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Lucas ri-se quando fala do futuro. Tem 23 anos, está com Tomás há sete meses e, por agora, o casamento não entra nos planos imediatos. “Não é um sonho”, diz. “Mas é uma coisa que gostava de realizar”. Tomás concorda. “É um símbolo de compromisso”.

Não sabem quando, nem onde, mas sabem que, algures mais à frente, querem assinar os papéis.

Marta e João foram mais rápidos. Conheceram-se em setembro de 2023 e casaram em novembro de 2024: sem festa, sem multidões e sem grande anúncio. Foram os dois à conservatória, passaram o dia juntos e, no dia seguinte, almoçaram com a família mais próxima.

“Foi algo muito íntimo, sem grandes festas, e era isso mesmo que nós queríamos”, diz Marta.

Ana e Filipa ainda estão a meio do caminho. Têm 24 e 22 anos, namoram há menos de um ano e já falaram de casamento. Para uma, é um símbolo importante. Para a outra, nem tanto. “Acho que dá para construir tudo sem casar”, admite Ana. “Mas, se for um sonho dela, eu faço”.

Entre a certeza, a dúvida e o “um dia mais tarde”, desenha-se um retrato da forma como os jovens portugueses hoje olham para o casamento: menos pressão, menos urgência, mais negociação e, sobretudo, muitas perguntas.

Menos casamentos, mais tempo

Os números ajudam a enquadrar esta mudança. Em 2024, realizaram-se em Portugal 36.633 casamentos, menos 382 do que no ano anterior. A maioria — quase 80% — foi celebrada apenas pelo civil. Os casamentos católicos continuam a cair: em dez anos, perderam cerca de 16 pontos percentuais.

Casa-se menos e, casa-se mais tarde. A idade média para o primeiro casamento é hoje de 35,8 anos para os homens e 34,3 para as mulheres. Uma década atrás, era mais baixa. A tendência é clara: primeiro estuda-se, trabalha-se, estabilizam-se vidas e só depois, talvez, se pensa em casar.

Tomás reconhece isso. “Não temos um tempo definido. É quando estivermos mais estabilizados”. Lucas concorda: “Agora não está no nosso plano”.

O peso do dinheiro e da festa

Quando se fala das razões para o recuo dos casamentos, o dinheiro surge quase sempre primeiro: às vezes em tom sério, outras em forma de riso. “Hoje em dia é caro”, diz Lucas, sem grandes hesitações.

Já Tomás contrapõe, quase de imediato: “Casar em si não é caro. O caro é a festa”. Conta a história da irmã, que reuniu cerca de trinta pessoas num restaurante e resolveu tudo por poucos milhares de euros.

Marta confirma. No seu caso, a palavra “despesa” praticamente não entrou na equação. Não houve quinta, nem banda, nem convidados distantes. “Para nós, era um gasto que não fazia sentido”.

Entre sonhos e contas bancárias, o casamento vai sendo empurrado para “mais tarde”. E há ainda outro peso, menos visível, mas igualmente presente: o dos outros.

Lucas admite que, por muito que o casamento seja “para o casal”, há sempre um lado de exposição. “Também fazemos um bocadinho para os outros verem”, diz. Tomás discorda. Para ele, o problema está precisamente aí. “As pessoas metem-se demasiado. Como se houvesse obrigação de gastar dinheiro para dar uma festa”.

Marta e João resolveram esse dilema à sua maneira: quase ninguém soube antes. Casou em silêncio, contou depois, sem pressão e sem expectativas alheias.

Apesar das dúvidas, nenhum dos casais mais jovens rejeita completamente a ideia de casar. Em todas as conversas, surge a mesma palavra, dita de formas diferentes: compromisso.

“Para mim é um símbolo de compromisso”, diz Tomás.

“É assinar os papéis para partilhar a vida eternamente uma com a outra, e essencialmente construir família juntas”, resume Ana.

Mesmo quem acredita que é possível construir uma vida a dois sem casamento reconhece o peso emocional do gesto. Para Ana, o casamento não é indispensável, mas é importante para a namorada e isso conta.

“Eu não faço muita questão de casar. Já para ela é simbólico e, por isso, se tiver de ser assim será, com todo o amor. Não me importo de abdicar, sobretudo quando é um sonho da pessoa que amo”, admite.

De obrigação social a escolha pessoal

Durante décadas, casar era o passo seguinte ao namoro, numa espécie de linha reta: namoro, noivado, casamento, filhos. Hoje, o caminho é mais irregular. Vive-se junto, partilham-se despesas, constroem-se famílias, muitas vezes sem papéis.

“Era quase obrigatório”, lembra Lucas. “Uma pessoa com sucesso e feliz tinha que se casar, basicamente”. Tomás concorda: “Era quase uma obrigação social. Hoje já não é assim, caiu em desuso”.

Ana observa essa mudança com algum distanciamento crítico. Acredita que a sua geração vive as relações de forma diferente, e que o “símbolo tradicional” do casamento cada vez menos terá lugar no futuro.

“Somos menos pacientes e menos fiéis. Preferimos conexões rápidas momentâneas a relações duradouras, com cumplicidade e amor recíproco”, afirma.

Fala de medo, de insegurança, de falta de autoconhecimento e tempo para conhecer verdadeiramente o outro: “Muitas pessoas não querem conhecer a outra pessoa de forma aprofundada, que na minha opinião é a parte mais interessante e bonita”.

Amor, tempo e negociação

Se há algo que une estas três histórias, é o diálogo. Nada parece decidido por inércia. Marta e João falaram cedo sobre o futuro, ajustaram expectativas e avançaram juntos. Lucas e Tomás alinharam sonhos e limites. Sabem que querem casar, mas sabem também que não é agora. Ana e Filipa vivem num equilíbrio mais delicado. Uma quer mais, a outra relativiza, mas nenhuma fecha portas.

Talvez essa seja uma das maiores mudanças: antes, casava-se porque “era suposto”. Hoje, casa-se depois de longas conversas e, apenas se fizer sentido para os dois.

Entre a tradição e o futuro

Os números confirmam que o casamento não desapareceu. Em 2025, houve até uma ligeira recuperação no número de uniões. Mas, o modelo mudou. Crescem os casamentos civis, os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e multiplicam-se as formas de celebrar ou de não celebrar.

Não há um padrão único. Há quem queira igreja, quem prefira conservatória, quem case na praia e quem não case.

No meio dessa diversidade, Lucas continua a falar do futuro com um sorriso calmo. Marta guarda na memória um dia simples e feliz. Ana mantém dúvidas, mas também esperança.

Entre o “para sempre” e o “logo se vê”, os jovens portugueses estão a redesenhar o significado do casamento. Há menos obrigação, menos pressa e mais escolha. Talvez haja menos casamentos mas, quando acontecem, são, cada vez mais, por vontade própria.

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