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A peça foi escrita em 2017 por Ricardo Neves-Neves, na altura encenada por Mónica Garnel e apresentada no Teatro São Luiz. Em 2024, voltou e fez a estreia do Teatro Variedades, mas desta vez quem assumiu o comando total foi Ricardo Neves-Neves. Este ano regressou aos palcos, desta vez no Teatro Maria Matos e a última semana de espetáculos termina no próximo domingo, 9 de agosto.
O encenador confessa ao 24notícias que o que tem sido diferente de espetáculo para espetáculo é a encenação, sobretudo, na parte musical que ganhou um papel de destaque com "a inclusão de música ao vivo, onde temos uma orquestra e uma banda em cena" e a adição de mais músicas "se não me engano eram duas ou três músicas, neste espetáculo as músicas são umas 15".
Sobre as inspirações para escrever a peça, Ricardo Neves-Neves explica que é um "género de aura que brota tanto dos policiais de Agatha Christie como do "The Cocktail Party " de T.S. Elliot", ambas as obras descrevem a "arrogância das classes altas da burguesia americana ou da aristocracia europeia".
De Agatha Christie, "The Swimming Pool Party" tem a "construção do mistério, o peso do crime, a antecipação da morte, a noção de culpa e a presença do ódio disfarçado". O autor faz ainda um paralelo entre as suas personagens e as de Christie, "há uma personagem que morre e nós vamos vendo essa personagem semear um género de violência ou agressividade psicológica, mas também física, por todas as personagens, ou seja, nós chegamos ao final e todas as personagens têm potencial para ser o assassino dessa outra personagem."
Já em T.S Elliot recorreu à "zona blasé, lenta, leitosa, em que ao mesmo tempo que existe um género de adoração pelo brilho, pelo floral, pelos sabores, pelos cheiros, pela poesia, pela beleza, existe também um lado grosseiro e tremendo". A não tradução do título da peça, vem também de T.S Elliot.
Estas inspirações sentem-se no texto de Ricardo Neves-Neves, que conseguiu trazê-las à luz da modernidade, sobretudo a sobranceria que se mantém ainda da altura da aristocracia europeia. "Não é preciso fazer um estudo muito aprofundado para saber que a nossa população era essencialmente rural até há 50 anos e que de repente se transforma numa população urbana", explica. Acrescentando que "a nossa sociedade é uma grande parcela, filha, netos ou bisnetos, de camponeses, de operários, de analfabetos, só que ninguém revela isso e não é só o revelar, muita gente esconde isso." Daí a necessidade de algumas pessoas criarem uma "persona" para se "inserirem em determinados círculos para fazer acreditar que essas são as suas origens, como se aquela ideia do sangue azul e da diferença quase genética de umas pessoas para outras, dependendo do seu estatuto social, fosse verdade, e não é".
Na peça existem alguns diálogos chiquérrimos onde se cometem "deslizes", segundo o encenador é "porque querem ser uma coisa, mas acabam por se revelarem e não são, e nós todos conhecemos pessoas assim, e vemos isto neste espetáculo". Mas há ainda espaço para o escrutínio das pessoas que tendo nascido nesse denominado berço de ouro fazem "chacota absoluta" dos outros o que revela uma "deficiência de caráter" por "julgar quem está ao lado, pela sua educação e pela sua família, o que é uma violência quase psicológica".
Durante o espetáculo o tom musical nunca abandona o espectador e há músicas que soam no ouvido e o autor explica porquê, "muita ou parte da escolha de repertório musical vem do Tiktok e do Instagram" e até nas coreografias se pode encontrar o "passinho do Jamal". O uso destas referências serve para ilustrar a educação recebida pelas redes sociais, "eu acho que estas personagens chegam a casa ou quando estão em casa sozinhas não abrem um livro, não vão ao cinema, galerias ou teatro. Eu acho que levam o dia inteiro ou tempos livres a ver tiktoks e instagrams e os mais velhos se calhar no facebook".
Questionado pelo 24notícias sobre o que espera que o público sinta no final, Ricardo Neves-Neves começa por dizer que sendo já a terceira temporada "consegue antecipar reações". "As pessoas ficam um bocadinho divididas entre ser um espetáculo divertido, mas ao mesmo tempo há uma violência constante pela forma como as personagens são cruéis umas com as outras". Indo para um lado mais antropológico o autor demonstra interesse nessa "divisão que nós temos" entre o "rir e o não devia achar graça a isto": "Porque é que me estou a rir disto? Aquela personagem está a ser tão cruel com a personagem ao lado, está a falar de outras culturas com desprezo tremendo, mas existe um aspecto cómico nisso".
O espetáculo está em cena até dia 9 de agosto e conta com um elenco com nomes como Ana Brito e Cunha, Ana Cloe, Ana Marta Contente, Filipe Vargas, José Leite, Marta Andrino, Ruben Madureira, Sandra Faleiro e Santiago Galvão.
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