Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
A descida começa ainda antes de se dar o primeiro passo. No Marquês de Pombal, acumulam-se cartazes, bandeiras, famílias inteiras, grupos de amigos e gerações que raramente se cruzam noutros contextos. Há crianças aos ombros dos pais, há cravos presos a casacos, há palavras de ordem que se ensaiam antes de ecoarem avenida abaixo. E há uma certeza comum, ainda que dita de formas diferentes: o 25 de Abril não é apenas uma celebração. É uma necessidade.
Como todos os anos, milhares de pessoas voltaram a descer a Avenida da Liberdade até ao Rossio. Pelo caminho, entre várias “Grândola, Vila Morena” e outros cânticos de Abril, aplausos e conversas cruzadas, repete-se um ritual que é simultaneamente memória e presente. Mais de 50 anos depois da Revolução dos Cravos, a rua continua a ser o lugar onde Abril se afirma.
Para Luísa, de 57 anos, esta foi a primeira vez a participar na marcha na Avenida, apesar de nunca ter deixado de celebrar a data. A memória que guarda de 1974 continua vívida: “Tinha seis anos. Lembro-me de, no fim do dia, a junta de freguesia mandar uma carrinha de caixa aberta buscar-nos à escola. Subimos todos, deram-nos cravos vermelhos e fomos pelas ruas a atirá-los às pessoas.” Hoje, ao ver a multidão, reconhece uma continuidade que considera essencial. “É importante que venham tanto pessoas da minha geração como os mais novos. Isto tem de continuar”.
Essa passagem de testemunho repete-se ao longo de toda a avenida. Eva, de 23 anos, é um desses exemplos. “Venho todos os anos e não perco por nada”, diz. A tradição começou em criança: “A minha avó trazia-me. Lembro-me de descer a avenida com ela e com a minha tia.” Agora, é ela quem regressa, movida por um sentido de responsabilidade que diz sentir cada vez mais urgente.
“Vivemos tempos difíceis. É mais importante do que nunca celebrar a liberdade e relembrar os valores de Abril”, conta.
No meio da multidão, procura algo que vai além da celebração: “Espero levar daqui esperança de um país melhor, onde as pessoas não são facilmente manipuladas e são respeitadas.” E há uma imagem que a impressiona sempre: “Passados mais de 50 anos, ver a avenida tão cheia é incrível”.
Mas nem todos falam apenas de esperança. Para muitos, o presente impõe um tom mais combativo. Rita, de 30 anos, não hesita em descrever a sua presença como um posicionamento moral.
“A liberdade é um valor com o qual eu concordo muito. Não devemos julgar ninguém, devemos ter todos o direito de dizer o que queremos.” Estar na rua, diz, é uma forma de resistência contínua: “É uma luta constante, independentemente do governo que temos”.
O seu percurso pessoal ajuda a explicar essa convicção. Cresceu numa família “de direita, muito católica e conservadora”, mas foi já em adulta que começou a questionar esse contexto. “Há cinco anos comecei a namorar com a Joana. Ela tem uma visão humana incrível e fez-me pensar: há uma ideologia assim? É com isto que eu me identifico.”
O caminho não foi pacífico. “Tive discussões enormes com a minha família. Nunca fui racista, mas ouvia comentários que me faziam querer sair daqueles espaços.”
Hoje, não tem dúvidas: “Quero lutar pelos direitos e pela liberdade de toda a gente. Estar aqui é um dever cívico”.
Ao seu lado, a namorada Joana, de 32 anos, partilha essa urgência, mas vai mais longe no diagnóstico.
“A liberdade não está garantida. Aliás, cada vez está menos”, afirma. Fala a partir de experiência própria: “Sei o que é viver a vida, de certa forma, oprimida e não é nada bom.”
Para si, a presença na marcha devia ser quase obrigatória. “Devíamos estar cá todos.” E insiste na ideia de responsabilidade individual: “O meu privilégio não me deixa ficar em casa. Tenho de lutar pelos direitos dos outros.”
Olhando para trás, lamenta apenas uma coisa: “O meu único arrependimento é não ter vindo desde sempre.” E deixa uma frase que resume o seu sentimento: “Se eu tivesse nascido antes de 1974, estava presa”.
A memória histórica é, aliás, um dos fios condutores mais fortes da marcha. Carolina, de 23 anos, sublinha que o 25 de Abril representa conquistas concretas e recentes.
“Celebramos não só a democracia, mas também liberdades individuais, como uma mulher poder divorciar-se ou abrir uma conta no banco sem autorização.”
Para si, a data é também uma afirmação identitária: “Nós somos mais do que os 48 anos de fascismo. Somos esta liberdade e esta alegria.” Ao longo dos anos, há uma imagem que nunca a deixa indiferente: “Os pais que trazem os filhos pequenos, que já nasceram em democracia, e as pessoas mais velhas, com 80 ou 90 anos, que continuam a vir.
É essa persistência que a faz regressar todos os anos, com um objetivo claro: “Espero conseguir honrar, enquanto desço todos os anos esta avenida, a luta que foi destas mulheres e homens presos, torturados, muitos mortos e também que foram obrigados a ser exilados”.
Mas recordar também implica confrontar. Carmo, 29 anos, chama a atenção para dimensões menos celebradas da história.
“É importante lembrar de onde vem este dia, mas também reconhecer o que foi feito durante o período colonial”, diz. Defende que é preciso “dar voz a essas pessoas” e ampliar o debate.
Num contexto europeu que considera preocupante, alerta para o crescimento da extrema-direita. “Agora, mais do que nunca, é importante sair à rua, mostrar quem somos e o que queremos.”
A mesma preocupação surge nas palavras de Carolina, de 24 anos, que fala do “peso da memória coletiva”. Recorda a avó, que apenas pôde estudar até à quarta classe, e o avô, marcado com sequelas pela guerra do Ultramar. “Estamos aqui por eles”, afirma.
Para si, a marcha é também uma resposta ao presente. “Estamos a ver o ressurgimento de movimentos fascistas, a ascensão da extrema-direita, guerras, imperialismo.” Nesse cenário, considera essencial ocupar o espaço público: “Estamos aqui para lutar pela autodeterminação dos povos, como nós conseguimos fazer.” E há um sentimento que destaca no meio da multidão: “Às vezes parece que estamos sozinhos, mas quando vemos esta gente toda percebemos que não e isso dá esperança.”
Entre os participantes, há também quem encontre na marcha um sentido quase difícil de traduzir em palavras. Bernardo, de 25 anos, trabalha na área dos direitos humanos e tenta resumir o que sente: “Talvez empatia, união, partilha de uma vontade de liberdade.”
Para si, o 25 de Abril não é apenas uma data histórica, mas algo que atravessa o seu quotidiano. “Está sempre presente na minha vida e no trabalho que faço.” O que mais o impressiona é a dimensão coletiva do momento: “Ver esta diversidade de pessoas, esta enchente, tudo a lutar pelo mesmo… cria um sentimento de ‘como é que isto é possível?’, e ao mesmo tempo faz todo o sentido.”
Ao longo da descida, entre o Marquês e o Rossio, repetem-se gestos e palavras que já se tornaram tradição, mas que continuam a ganhar novos significados. Há quem venha pela primeira vez e quem nunca tenha faltado. Há quem traga memórias de infância e quem esteja a construí-las agora. Há quem celebre e quem proteste, muitas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo.
No fim do percurso, a conclusão parece comum, ainda que raramente dita de forma direta: Abril não é um capítulo fechado. É um processo em curso, feito de presença, de memória e de confronto. E enquanto houver quem desça a Avenida da Liberdade com um cravo na mão, seja por lembrança, convicção ou inquietação, a revolução continua a fazer-se, passo a passo, no meio da multidão.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários