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Nos artigos 233.º e 234.º da Constituição venezuelana estão previstos os cenários de vazio de poder decorrentes da ausência do Presidente da República. O artigo 234.º estabelece que, em caso de “ausência temporária”, a vice-presidente assume o poder por um período de noventa dias, prorrogável pela Assembleia Nacional por igual duração. Já o artigo 233.º define os procedimentos a adotar em caso de “ausência absoluta” do presidente. Nessa situação, de acordo com o texto constitucional, Delcy Rodríguez assumiria interinamente a chefia do Estado durante trinta dias, período no qual deveriam ser convocadas “novas eleições universais, diretas e secretas”.
Após os ataques contra o país, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou, numa conferência de imprensa no sábado, que o secretário de Estado, Marco Rubio, tinha mantido contactos com a vice-presidente venezuelana. Segundo Trump, Delcy Rodríguez demonstrou disponibilidade para cooperar com Washington numa nova fase para a Venezuela. “A vice-presidente falou com o Marco ("referindo-se a Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano") e disse: ‘Faremos tudo o que for preciso’. Parece-me que foi bastante cortês. Vamos fazer isto da forma correta”, declarou o presidente norte-americano.
As declarações surpreenderam alguns analistas. “Ela ("referindo-se à vice-presidente Delcy Rodríguez") não é uma alternativa moderada a Maduro. Tem sido uma das figuras mais poderosas e de linha dura de todo o sistema”, afirmou Imdat Oner, analista político do Instituto Jack D. Gordon e ex-diplomata turco sediado na Venezuela, em declarações à CNN.
Segundo o analista, “a sua ascensão ao poder parece resultar de algum tipo de entendimento entre os Estados Unidos e atores-chave que se preparam para um cenário pós-Maduro”. Nesse contexto, acrescentou, Delcy Rodríguez “serviria essencialmente como uma administradora interina até que um líder democraticamente eleito assumisse o cargo”.
Esses pontos vieram a comprovar-se numa primeira comunicação oficial ao país, onde a presidente interina da Venezuela adotou um tom fortemente confrontacional em relação aos Estados Unidos. Classificou a intervenção norte-americana como uma “agressão militar sem precedentes” e reafirmou Nicolás Maduro como o “único presidente” legítimo da Venezuela. Na sua declaração, acusou Washington de tentar derrubar o regime com o objetivo de controlar os recursos naturais do país. “As máscaras caíram, revelando o verdadeiro objetivo: a mudança de regime na Venezuela. Essa mudança permitiria também a captura dos nossos recursos energéticos, minerais e naturais. Esse é o verdadeiro propósito”, afirmou.
Perante a ameaça de novos ataques norte-americanos, Delcy Rodríguez adotou um tom mais conciliatório e propôs a criação de uma agenda de cooperação com Washington. Num comunicado publicado no Instagram, declarou: “Convidamos o governo dos EUA a colaborar connosco numa agenda orientada para o desenvolvimento partilhado, no âmbito do direito internacional, de modo a reforçar uma coexistência comunitária duradoura.”
Herdeira de "mártir de esquerda" e fiel ao chavismo
Delcy Eloína Rodríguez Gómez, conhecida politicamente como Delcy Rodríguez, nasceu em Caracas, em 1969. É filha de Jorge Antonio Rodríguez, um dos fundadores da Liga Socialista, partido marxista ativo na década de 1970 e 1980, que viria depois a dar origem ao Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), que sob a liderança de Hugo Chávez e Nicolás Maduro perdura no poder.
O pai morreu em 1976 enquanto se encontrava detido pela então Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção (DISIP), acusado de ligação ao sequestro de William Niehous, um alto executivo de uma empresa norte-americana a operar na Venezuela. A sua morte, associada a alegados maus-tratos durante a detenção, gerou forte comoção pública e contribuiu para que se tornasse um "mártir da esquerda" venezuelana e, mais tarde, do chavismo.
