Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Em Chipre o vírus é alheio à divisão política da ilha. No sul, a República de Chipre, que segue as regras da União Europeia, está obrigada a aplicar uma política muito rígida: sempre que há infeção confirmada, as autoridades exigem o abate de rebanhos inteiros, mesmo que apenas um animal esteja infetado ou exposto. Esta abordagem visa travar rapidamente a propagação, mas está a gerar forte contestação entre agricultores.
No norte da ilha, controlado pelos turco-cipriotas e reconhecido apenas pela Turquia, a estratégia é diferente: as autoridades optaram sobretudo pela vacinação dos animais, evitando o abate massivo. No entanto, a vacinação não elimina totalmente a possibilidade de transmissão, o que significa que o vírus pode continuar a circular e voltar a infetar o sul, criando um ciclo difícil de controlar.
A falta de coordenação entre as duas partes está a tornar o problema mais grave, segundo o Politico. Agricultores e associações do setor alertam que só uma resposta conjunta poderia conter o surto, já que a ilha funciona como um único ecossistema pecuário. Representantes do setor descrevem Chipre como uma “unidade única” do ponto de vista agrícola, defendendo que “o ambiente, o ar e o território não podem ser divididos”, numa crítica direta à separação das políticas sanitárias.
O impacto económico é significativo porque o Halloumi é um dos principais produtos de exportação de Chipre. Produzem-se mais de 45 mil toneladas por ano, das quais cerca de 42 mil são exportadas, gerando centenas de milhões de euros. O queijo depende fortemente de leite de ovelha e cabra (embora também possa incluir leite de vaca), mas o setor já enfrentava antes desta crise uma escassez de matéria-prima. Muitos produtores estavam a recorrer a leite de vaca em maior escala, o que é tecnicamente permitido, mas vai contra a receita tradicional protegida por certificação europeia.
Agora, o receio principal não é a segurança alimentar do queijo, o vírus não afeta os consumidores, mas sim a destruição do rebanho. Se o abate se tornar generalizado, a produção de leite pode cair drasticamente, comprometendo toda a cadeia do Halloumi.
A situação começou no norte da ilha, onde o primeiro caso foi detetado em dezembro, tendo depois passado para o sul em fevereiro, segundo as autoridades cipriotas, que suspeitam de origem ligada à Turquia continental. Desde então, já terá afetado cerca de 5,5% do gado no sul.
Perante o avanço da doença, Bruxelas manteve uma posição firme: recusou flexibilizar a regra do abate no sul. A argumentação da União Europeia é que permitir abordagens diferentes dentro do mesmo território poderia levar a uma propagação descontrolada e, no limite, contaminar toda a ilha, eliminando completamente o setor pecuário. Um comissário europeu responsável pela área da saúde animal afirmou que não agir significaria arriscar a perda total de todos os animais da ilha.
Ao mesmo tempo, a UE tem prestado algum apoio ao norte, incluindo o envio de vacinas, embora estas não sejam consideradas suficientes para erradicar o vírus segundo os padrões europeus. Este paradoxo alimenta críticas no sul, onde agricultores dizem que estão a ser penalizados por regras mais duras enquanto o norte recebe uma estratégia mais flexível.
O impasse político agrava ainda mais o problema. O governo cipriota pediu a Bruxelas que abrisse exceções às regras de abate, precisamente porque elas só estão a ser aplicadas de forma efetiva numa parte da ilha, mas o pedido foi rejeitado. Do lado turco-cipriota, há acusações de falta de cooperação e afirma-se que já houve partilha de informação e até envio de vacinas para o sul, embora as autoridades do sul contestem a eficácia dessa cooperação.
O conflito já chegou às ruas, agricultores no sul têm feito protestos contra o abate de animais aparentemente saudáveis, argumentando que as regras são demasiado drásticas e economicamente destrutivas. Houve até manifestações simbólicas, incluindo a utilização de um caixão para representar o “fim” da pecuária.
O setor do Halloumi é o segundo maior produto de exportação de Chipre, com elevado valor económico, qualquer quebra na produção de leite tem impacto direto nas exportações e na economia rural. Produtores alertam que, se muitos rebanhos forem abatidos, mesmo uma contenção bem-sucedida do vírus poderá não evitar uma crise prolongada de abastecimento.
__
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários