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A abertura dos três dias da hackathon coincidiu com o anúncio do relatório da NATO pelo secretário-geral, Mark Rutte, onde se ficou a saber que, pela primeira vez, todos os países membros atingiram a meta acordada em 2014 de investir pelo menos 2% do PIB em defesa.
A hackathon que conta com a organização da Productized, empresa especializada na dinamização de programas de inovação, tem vindo a assumir um papel ativo no desenvolvimento do ecossistema nacional na área da defesa tecnológica.
André Marquet é CEO da Productized e também auditor de Defesa Nacional, no dia de abertura desta iniciativa, falou com o 24notícias sobre o objetivo da hackathon: "No fundo, é uma experiência muito intensiva, com desafios tecnológicos concretos que são desenvolvidos numa maratona contínua de 48 horas".
Durante esse período, as mais de 15 startups trabalham em soluções que, no sábado (28), são apresentadas num Demo Day a investidores, parceiros e operadores militares. “As equipas apresentam os seus projetos não só a investidores, mas também a sponsors e sobretudo às Forças Armadas, que acabam por integrar o júri e decidir os projetos vencedores”, refere. Os melhores projetos recebem um prémio de 10 mil euros para continuar o seu desenvolvimento.
Defesa entre fragatas e startups: “As duas coisas são importantes”
Questionado sobre se está na altura de abandonar a indústria militar convencional, André Marquet defende que a modernização da defesa não passa por deixar de parte os meios tradicionais, mas por integrá-los com novas tecnologias e modelos de inovação.
“Eu acho que as duas coisas são importantes”, afirma, rejeitando a ideia de substituição total de meios como fragatas por soluções mais recentes.
Segundo explica, o caminho passa por garantir que os grandes investimentos públicos na defesa também impulsionem o tecido empresarial nacional.
O modelo não é novo. “Portugal, quando comprou as fragatas MEKO nos anos 80, conseguiu criar algumas empresas nacionais, algumas das quais ainda existem.” Apesar de, na altura, os recursos serem mais limitados, esse investimento “permitiu a emergência de três ou quatro empresas” que ainda hoje têm relevância.
A chamada “nova defesa” aproxima-se cada vez mais da lógica das startups tecnológicas.
“O que a nova defesa traz são modelos de inovação e prototipagem rápida e acesso a financiamento de capital de risco”, explica. “Isso praticamente não acontecia no setor da defesa e hoje em dia começa a acontecer.”
Em Portugal, há sinais dessa mudança. Empresas como a Tekever ou a Beyond Vision já realizaram várias rondas de investimento, tanto com capital privado como institucional.
Ainda assim, persiste um obstáculo estrutural: o acesso destas empresas ao mercado público. “As compras das Forças Armadas têm de ser mais ‘amigas’ deste tipo de empresas”, defende.
A dificuldade está no facto de estas startups não terem histórico nem influência política. “Ao contrário dos incumbentes, nunca venderam neste tipo de contratos e não têm capacidade de lobbying.”
Abrir esse mercado é, na sua perspetiva, essencial. “É benéfico para toda a gente: trazem uma dinâmica especial, soluções tecnologicamente avançadas e custos tipicamente mais baixos.”
Num país com recursos limitados, essa eficiência torna-se crítica. “Temos de ser mais ágeis, mais low cost, e procurar soluções adaptadas à nossa realidade.”
Para o auditor, a eficácia do investimento em defesa mede-se também pela sua capacidade de gerar economia.
“Este investimento pode ser tanto mais interessante quanto a capacidade de criarmos economia com ele”, afirma. Caso contrário, limita-se à importação: “Muitas vezes não é importação de capacidades, é importação de tecnologia.”
O desafio passa por integrar a indústria nacional nos grandes programas. E há ainda muito por explorar.
Para mobilizar esse potencial, propõe uma inversão de lógica. “Em vez de esperar que as empresas venham ao setor da defesa, o setor deve bater à porta das empresas e fazer encomendas concretas.”
Esse modelo, que descreve como “reverse pitch”, pode ir além da tecnologia avançada. “Podemos estar a falar de coisas simples, como rações de combate, que hoje são importadas e podiam ser produzidas em Portugal.”
Fragatas caras, drones baratos: o novo paradigma da guerra
A evolução tecnológica está também a alterar profundamente a natureza do combate.
“Costuma-se dizer que estamos sempre preparados para a última guerra, mas não para a próxima”, refere. Os conflitos recentes mostram o impacto de sistemas assimétricos, como drones de baixo custo.
“Como é que um sistema que custa 150 mil euros destrói uma fragata que custa centenas de milhões ou até mil milhões de euros?”, questiona. Este desequilíbrio levanta dúvidas sobre os modelos de investimento. “Temos de perguntar o que é que está a acontecer”, diz, apontando para uma assimetria de custo cada vez mais relevante.
O foco, defende, deve estar numa abordagem complementar: “Ter um ecossistema de inovação, drones, software, monitorização, que crie camadas de proteção.”
O desinvestimento prolongado da União Europeia
“A União Europeia deixou de ir ao ginásio”, afirma. “Deixámos de investir e de olhar para as ameaças.” O resultado foi uma perda de capacidade. “Como qualquer área desinvestida, perdemos músculo.”
A guerra híbrida, que combina operações militares, informação e influência sobre a opinião pública, ganhou destaque nos últimos anos, mas não é um fenómeno novo. “Sempre existiu, mas hoje é mais visível.”
Nas democracias, esse fator é decisivo. “Nenhum conflito sobrevive sem o apoio da opinião pública.”
Apesar do atraso, há sinais de mudança. “A realidade mudou muito nos últimos quatro anos e o paradigma hoje é completamente diferente.” Essa transformação já se reflete em novas iniciativas e estruturas europeias dedicadas à inovação na defesa.
“Vem tarde”, admite. “Mas mais vale tarde do que nunca.”
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