É irmã de Jorge Rodríguez, atual presidente da Assembleia Nacional, psiquiatra de formação e figura central do regime. De acordo com o jornal El País, Jorge Rodríguez demonstrava não ter como objetivo construir consensos e, num cenário de saída de Maduro, considerava-se o único nome legítimo para a sucessão presidencial.
“Os irmãos Rodríguez dedicaram a vida a vingar a morte do pai. Eles próprios já o disseram várias vezes: é algo pessoal”, afirmou à RTVE Virginia Linares, jornalista venezuelana residente em Espanha há mais de duas décadas. Ao El País, um antigo amigo da família relatou também que “Delcy Goméz, a viúva, ficou profundamente marcada por esse crime, incutindo nos filhos a obrigação de serem os melhores, conquistar o poder e vingar a morte do pai”.
Foi num ambiente familiar fortemente ideologizado, onde se liam autores marxistas e se ouviam canções de Silvio Rodríguez ou Pablo Milanés, que os irmãos Rodríguez cresceram e se formaram politicamente.
Antes de ingressar na vida política, Delcy Rodríguez formou-se em Direito na Universidade Central da Venezuela, prosseguindo estudos em direito laboral e sindical em Paris. A sua carreira política teve início em 2003, quando integrou a Coordenação Geral da Vice-Presidência da República Bolivariana da Venezuela. Mais tarde, assumiu o cargo de diretora de Assuntos Internacionais do Ministério da Energia e Minas. Desde então, ocupou sempre funções no Executivo venezuelano, quando a nomeou vice-presidente. Em 2018, já no seu segundo e contestado mandato, Maduro descreveu-a como “jovem” e uma “corajosa testada em mil batalhas. Mais recentemente, acumulava a vice-presidência com a pasta do Petróleo, no país que tem das maiores reservas de crude do mundo.
Tal como o irmão, iniciou a carreira política durante o mandato de Hugo Chávez (1999-2013) e, com a chegada de Nicolás Maduro ao poder, consolidou-se no núcleo duro do regime chavista.
Ao longo dos seus anos na política ganhou proeminência por conseguir estabilizar a economia venezuelana depois de anos de crise e mesmo com sanções norte-americanas, o que lhe granjeou algum respeito, segundo afirma o The New York Times. Além disso, é vista como capaz de construir pontes com elites económicas, investidores estrangeiros e diplomatas, adoptando uma postura mais próxima e agradável do que a de outras figuras mais aguerridas da esfera de Maduro.
Segundo o jornal El Nuevo Herald, em outubro de 2025, um grupo de altos responsáveis do governo venezuelano, liderado por Delcy Rodríguez e pelo irmão Jorge, terá promovido discretamente, nos últimos meses, uma série de contactos destinados a apresentar-se a Washington como uma alternativa “mais aceitável” ao regime de Nicolás Maduro, de acordo com fontes com conhecimento direto das conversações. Delcy Rodríguez rejeitou essas informações, classificando-as como falsas e acusando o jornal de promover “mentiras e sensacionalismo”.
E María Corina Machado ?
A líder da oposição venezuela, que recebeu o Nobel da Paz em 2025 e até dedicou o prémio ao presidente Trump, seria a escolha previsível. Contudo, na conferência de imprensa de sábado, Trump disse que Corina Machado não “tinha o respeito” dos venezuelanos, e por isso não era uma opção. Estes comentários apanharam a líder da oposição desprevenida e foram “difíceis de digerir”, de acordo com dois elementos da sua equipa que falaram com o The Washington Post.
Na administração norte-americana, Pete Hegseth, secretário da Defesa afirma que será o presidente norte-americano a decidir "os termos da governação", e Marco Rubio deixou em tom de aviso que os EUA "vão avaliar" o comportamento de Delcy Rodríguez. Segundo fontes afirmaram ao The New York Times, o nome da vice-presidente já estava escolhida "há semanas".
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