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A Polícia Federal brasileira lançou a "Operação Miragem", uma investigação que mobilizou mais de 50 agentes para cumprir nove mandados de busca e apreensão relacionados com alegadas fraudes no banco Digimais. A Justiça Federal determinou ainda o bloqueio de 670 milhões de reais (105 milhões de euros) em bens e ativos dos investigados, bem como o levantamento dos respetivos sigilos bancário e fiscal, entre os quais Edir Macedo.
Edir Macedo, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da TV Record, apesar de ser o principal acionista do banco, Edir Macedo não foi alvo da operação.
Segundo a investigação, o banco terá adulterado relatórios financeiros para ocultar a sua real situação económica. O objetivo seria apresentar aos reguladores uma imagem de solidez financeira e, dessa forma, obter autorização para realizar operações consideradas irregulares.
O que está em causa?
Segundo a Polícia Federal, responsáveis do Digimais terão manipulado demonstrações financeiras e registos contabilísticos para ocultar a verdadeira situação financeira da instituição.
O objetivo seria apresentar uma imagem artificial de solidez perante as autoridades reguladoras, permitindo ao banco continuar a captar depósitos e a conceder crédito apesar das dificuldades financeiras.
Os investigadores suspeitam ainda que a instituição tenha recorrido a práticas consideradas temerárias, semelhantes às identificadas no caso do Banco Master. Entre elas estarão operações destinadas a inflacionar o valor dos ativos e a gerar receitas fictícias de vários milhões de reais.
Em causa estão suspeitas dos crimes de "gestão fraudulenta, falsificação de dados contabilísticos e realização de operações de crédito proibidas", todos previstos na legislação brasileira relativa aos crimes contra o sistema financeiro nacional.
Na véspera da operação, a agência de notação financeira Fitch retirou a classificação do Digimais e desceu a sua avaliação, justificando a decisão com a falta de informação fiável sobre a instituição, os processos judiciais relacionados com o Banco Master e a incerteza em torno das negociações para uma eventual venda do banco.
Em resposta, o Digimais afirmou, em comunicado citado pela Folha de S.Paulo, que está totalmente disponível para colaborar com as autoridades e reiterou o seu "compromisso com a transparência e a conformidade regulatória".
O que é o Digimais?
O Digimais é uma banco financeiro de pequena e média dimensão, com cerca de 8,5 mil milhões de reais (1,33 mil milhões de euros) em ativos e uma carteira de crédito de aproximadamente 1,6 mil milhões de reais (cerca de 250 milhões de euros).
O banco especializou-se inicialmente no crédito automóvel e, mais tarde, alargou a atividade ao crédito consignado. Ao contrário dos bancos tradicionais, opera essencialmente através de correspondentes bancários e parceiros comerciais, sem uma rede própria de balcões.
A instituição nasceu como Banco Renner, ligado à família proprietária da cadeia de lojas com o mesmo nome.
Em 2009, Edir Macedo entrou no capital da instituição através de uma parceria com a família fundadora. A operação foi aprovada pelo Banco Central brasileiro em 2013, embora representasse inicialmente apenas uma participação minoritária.
Foi apenas em 2020 que assumiu o controlo total do banco, que passou então a designar-se Digimais. Apesar de ser o principal acionista, nunca desempenhou funções executivas, ficando a gestão corrente entregue a administradores profissionais.
Nos últimos anos, o Digimais começou a revelar sinais de deterioração financeira, obrigando Edir Macedo a realizar sucessivos aumentos de capital.
Segundo Carolina Mandl, editora de Economia da Folha de S.Paulo, após o colapso do Banco Master o mercado começou a identificar outras instituições potencialmente vulneráveis. O Digimais foi uma delas.
A instituição tinha iniciado contatos para encontrar um comprador. Em 2025 decorreram conversas com Maurício Quadrado, antigo sócio do Banco Master, que acabaram por não avançar. Posteriormente surgiram conversações com o Nubank e com o BTG Pactual, que chegou mesmo a anunciar, em abril, a intenção de adquirir o banco.
Quem é Edir Macedo?
