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A Câmara Municipal de Almada decretou esta quarta-feira situação de alerta devido às falhas sucessivas no abastecimento de água que têm afetado o concelho, com especial incidência na Costa da Caparica.

A medida prevê cortes programados no abastecimento entre as 22h00 e as 06h00 em algumas zonas, restrições ao consumo de água para usos não essenciais e o reforço das equipas técnicas para detetar e reparar fugas. A autarquia garante ainda que o abastecimento aos serviços essenciais, como hospitais, lares e bombeiros, será assegurado, enquanto decorrem os trabalhos para normalizar a situação.

O problema não é de hoje

Na Costa da Caparica, onde as falhas no abastecimento têm sido mais frequentes, Frederico Santos, administrativo de 35 anos, afirma que o problema se agravou há cerca de duas semanas. Desde então, diz viver diariamente com incerteza.

"É uma sensação de apreensão, porque isto é uma roleta russa. Só quando chegamos a casa é que descobrimos se temos água, se o fluxo é baixo ou se simplesmente não há", conta ao 24notícias.

O morador conta que já passou várias horas sem água, sobretudo durante os fins de semana, quando passa mais tempo em casa. Para minimizar o impacto, diz que a solução passa por armazenar alguns garrafões de água para garantir a higiene pessoal. Já cozinhar tornou-se mais difícil.

"Muitas vezes tem de se optar pela comida pronta para termos uma vida minimamente normal", lamenta.

Também Cheila Medeiros, comercial de 23 anos e moradora na Trafaria, afirma que a falta de água não é uma novidade. Recorda que, no verão do ano passado, a zona onde vive já tinha enfrentado um período de interrupções no abastecimento, embora durante menos tempo.

Desta vez, garante que os constrangimentos têm sido muito mais difíceis de gerir. Sem água, diz que deixou de conseguir realizar tarefas básicas do dia a dia, como cozinhar, lavar a loiça ou tomar banho. Para garantir o mínimo indispensável, tem recorrido à compra de água engarrafada.

"Tenho gasto dinheiro em garrafões e tenho tentado fazer tudo com isso", conta, acrescentando que chegou a deslocar-se ao supermercado mais próximo apenas para comprar água e assegurar as necessidades essenciais.

Situação de alerta que pode piorar

No comunicado em que decretou situação de alerta, a Câmara Municipal de Almada explica que a decisão permitirá reforçar as medidas já em curso para assegurar o abastecimento à população e minimizar o impacto da escassez de água.

"Estamos plenamente conscientes dos transtornos que esta situação está a causar às famílias, às empresas e às instituições. Lamentamos profundamente todos os constrangimentos e agradecemos o sentido de responsabilidade e a colaboração que os almadenses têm vindo a demonstrar", refere a câmara.

Frederico Santos considera que a medida "é o mínimo", alertando para os riscos de saúde pública que a falta de água poderá causar.

"Se não houver nenhuma correção rápida e eficaz, a situação de alerta certamente passará para uma situação de calamidade, porque isto vai ter consequências graves na população", diz.

Como parte das medidas de contingência, a autarquia informou que haverá cortes totais no abastecimento de água em algumas zonas do concelho entre as 22h00 e as 06h00. Cheila Medeiros admite que a medida pode fazer sentido se contribuir para garantir o abastecimento durante o dia.

"Claro que também se utiliza água durante o período noturno, mas se isso facilitar o abastecimento durante o dia, pode ser uma mais-valia", considera.

Já o morador da Costa da Caparica mostra-se crítico em relação aos cortes noturnos anunciados pela autarquia.

"É uma medida à portuguesa, que é agir apenas após o problema acontecer. Para mim não é solução, porque eu acho que nem sequer é justo para pessoas que trabalham por turnos, e que fazem a sua vida, ou chegam a casa de madrugada", afirma Frederico.

"Estão só a tapar buracos"

Entre os moradores do concelho, há ainda várias queixas relativamente à comunicação por parte da autarquia e dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS). Frederico Santos diz que as mensagens da câmara e dos SMAS têm sido insuficientes.

"A informação tem sido pouco clara, pouco objetiva e pouco empática, porque da parte da câmara e dos SMAS só vemos um mar de lamentações. Indicam os problemas, que esses nós já os conhecemos, mas nós precisamos é de soluções", admite.

O morador também rejeita a explicação de que o aumento da população durante o verão esteja na origem das falhas, questionando o que poderá acontecer no pico da época balnear.

"O que é que podemos esperar para agosto, que é o mês de maior pico? Aí não vai sair pinga de água da torneira, é isso? São desculpas ridículas de quem efetivamente não parece ter solução, e isso é que é preocupante".

A moradora da Trafaria entende, também, que a comunicação das autoridades tem ficado aquém do esperado. Na sua opinião, a câmara e os SMAS "estão só a tapar buracos", sem apresentarem uma resposta eficaz para resolver o problema.

Um problema evitável

Cheila Medeiros acredita que a situação poderia ter sido antecipada. Defende que, caso o risco já fosse conhecido, a população deveria ter sido informada com maior antecedência para poder preparar-se. Também para o administrativo, a situação poderia ter sido evitada.

"Nós pagamos um serviço que tem que ser de qualidade e regular porque as faturas nunca falham. Se o problema é estrutural, esta situação tinha de ser acautelada e a rede de abastecimento teria de estar preparada para qualquer tipo de eventualidade, seja excesso populacional, seja qualquer coisa", defende.

Quanto às responsabilidades, aponta o dedo aos SMAS, enquanto entidade responsável pelo serviço de abastecimento. Apesar de não acreditar que a situação afete a imagem da Costa da Caparica ao ponto de afastar residentes, manifesta preocupação com o impacto económico no comércio local, sobretudo num período em que a atividade depende fortemente do turismo.

"Tenho empatia pelo comércio local, porque esses sim são verdadeiramente prejudicados, porque se houver menos visitantes, especialmente no mercado sazonal, como é aqui o da Costa da Caparica, esses negócios vão ser prejudicados. Eventualmente as pessoas ficam sem emprego, e isso sim é preocupante".

Corrida à água

A corrida à água engarrafada já se faz sentir em algumas superfícies comerciais do concelho. Carolina Paredes, de 25 anos, trabalhadora num supermercado e residente em Almada, explica que, na loja onde trabalha, ainda não houve ruturas de stock, uma vez que, durante o verão, o reforço no abastecimento de bebidas é habitual.

Ainda assim, garante que a realidade é diferente noutras zonas do concelho mais afetadas pela falta de água. Segundo a funcionária, supermercados da mesma cadeia no Monte de Caparica e na Sobreda já esgotaram os garrafões de água.

"No outro dia a loja do Monte de Caparica até teve de vir à nossa loja buscar águas", revela, acrescentando que a situação em Almada tem sido menos sentida porque, naquela zona, o abastecimento ainda não sofreu interrupções significativas.

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