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A chancela Kiala foi criada em maio, depois de Elga Fontes, que já colaborava com a editora “disruptiva” Vírgula de Interrogação, ter apresentado a proposta aos responsáveis editoriais, como uma “missão específica de equilibrar um espaço literário onde autores negros ainda têm pouca visibilidade”, disse a responsável, em entrevista à agência Lusa.
O próprio nome Kiala vem do quimbundo, uma das línguas bantu de Angola, país de origem da editora, e significa, entre outros sentidos, “iluminar” ou “trazer luz”.
“Vai muito pegar nesta metáfora do trazer luz a vozes negras, a histórias negras”, explicou.
Mas Elga Fontes faz uma clara distinção: o foco principal é a publicação de literatura escrita por autores negros e não a publicação de literatura negra, pois o objetivo não é criar um catálogo centrado em temas como racismo, colonialismo ou discriminação racial, mas sim nas “diferentes vertentes do que é a experiência humana”, através de “uma perspetiva negra”.
“Queremos desmontar um bocadinho esta ideia de que um livro de um autor negro apenas pode ser sobre um tema ou apenas pode ter uma perspetiva. Normalmente assume-se que é o tema do racismo ou a perspetiva da dor. E também queremos sair um bocadinho dessa bolha, ou furar um bocadinho essa bolha, para mostrar, não só a quem trabalha no mercado, mas aos leitores de Portugal, que ser uma pessoa negra é também ser um ser humano como todas as outras pessoas, e as pessoas negras também vivem e escrevem sobre amor, sobre amizade, sobre identidade, sobre questões que são transversais a toda a gente”, revelou.
A editora considera que muitos escritores negros que abordam temas universais, como amor, amizade, identidade ou relações familiares, continuam a ser desvalorizados e a ter menores oportunidades de publicação e visibilidade, “precisamente porque não correspondem a esse estereótipo”, de que “uma pessoa negra só pode escrever sobre colonialismo ou sobre racismo”.
E é precisamente por o critério da Kiala assentar na identidade racial do autor e não no conteúdo racial da obra, que mesmo que um autor não negro escreva um livro profundamente comprometido com a questão racial, o colonialismo, a negritude ou a escravatura, continua a não ter lugar nesta editora.
Como justificação, Elga Fontes insistiu que a missão do projeto não é publicar livros sobre determinados assuntos, mas contribuir para aumentar a presença de autores negros no espaço editorial.
Esta é, contudo, uma decisão que tem suscitado reações diversas, incluindo críticas de leitores e comentadores no espaço público e nas redes sociais da editora, que receiam que este tipo de iniciativa possa reforçar a própria ideia de segregação que a editora pretende combater: autores negros em espaços destinados para autores negros.
Confrontada com esta possibilidade de a Kiala acabar por funcionar como uma espécie de “gaveta identitária”, separando autores negros do restante mercado, em vez de os integrar plenamente nele, a responsável discordou dessa leitura.
“Eu não acho que seja prejudicial, primeiro porque a Kiala propõe-se a publicar autores negros, mas nós estamos nos espaços culturais abertos a toda a gente. A única coisa que nós fazemos é contribuir para o panorama cultural português, trazendo mais vozes negras”, sustentou, frisando: “Eu acho que é importante diferenciarmos a ideia ou o conceito de segregação e criação de um espaço dirigido a um grupo específico”.
A Kiala já publicou o seu primeiro livro, uma obra de não ficção intitulada Feminismo na Periferia, de Miki Kendall, e prepara-se para lançar em novembro A Morte de Vivek Oji, um romance de Akwaeke Emezi, uma autora nigeriana não binária.
A obra, que foi amplamente elogiada pela crítica internacional, acompanha a vida e a morte de Vivek Oji, um jovem que cresce numa comunidade conservadora do sudeste da Nigéria, sentindo-se cada vez mais deslocado das expectativas sociais, familiares e de género que o rodeiam.
O romance abre com a descoberta do seu corpo à porta de casa pelos pais e reconstrói, de forma não linear, os acontecimentos que conduziram à sua morte.
Para 2027, a Kiala já tem três livros, que serão anunciados em setembro, e está a tratar também do catálogo de 2028, adiantou a editora.
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