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Estas eleições surgem na sequência de uma transformação profunda do país desde a chamada Revolução de Veludo, em 2018, quando Pashinyan chegou ao poder prometendo democratização, combate à corrupção e modernização do Estado. Inicialmente houve crescimento económico e alguma modernização institucional, mas o seu mandato ficou sobretudo marcado pelo desfecho do conflito em Nagorno-Karabakh.
Nagorno-Karabakh o que esteve em causa?
Uma disputa prolongada entre a Arménia e o Azerbaijão em torno de um enclave de maioria arménia localizado dentro do território do Azerbaijão.
Durante décadas após o colapso da União Soviética, este território, conhecido também como a República de Artsakh pelos arménios, foi controlado por forças arménias apoiadas por Erevan, apesar de estar formalmente dentro das fronteiras do Azerbaijão. O conflito manteve-se intermitente ao longo de cerca de 30 anos, marcado por tensões militares e confrontos recorrentes entre os dois países.
A situação mudou de forma decisiva com as guerras de 2020 e de 2023, nas quais o Azerbaijão conseguiu impor derrotas militares significativas às forças arménias e recuperar o controlo total do enclave. Em 2023, uma ofensiva rápida levou à saída de cerca de 100 mil arménios de Nagorno-Karabakh, criando uma crise humanitária e forçando-os a refugiar-se na Arménia, onde passaram a viver em condições precárias e dependentes de apoio estatal e externo.
O desfecho do conflito teve um impacto profundo na Arménia, não só representou a perda de um território considerado central para a identidade nacional, como também colocou em causa as garantias de segurança externas do país, em particular o papel da Rússia, que não interveio de forma decisiva para travar o avanço do Azerbaijão. A partir desse momento, a resolução do conflito passou a ser vista como praticamente imposta pela nova realidade militar, abrindo caminho para negociações de paz e para a exigência do Azerbaijão de alterações constitucionais na Arménia como condição para um acordo definitivo.
As consequências
A perda definitiva de Nagorno-Karabakh em 2023, após uma ofensiva rápida do Azerbaijão, foi o ponto de viragem político e emocional mais importante da última década. O enclave, habitado por população arménia durante décadas e controlado por forças arménias apoiadas por Erevan, era central na identidade nacional. A derrota militar e o êxodo de cerca de 100 mil arménios do território provocaram uma crise humanitária e um profundo trauma político interno. Para muitos cidadãos, esse episódio simbolizou também o fracasso das garantias de segurança da Rússia, tradicional aliada da Arménia, que não interveio de forma eficaz para travar o avanço do Azerbaijão.
A partir daí, acelerou-se uma reorientação geopolítica. Pashinyan passou a defender uma política de diversificação estratégica, aproximando-se da União Europeia e dos Estados Unidos, enquanto tentava manter relações formais com Moscovo. Esta mudança colocou a Arménia numa posição delicada: continua dependente da Rússia em áreas estruturais como energia, comércio e infraestruturas, e integra a União Económica Eurasiática liderada por Moscovo, o que limita juridicamente uma eventual adesão à União Europeia. Ainda assim, Erevan intensificou o diálogo com Bruxelas, acolheu reuniões de alto nível europeias e assinou novos acordos de cooperação, enquanto dirigentes europeus passaram a ver a Arménia como uma oportunidade rara de influência ocidental no Cáucaso do Sul.
Este reposicionamento agravou a tensão com a Rússia. Nos meses que antecederam as eleições, Moscovo aplicou restrições à importação de produtos arménios, desde frutas e legumes até bebidas como conhaque e água mineral, medidas oficialmente justificadas por razões técnicas, mas amplamente interpretadas como pressão económica. Ao mesmo tempo, figuras russas, incluindo Vladimir Putin, fizeram alertas indiretos sobre os riscos de uma aproximação excessiva ao Ocidente, evocando paralelos com a Ucrânia. A União Europeia respondeu acusando a Rússia de “coerção económica” e anunciou apoio financeiro à Arménia, reforçando a dimensão geopolítica do conflito de influência.
Quem vai a votos?
