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A iniciativa, que decorre em parceria com as associações Animal Resort e Santuário Animal, tem como foco principal utilizar a interação com animais como facilitador afetivo e de confiança no percurso de recuperação das vítimas.

Segundo Eva Ferreira, diretora técnica da Cáritas Braga, este projeto "traduz o nosso compromisso com intervenções humanizadas, que colocam a pessoa no centro da intervenção", destacando que, mesmo numa fase exploratória com apenas cinco sessões iniciais, "as atividades assistidas por animais têm revelado um impacto muito positivo ao nível do bem-estar emocional", sobretudo entre mulheres e famílias que passaram por experiências traumáticas de violência doméstica.

Numa das sessões realizadas no Centro de Acolhimento de Emergência para vítimas de violência doméstica, a presença do cão Bono, preparado especificamente para este tipo de interação, "proporcionou um momento de conforto emocional e reforço afetivo entre os participantes". Para a psicóloga clínica Ana Martins a ligação com os animais pode ter um papel determinante nos primeiros momentos após a saída de uma situação de violência. "Muitas vítimas chegam em estado de hipervigilância, com medo constante e grande dificuldade em confiar nos outros. A presença de um animal ajuda a baixar essas defesas de forma espontânea, porque não existe julgamento nem exigência", afirma ao 24notícias.

Segundo a especialista, os benefícios são visíveis em pouco tempo. "Pode verificar-se uma diminuição clara dos níveis de ansiedade, melhorias no humor e uma maior disponibilidade para o diálogo e para o acompanhamento psicológico. Para algumas pessoas, este é o primeiro espaço onde se sentem verdadeiramente seguras", revela.

O programa tem também em conta a importância que os animais assumem na vida de muitas vítimas. Em vários casos, o receio de abandonar animais de estimação é um fator que atrasa ou impede a saída de relações violentas. "Reconhecer o valor emocional dos animais é reconhecer a realidade destas pessoas. Eles representam afeto, proteção e, muitas vezes, o único vínculo estável que a vítima tem", sublinha Ana Martins.

O projeto da Cáritas insere-se num conjunto mais amplo de respostas sociais centradas nas vítimas, que combinam apoio psicológico, legal e social. Embora, nesta fase, as sessões assistidas por animais ainda não sejam formalmente classificadas como terapia, a recetividade entre os participantes tem sido "altamente gratificante", segundo os responsáveis pelas sessões.

Se é vítima de violência doméstica ou conhece alguém em risco, denuncie.
Ligue 800 202 148 (Linha Nacional de Emergência Social - gratuita e disponível 24h).
Em caso de emergência, ligue 112.

Os promotores do projeto sublinham que iniciativas deste tipo não pretendem substituir o apoio profissional tradicional, mas acrescentar uma dimensão complementar ao cuidado emocional. "Cada pessoa é diferente e, mesmo quando o contexto é semelhante, os objetivos e o percurso têm de ser pensados caso a caso", explicou a psicóloga, reiterando o potencial dos animais em facilitar a construção de confiança e alívio emocional em contextos de vulnerabilidade.

A Cáritas adianta que o projeto está ainda numa fase inicial, mas poderá ser alargado a outras regiões do país caso os resultados se mantenham positivos. Para a psicóloga, esta abordagem reflete uma evolução necessária nas respostas sociais. "Estamos a falar de uma intervenção simples, mas profundamente eficaz. A recuperação não passa apenas por garantir segurança física, mas também por reconstruir a confiança, a autoestima e a capacidade de estabelecer relações saudáveis", conclui.

Contexto nacional e futuro

A violência doméstica continua a ser um dos problemas sociais mais urgentes em Portugal, levando milhares de pessoas a procurar apoio e proteção todos os anos. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) presta serviços gratuitos, confidenciais e especializados a pessoas afetadas por crimes, incluindo violência doméstica, oferecendo apoio moral, jurídico, psicológico e social.

Iniciativas como a da Cáritas Braga apontam para "uma tendência crescente de soluções integradas e inovadoras no acolhimento e recuperação de sobreviventes de violência doméstica, reconhecendo a importância de abordar não apenas as necessidades práticas, mas também o impacto emocional e psicossocial dessa violência", dizem as responsáveis.

Se é vítima de violência doméstica ou conhece alguém que seja, as seguintes linhas de apoio podem ajudar

APAV | Associação Portuguesa de Apoio à Vítima

tel. 116 006 (telefonema gratuito, das 08h00 às 2h00)

Guarda Nacional Republicana (GNR)

A Plataforma SMS Segurança foi desenvolvida para dar resposta quer a pessoas surdas ou portadoras de deficiência auditiva como para situações de urgência em que o tradicional canal de voz não seja o mais adequado:  tel. 961 010 200

Centro de Saúde ou Hospital da zona de Residência (Portal da Saúde)

SNS 24 (808 24 24 24), disponível todos os dias, 24 horas por dia

Número Nacional de Socorro (112)

Linha Nacional de Emergência Social (tel. 144, disponível todos os dias, 24 horas por dia)

Linha da Segurança Social (tel. 300 502 502)

"A continuidade e expansão deste tipo de programa poderão abrir caminho para respostas ainda mais abrangentes, incluindo eventualmente acolhimento de animais de estimação junto das vítimas em contextos de fuga e abrigo, uma lacuna apontada por especialistas e organizações internacionais como crucial para garantir que ninguém tenha de escolher entre a sua segurança e a do seu animal de companhia", dizem.

Sendo um projeto piloto, a sua continuidade e eventual expansão dependem da existência de apoios que permitam garantir, às associações, a sustentabilidade a médio e longo prazo. "Na área social, sabemos que o verdadeiro impacto só se alcança com tempo e continuidade. Este não é um projeto para ser pontual. Queremos estruturá-lo, avaliá-lo e, se possível, torná-lo sustentável, para que possa beneficiar mais pessoas no futuro", conclui Hugo Durão, fundador da Animal Resort.

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