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Os dois fortes sismos que atingiram a Venezuela e a região das Caraíbas em menos de um minuto terão resultado da rutura sucessiva de dois segmentos distintos da mesma falha tectónica. A explicação é avançada pelo sismólogo e investigador Luís Matias ao 24notícias:  "Temos dois sismos, um de magnitude 7,2, seguido, 38 segundos depois, de outro com magnitude 7,5. Isto quer dizer que o 7,5 tem cerca de três vezes mais energia do que o sismo de 7,2".

Segundo o especialista, os abalos ocorreram na fronteira entre a placa das Caraíbas e a placa sul-americana, uma zona onde as duas placas deslizam lateralmente uma sobre a outra. "É aquilo que nós chamamos uma falha em deslizamento. As placas deslizam uma pela outra e o movimento entre elas é de cerca de dois centímetros por ano", afirmou.

A velocidade desse movimento é significativamente superior à registada em Portugal continental. "Aqui, onde a placa euroasiática interage com a placa africana, o movimento ronda os quatro milímetros por ano. Ali é cerca de cinco vezes superior, pelo que o potencial para gerar sismos também é maior", sublinhou.

Luís Matias considera que este poderá ter sido um dos maiores sismos já registados instrumentalmente naquela região. Ainda assim, recorda que Portugal também foi afetado por um grande terramoto no passado. "O sismo de 28 de fevereiro de 1969 teve magnitude 7,8, superior à destes sismos. A diferença é que ocorreu no mar, enquanto este aconteceu em terra, diretamente sob zonas habitadas."

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O especialista alerta ainda para a dimensão real destes fenómenos, frequentemente reduzidos ao conceito de epicentro. "Os sismos não são pontos. Estes grandes eventos representam ruturas em falhas que podem ter dezenas ou centenas de quilómetros. Neste caso, a falha poderá ter entre 100 e 150 quilómetros de extensão", explicou.

Por esse motivo, acrescenta, os danos podem estender-se muito para além da área imediatamente associada ao epicentro. "Os grandes efeitos de destruição devem ser observados ao longo de toda a falha e não apenas na região do epicentro."

Um "dupleto" sísmico

A ocorrência de dois sismos de grande magnitude em tão curto espaço de tempo não é comum, mas também não é inédita. Luís Matias acredita que os dois eventos estão diretamente relacionados.

"A minha interpretação é que se tratam de dois pedaços dessa falha que romperam um a seguir ao outro. O sismo de magnitude 7,2 terá ajudado a empurrar a rutura do sismo de magnitude 7,5", explicou.

O investigador classifica o fenómeno como um "dupleto". "Podemos chamar-lhe um dupleto, ou seja, dois sismos de grande magnitude que ocorrem com um pequeno intervalo de tempo."

Questionado sobre a preparação dos países para este tipo de eventos, Luís Matias sublinha que a principal proteção continua a ser a qualidade das construções.

"Portugal tem regulamentos de construção antissísmica desde a década de 1960. Muitos países possuem hoje normas semelhantes precisamente para garantir que os edifícios resistam aos movimentos sísmicos esperados", afirmou.

No entanto, alerta que a existência de regras não basta. "A verdade é que nem sempre estes regulamentos são aplicados ou fiscalizados."

Para ilustrar essa realidade, o sismólogo compara os casos do Haiti e do Chile. "O sismo do Haiti teve magnitude inferior, cerca de 7,1, mas causou uma destruição brutal porque não existiam regulamentos adequados. Já o sismo do Chile, com magnitude 8,1, provocou muito menos destruição porque o país tem regras de construção antissísmica robustas e aplicadas."

Além da preparação das infraestruturas, o especialista defende a importância da preparação individual. "Ter um kit de emergência, um plano familiar e saber como agir antes, durante e depois de um sismo são medidas fundamentais."

Numa fase posterior, destaca ainda o papel da cooperação internacional nas operações de socorro. "Mesmo os países mais preparados agradecem toda a ajuda possível nos primeiros momentos após uma catástrofe, quando é necessário localizar sobreviventes e retirá-los dos escombros", concluiu.

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