A principal força política é o Contrato Cívico, partido do primeiro-ministro Nikol Pashinyan, que procura a reeleição e uma maioria parlamentar para consolidar a sua linha política. Pashinyan está no poder desde 2018, após a Revolução de Veludo, e lidera a atual maioria governamental. O seu projeto político está associado à chamada “Arménia real”, à normalização das relações com o Azerbaijão, ao encerramento definitivo da questão de Nagorno-Karabakh e a uma maior abertura internacional, incluindo a aproximação à União Europeia e aos Estados Unidos, ainda que mantendo relações com a Rússia.
Do lado da oposição, surge como principal bloco a Arménia Forte, associada a círculos pró-russos e liderada pelo empresário Samvel Karapetyan, que tem ligações económicas à Rússia. Karapetyan encontra-se em prisão domiciliária sob acusação de envolvimento numa alegada conspiração golpista, e a campanha do partido tem sido conduzida, em parte, pelo seu sobrinho Narek Karapetyan. Este bloco defende o reforço das relações com a Rússia e critica o rumo pró-ocidental do governo, bem como o acordo com o Azerbaijão e as concessões em torno de Nagorno-Karabakh.
Além destes, aparece ainda o bloco Hayastan (Arménia), liderado pelo antigo presidente Robert Kocharyan, que também é crítico de Pashinyan, sobretudo na forma como este tem gerido a relação com a Rússia e o processo de normalização com o Azerbaijão.
E ainda o partido Prosperous Armenia, liderado pelo empresário Gagik Tsarukyan, igualmente alinhado com posições mais próximas de Moscovo e crítico do atual governo.
Em conjunto, estas forças disputam um parlamento composto por vários partidos e blocos, mas o confronto central opõe o governo de Pashinyan e a sua orientação mais pró-ocidental e reformista às diferentes correntes da oposição que defendem uma reaproximação à Rússia e criticam a gestão do pós-Karabakh.
Campanha para dois blocos
Internamente, a campanha eleitoral foi altamente polarizada. O Contrato Cívico de Pashinyan liderou as sondagens, embora com apoio mais moderado do que no passado, refletindo o desgaste político causado pela perda de Nagorno-Karabakh e por acusações da oposição de autoritarismo e má gestão. A oposição dividiu-se entre várias forças, mas destacou-se sobretudo a coligação Arménia Forte, associada a círculos pró-russos e liderada pelo empresário Samvel Karapetyan, que tem ligações económicas à Rússia e se encontra sob investigação por alegada tentativa de golpe. Outros antigos líderes, como Robert Kocharyan, também surgem como críticos de Pashinyan, defendendo uma reaproximação a Moscovo e criticando a política de concessões ao Azerbaijão.
O processo eleitoral foi ainda marcado por acusações de interferência russa, incluindo campanhas de desinformação, financiamento indireto de campanhas mediáticas e alegadas tentativas de mobilizar eleitores arménios residentes na Rússia. Paralelamente, as autoridades arménias denunciaram tentativas de compra de votos e efetuaram detenções na véspera da votação, reforçando a ideia de uma eleição sob forte pressão externa e interna.
A Arménia tornou-se também palco de competição entre potências. Os Estados Unidos, sob liderança de Donald Trump, e a União Europeia expressaram apoio ao governo de Pashinyan, vendo em si um parceiro de estabilização e reforma democrática na região. Foram também promovidos projetos de infraestrutura regional destinados a ligar o Cáucaso a redes comerciais mais amplas entre Europa e Ásia. Ao mesmo tempo, a Rússia mantém influência estrutural significativa e procura travar o afastamento de Erevan através de instrumentos económicos e políticos.
Nestas eleições está em causa não apenas como uma escolha de governo, mas um referendo sobre o futuro estratégico da Arménia. E a possibilidade de consolidar a paz com o Azerbaijão, o que poderá implicar uma alteração constitucional para remover referências a Nagorno-Karabakh, condição exigida por Baku para um acordo definitivo. Esse processo, se avançar, exigirá ainda novos referendos e maiorias parlamentares alargadas, prolongando a instabilidade política.
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