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O relatório analisa os potenciais impactos económicos da instabilidade no Estreito de Ormuz e admite a possibilidade de um novo choque energético com efeitos na inflação, no consumo, nas cadeias de abastecimento e nos setores mais dependentes da mobilidade internacional, entre os quais o turismo.

Apesar de a consultora considerar improvável uma recessão generalizada na Europa, alerta que uma crise prolongada poderá intensificar as pressões inflacionistas e aumentar os riscos para países cuja atividade económica depende fortemente do turismo internacional.

Segundo as previsões da KPMG, a economia portuguesa deverá crescer 2,0% em 2026 e 1,7% em 2027, valores superiores aos projetados para a Zona Euro, que deverá registar crescimentos de 0,9% e 1,2%, respetivamente.

Ainda assim, Portugal surge entre os países mais vulneráveis a uma eventual redução de voos, cancelamentos ou quebra nas reservas turísticas, num cenário de escassez de combustível para a aviação. De acordo com o relatório, uma perturbação prolongada na mobilidade aérea poderá afetar as exportações de serviços e comprometer um dos principais motores da economia nacional.

"O turismo tem sido um dos pilares da resiliência económica portuguesa nos últimos anos e continua a ser uma vantagem competitiva relevante para o país. No entanto, essa força também cria uma exposição acrescida a choques externos que afetem a mobilidade internacional, os custos da energia ou a confiança dos consumidores", afirma Miguel Afonso, Partner e Head of Clients & Markets da KPMG Portugal.

A consultora sublinha que o atual choque energético difere da crise de 2022, associada à dependência europeia do gás russo. Desta vez, os impactos poderão ser mais abrangentes e refletir-se num conjunto mais alargado de matérias-primas e setores económicos.

Entre os produtos potencialmente afetados encontram-se o petróleo, o gás natural liquefeito, o alumínio, o hélio, o amoníaco e os fertilizantes. Segundo a KPMG, muitos destes materiais são essenciais para setores industriais estratégicos e apresentam reduzidas alternativas de substituição no curto prazo.

O relatório alerta ainda para o risco de aumento dos custos na indústria automóvel devido à pressão sobre o alumínio, bem como para potenciais constrangimentos na produção de semicondutores caso se verifiquem limitações no fornecimento de hélio.

No plano macroeconómico, a KPMG prevê uma aceleração da inflação na Zona Euro para 3,1% em 2026, impulsionada sobretudo pelo aumento dos preços da energia. A subida dos custos de transporte e energia poderá também repercutir-se noutros bens e serviços, prolongando os efeitos inflacionistas.

Embora o consumo privado deva continuar a sustentar o crescimento económico europeu, a consultora considera que a deterioração da confiança dos consumidores e a perda de poder de compra poderão levar as famílias a adiar despesas de maior valor e a reduzir o consumo discricionário.

A resposta dos bancos centrais dependerá da duração da crise. Caso a situação no Estreito de Ormuz seja resolvida rapidamente, os efeitos sobre a inflação poderão ser limitados. Num cenário mais prolongado, porém, as pressões inflacionistas poderão justificar políticas monetárias mais restritivas, com impacto nas condições de financiamento de empresas e famílias.

A KPMG destaca ainda que os governos europeus dispõem atualmente de menor margem orçamental para responder a uma nova crise energética, pelo que eventuais apoios públicos deverão ser mais limitados e direcionados do que os implementados em 2022.

Para Miguel Afonso, a economia portuguesa mantém fundamentos positivos, mas deverá reforçar a sua capacidade de antecipação e adaptação a riscos externos. "Num país onde o turismo, os serviços e a confiança internacional têm um peso determinante, a capacidade de antecipar cenários, reforçar a resiliência das empresas e diversificar fontes de crescimento será decisiva", afirma.

O relatório assinala ainda que o recente anúncio de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão, que inclui a reabertura do Estreito de Ormuz, poderá atenuar alguns dos riscos identificados, embora os seus efeitos dependam da implementação do acordo e da evolução da situação geopolítica na região.

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