meio milhão de euros pelo programa de Investigação em Saúde 2025 da Fundação 'la Caixa'..
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