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O fenómemo tem nome, Síndrome do bebé esquecido, e segundo a National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA,  bastam cerca de 10 minutos para a temperatura no habitáculo aumentar cerca de 20 ºC, sendo possível atingir mais de 40 ºC no interior quando no exterior estão apenas cerca de 24 ºC. Sendo que o corpo de uma criança aquece entre três e cinco vezes mais depressa do que o de um adulto, podendo atingir níveis fatais em poucos minutos. Os animais de estimação, sobretudo cães, estão igualmente em grande risco, já que não conseguem regular eficazmente a sua temperatura corporal e podem morrer em poucos minutos num habitáculo exposto ao sol.

Apesar das campanhas de sensibilização, as estatísticas mostram que o problema pouco tem diminuído, os últimos dados disponíveis dizem que em Portugal morre uma criança por ano desta forma, já nos EUA estimam-se que sejam 37 por ano. Com o mesmo problema, Itália foi o primeiro país a tornar obrigatória, em 2020, a utilização de sistemas de deteção de crianças para quem transporte menores até aos quatro anos, prevendo multas, perda de pontos na carta e até suspensão da carta de condução em caso de incumprimento. Israel adotou medidas semelhantes e, nos Estados Unidos a Lei Bipartidária de Infraestruturas, aprovada em 2021, obriga o Departamento dos Transportes a criar uma norma que exija este tipo de tecnologia em todos os veículos novos, embora o processo tenha sofrido atrasos sucessivos.

Se há uns anos era uma realidade apenas de carros topo de gama, hoje em dia a maioria dos carros elétricos já tem a sistemas incorporados destinados a evitar estas tragédias.

As soluções mais simples funcionam como um lembrete ao condutor para verificar o banco traseiro no final da viagem. A Toyota disponibiliza o sistema "Verificar o Banco Traseiro" em praticamente toda a sua gama, enquanto Hyundai, Kia, Honda, Škoda e Ford oferecem soluções semelhantes. A Škoda, por exemplo, questiona o condutor se "não se esqueceu de nada" e se "já saíram todos", enquanto a Ford, através do sistema Rear Occupant Alert, relembra que a temperatura corporal de um bebé aumenta muito mais rapidamente do que a de um adulto e que um cão pode morrer em apenas alguns minutos num veículo fechado.

As soluções mais avançadas recorrem a radares e sensores capazes de detetar a presença de uma criança ou de um animal no habitáculo, mesmo quando permanecem imóveis, estão numa cadeira voltada para trás ou cobertos por um cobertor. O Leapmotor B10 "utiliza radares de habitáculo capazes de detetar a respiração ou pequenos movimentos, evitando que fiquem esquecidos em dias de muito calor", e aciona um alarme assim que deteta que um ser vivo é deixado no carro. A Toyota e Tesla desenvolveram sistemas baseados em radares de ondas milimétricas, tecnologia igualmente utilizada em aplicações militares e de busca e salvamento. A Volvo foi uma das primeiras marcas a anunciar um sistema deste tipo para os modelos elétricos EX30 e EX90, recorrendo a um radar interior que impede que crianças ou animais fiquem esquecidos no veículo. A Perodua introduziu recentemente o sistema Child Presence Detection (CPD) no novo QV-E, capaz de detetar sinais vitais através de radar, acionando a buzina, os quatro piscas e notificações para o telemóvel do proprietário caso detete um ocupante no interior após o veículo ser trancado. Já a Valeo desenvolveu um conjunto de tecnologias de monitorização do habitáculo que inclui sistemas de deteção do estado do condutor, monitorização dos passageiros e o Life Presence Detection, um radar interior apoiado por inteligência artificial que identifica movimentos subtis, como a respiração, mesmo quando existem obstáculos visuais, emitindo alertas sonoros, visuais e para o smartphone. Este tipo de tecnologia passou, desde 2022, a integrar os critérios de avaliação do Euro NCAP, que pretende incentivar a sua generalização nos automóveis vendidos na Europa.

Além dos sistemas instalados de origem pelos fabricantes automóveis, existem também soluções desenvolvidas por empresas especializadas em puericultura. A italiana Chicco, em parceria com a Recaro, desenvolveu o BebèCare Easy-Tech, um dispositivo que se liga à cadeira da criança e comunica por Bluetooth com o smartphone do condutor. Se este se afastar do veículo sem retirar a criança, o sistema emite alertas progressivos e, numa fase posterior, envia a localização do automóvel para contactos de emergência previamente definidos. Em Portugal, este dispositivo chegou a ser comercializado numa parceria entre a Chicco e a SEAT, com um preço de cerca de 40 euros, embora a sua adoção tenha permanecido reduzida. Também aplicações como o Waze permitem configurar lembretes para verificar o banco traseiro quando o condutor abandona o veículo, ainda que a sua eficácia dependa de a aplicação estar em utilização durante a viagem.

Anualmente, especialistas em segurança lembram que estas tecnologias não deviam ser só um parâmetro de avaliação de segurança automóvel, como o Euro NCAP na Europa e o ANCAP na Austrália, começaram a valorizar a presença destes sistemas nas suas classificações, incentivando os fabricantes a generalizar esta tecnologia a um número cada vez maior de modelos, e não apenas aos topos de gama, mas sim uma obrigatoriedade como os cintos de segurança.

O neurocientista norte-americano David Diamond, da Universidade do Sul da Flórida e especialista neste fenómeno, desenvolveu ao longo de décadas de investigação uma teoria que explica o que se passa no cérebro nestas situações. Segundo Diamond explica ao Nine, o problema surge de um conflito entre dois sistemas de memória distintos: a "memória de hábito", responsável por tarefas repetitivas e automáticas, como o trajeto diário de casa para o trabalho, e a "memória prospetiva", que trata do planeamento de ações futuras específicas, como levar uma criança à creche nesse dia em particular. Quando a memória de hábito prevalece sobre a memória prospetiva, o condutor entra numa espécie de "piloto automático" e segue o trajeto habitual, ignorando por completo a mudança de planos que deveria ter feito. De acordo com o investigador, praticamente todos os pais afetados por este fenómeno relataram ter desenvolvido uma "falsa memória" de que, de facto, tinham deixado a criança na creche ou no infantário nesse dia, uma memória que o cérebro constrói e que os impede de suspeitar de que algo está errado até ser tarde demais.

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