A ponte foi erguida no contexto de uma retificação da antiga “estrada coimbrã”, uma via que ligava o Porto a Coimbra e que seguia, em partes, o traçado de antigas rotas romanas. Hoje, é a principal ponte histórica da “Estrada Real” Lisboa-Porto, explica Luís Seabra Lopes, professor na Universidade de Aveiro, ao 24notícias.

Estima-se que inicialmente tivesse servido 12 arcos e medisse cerca de 160 m de comprimento. Ao longo dos séculos, sofreu amplas reformulações, particularmente no século XVIII, durante os reinados de D. João V e D. Maria I. Mas em novembro de 2011 sofreu a derrocada de um dos pilares e parte do tabuleiro, numa altura de baixo caudal do Rio Vouga.

A ponte tornou-se, assim, obsoleta. Subsistem apenas vestígios da ponte medieval original, desde pilares e abóbadas, bem como inúmeras pedras com marcas de pedreiros medievais. Esta ponte é considerada a mais relevante infraestrutura histórica na antiga “Estrada Real” Lisboa-Porto, bem como na bacia do Vouga e no distrito de Aveiro.

Apesar da estrada alternativa, a ponte continua a fazer falta

Com a inauguração de uma ponte nova em 1984 (EN1/IC2), a ponte antiga foi transferida para a responsabilidade da Câmara Municipal de Águeda e, segundo Luís Seabra Lopes, rapidamente negligenciada. “A primeira reação da Câmara foi a demolição total, descredibilizando a importância do monumento, mas a população revoltou-se e conseguiu impedir que avançassem”, conta.

Jorge Almeida, presidente da autarquia de Águeda, corroborou esta versão, em resposta ao 24notícias, mas nega alguma vez ter descurado a importância da ponte.

De acordo com o autarca, “a ponte transitou da antiga Estradas de Portugal para o Município em 1996, sem qualquer tipo de inspeção e, ao que tudo indica, já num estado lastimável. Em 2011, fomos alertados pela GNR, presidentes de junta e outros cidadãos, para a existência de uma fissura no tabuleiro da ponte. Nessa altura foi decidido o encerramento imediato da ponte a todo o trânsito automóvel”.

O diagnóstico apresentado numa inspeção realizada em 2010, classificou o estado da ponte como “muito mau”, estimando o custo de intervenção em mais de 350 000 €. Jorge Almeida garante que, apesar da vontade de todos, o maior entrave à reabilitação da ponte é o esforço financeiro.

“Os milhões de euros que gastaríamos na recuperação da ponte inviabilizaria a possibilidade de nos candidatarmos a obras de montantes seis ou sete vezes superiores ao investimento a realizar e que são absolutamente essenciais para o crescimento e desenvolvimento do nosso concelho”, explica Jorge Almeida.

No entanto, Luís Seabra Lopes acredita que o investimento é mais do que justificado, e corresponde à vontade e necessidades dos cidadãos, que criaram uma petição com mais de duas mil assinaturas em defesa da valorização da ponte.

“A verdade é que a ponte nova, que desviou o IC2, causa uma série de transtornos às pessoas daquelas aldeias e, portanto, a ponte velha continua a ser um interesse da população do ponto de vista prático”, defende o professor.

Ponte de Vouga
Ponte de Vouga créditos: Luís Seabra Lopes

Caminho para a esperança: classificação em curso

Após anos de apelos públicos, em 2022 foi apresentado um requerimento para classificar a ponte como Monumento Nacional. Contudo, a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) rejeitou a iniciativa, alegando que só poderia avançar caso existisse um projeto estruturado de reabilitação.

Em 2023, a ponte voltou à agenda nacional com a apresentação de um projeto-resolução na Assembleia da República, apoiado por diversos partidos, propondo a sua classificação e reabilitação. O PS, com maioria, votou contra, justificando com a falta de classificação prévia.

O ponto de viragem ocorreu finalmente em dezembro de 2024: por despacho do presidente do Património Cultural, I.P., foi aberto o procedimento de classificação de âmbito nacional. Este ato foi formalizado no Diário da República em fevereiro de 2025, o que coloca a ponte como "em vias de classificação", incluindo uma zona de proteção de 50 metros.

“A autarquia não conhece o suficiente sobre a ponte, e isso percebe-se logo quando pensam em demoli-la”, refere o professor. “A ponte tem toneladas de madeira acumuladas nos pilares, vegetação a crescer para cima da ponte, que nunca foi resolvido. A câmara recusa-se a fazer as coisas mais elementares, e por isso tivémos de insistir”.

Foram moradores e interessados pelo valor histórico do monumento que permitiram que se chegasse a uma solução de reabilitação. Para a população, o avanço “foi uma importante vitória”, pois aumenta a probabilidade de recorrer a apoios, mas a viabilização da classificação não é certa.

Em 2023, houve uma tentativa para a classificação da ponte como imóvel de interesse nacional, através de um projeto-resolução, que foi chumbado no Parlamento. No entanto, “se se concretizar, vai ser permitir, a exemplo do que aconteceu com a Igreja da Trofa e Panteão dos Lemos, que é um Monumento Nacional, ter acesso a financiamentos (comunitários ou outros) no âmbito da reabilitação do património cultural e avançar para a obra, com comparticipação”, explica o presidente de Câmara.

“Se a câmara continuar sem fazer nada, o Estado terá a obrigação de intervir”, comenta Luís Seabra Lopes.

Um microcosmos da realidade nacional

A Ponte de Vouga é um exemplo da forma como as autarquias pensam o território e memória histórica.
Águeda acredita ser um município “muito interessado na preservação cultural e histórica do seu património. A título de exemplo, próximo desta ponte, a Ponte Medieval do Marnel foi reabilitada, com fundos exclusivos do Município”.

Contudo, tratam-se de obras que não têm o mesmo impacto financeiro que tem a Ponte sobre o rio Vouga, esclarece Jorge Almeida. A grande dificuldade para as autarquias, segundo o presidente, é saber gerir o acervo histórico e encontrar fontes de financiamento.

Para muitos especialistas e cidadãos locais, a ponte representa mais do que um monumento: é um elo com o passado, atravessado por reis itinerantes, peregrinos e populações locais. Reflete também a urgente necessidade de reconectar o património à identidade territorial e à memória coletiva, sem esquecer o interior.