Edir Macedo nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Criado numa família católica, converteu-se ao protestantismo aos 19 anos e, no início da vida adulta, trabalhou em organismos públicos do estado do Rio de Janeiro.
Em 1975 fundou a Cruzada Religiosa do Caminho Eterno e, dois anos depois, criou a Igreja Universal do Reino de Deus, juntamente com o cunhado Romildo Ribeiro Soares, conhecido como R. R. Soares. A parceria terminou em 1980, quando Soares fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus.
Segundo a Igreja Universal, citada pelo Público BR, nos primeiros oito anos de atividade a instituição expandiu-se para 195 templos em 15 estados brasileiros. Em 1989, quando Edir Macedo adquiriu a TV Record, a igreja já contava com 571 templos no Brasil e no estrangeiro. Atualmente, está presente em cerca de 150 países, incluindo Portugal, e afirma pregar o Evangelho em 102 línguas.
A aquisição da TV Record custou 45 milhões de dólares à época, o equivalente a cerca de 38 milhões de euros em valores atuais. A estação pertencia ao grupo de Sílvio Santos e à família Machado de Carvalho. Para evitar constrangimentos nas negociações, Edir Macedo não participou diretamente no processo de compra.
Como funcionaria o alegado esquema?
De acordo com a investigação, o Digimais recorria a operações entre fundos de investimento para inflacionar artificialmente o valor dos seus ativos.
O banco adquiria quotas de determinados fundos que eram sucessivamente transferidas entre diferentes veículos financeiros, aumentando o respetivo valor contabilístico em números "surreais".
Foram precisamente estas operações que despertaram a atenção dos auditores independentes, que começaram a assinalar movimentos considerados anormais.
Segundo a Polícia Federal, o esquema permitia apresentar balanços muito mais favoráveis do que a realidade, mascarando prejuízos e permitindo ao banco continuar a captar recursos no mercado.
O bloqueio de 670 milhões de reais determinado pela Justiça visa preservar património enquanto decorre a investigação. Os ativos permanecerão congelados até ser apurado se resultam de práticas ilícitas. Apesar da operação, o Digimais continua a funcionar normalmente.
À semelhança do que aconteceu no caso do Banco Master, a investigação voltou a levantar dúvidas sobre a eficácia da supervisão do sistema financeiro brasileiro.
Parte das alegadas irregularidades envolve fundos de investimento, cuja supervisão cabe à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e não diretamente ao Banco Central, situação que, segundo vários especialistas, poderá ter criado falhas de fiscalização.
Neste processo, os auditores independentes desempenharam um papel decisivo. Apesar de serem contratados pelo próprio banco, dispõem de autonomia para solicitar documentação, verificar operações e comunicar eventuais irregularidades ao regulador. No caso do Digimais, foram precisamente esses auditores os primeiros a sinalizar operações consideradas atípicas.
Segundo Carolina Mandl, o banco mantém um contrato com o Estado de São Paulo para conceder crédito consignado à polícia estadual. Ainda assim, não existem indícios de que fundos de pensões públicos tenham investido em títulos do Digimais, ao contrário do que aconteceu no caso do Banco Master.
O que pode acontecer agora?
O Banco Central brasileiro vinha exigindo sucessivos reforços de capital ao Digimais. No final do ano passado foi anunciada uma capitalização de cerca de 250 milhões de reais por Edir Macedo. No entanto, os investigadores suspeitam que essa operação possa não ter sido concretizada da forma apresentada nas contas da instituição.
Embora o Digimais seja muito mais pequeno do que o Banco Master, o caso representa um novo abalo na confiança do sistema financeiro brasileiro.
Caso a situação se agrave, caberá ao Banco Central decidir se a instituição poderá continuar a operar, se deverá mudar de acionista, ser alvo de intervenção ou mesmo ser liquidada.
Também o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) acompanha a evolução do caso com preocupação. Depois das perdas associadas ao Banco Master, uma eventual resolução do Digimais poderá representar novos encargos para o fundo. Analistas admitem que os bancos brasileiros poderão voltar a reforçar as suas contribuições para o FGC, receando que venham a surgir novos casos semelhantes no setor financeiro.
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