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“Viajar no Tempo – Ferrovia entre o Vouga e o Dão” é o projeto que ambiciona valorizar as antigas estações e apeadeiros de linhas de comboio entretanto encerradas no centro do país. Oliveira de Frades, Tondela e Vouzela são os três municípios envolvidos na iniciativa de turismo ferroviário, orçada em 600 mil euros e apresentada na semana passada em conferência no Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento. Os visitantes não poderão contar, no entanto, com comboios a circular, ao contrário de outras iniciativas em Espanha, França e Itália.

Durante a conferência, um debate juntou os presidentes das três câmaras municipais que desenvolveram o projeto, a vice-presidente do Turismo Centro de Portugal, o líder da fundação que gere o museu ferroviário e ainda o secretário executivo da comunidade intermunicipal de Viseu Dão Lafões (CIMVDL). No final, reconheceu-se a dificuldade em chegar aos locais para quem não tem carro próprio.

Estado da arte

Em Vouzela, a antiga estação ferroviária da Linha do Vouga transformou-se num terminal rodoviário, onde param os autocarros da região (MobiViseuDãoLafões) e da Rede Expressos. No interior, apenas funciona o balcão de atendimento – o café está vazio. No exterior, apenas o depósito de água está no mesmo local. No lugar da antiga via estreita (com carris à distância de um metro), vê-se a pista para bicicletas e peões, pintada de verde.

Ao seguirmos a pista, encontramos, alguns metros adiante, a locomotiva E202, que funcionava a carvão-vapor. Fabricada em 1911, está a ser recuperada “e precisa de manutenção, pois está há cerca de três décadas naquele espaço”, indicou no debate o presidente da câmara, Carlos Oliveira. No local, não há qualquer informação sobre os trabalhos. Ainda em Vouzela, percorremos a Ponte do Caminho-de-Ferro, de 1913, que também faz parte da ecopista.

Em Tondela, a antiga estação pertence à Ecopista do Dão, inaugurada em 2011. É a sede de um clube de caça e pesca e ponto de paragem para autocaravanas. No concelho, o projeto prevê a melhoria da antiga estação de Tonda, a sul de Tondela. Ao abrigo da iniciativa, serão ainda recolhidos testemunhos de antigos ferroviários da região e ainda colocadas placas informativas nas antigas estações de Oliveira de Frades e São Vicente de Lafões (Oliveira de Frades), Sabugosa e Parada de Gonta (em Tondela).

Estação comboio Tondela
Estação comboio Tondela créditos: Diogo Ferreira Nunes MadreMedia

Partilhar memórias

Os autarcas defendem a iniciativa por causa da história das antigas linhas ferroviárias: Tondela perdeu o comboio em setembro de 1989, quando fechou a Linha do Dão, entre Santa Comba Dão e Viseu; no início de 1990, foi a vez de Vouzela e Oliveira de Frades, depois do encerramento de parte da Linha do Vouga, entre Sernada e Viseu, que tornou-se na primeira capital de distrito sem comboios. 

“Temos de transmitir às novas gerações as memórias sociais. Temos um conjunto de eixos ferroviários e queremos recolher os testemunhos de quem trabalhou nestas linhas, onde havia um grande corpo mineiro (estanho e volfrâmio), que dependia da linha para o transporte de materiais. Queremos manter esta memória viva”, sustenta Carlos Oliveira, presidente da câmara de Vouzela.

João Valério valoriza a proteção do património em Oliveira de Frades: “Demos uma vertente cultural às estações: uma é sede de junta de freguesia com pavilhão desportivo, outra é sede de uma banda de música e outra é apoio à ecopista”, assinala o autarca. “Nos finais dos anos 80, a Linha do Vouga foi desativada, criando uma fratura social e um forte impacto económico. Durante décadas, ficou abandonada, com edifícios decrépitos”, recorda. A transformação em ecopista “preservou as obras de arte (pontes e túneis) que, de outra forma, ficariam vetadas ao abandono”, destaca.

“O que procuramos, enquanto turistas, é uma experiência única. Oferecemos património, autenticidade e uma identidade clara: a história do local, o saber-fazer e o património edificado e imaterial”, nota a presidente da câmara de Tondela, Carla Antunes Borges. A autarca assinala que o projeto “permite que quem percorre a ecopista possa, através de centros interpretativos, recordar e conhecer o canal ferroviário como promotor de desenvolvimento”.

Pagar aos turistas

Os carris das linhas encerradas foram levantados entre 1997 e 1999, pondo de parte o regresso do comboio naquelas bandas. Após uma década de abandono pelo Estado, os municípios entraram em ação e investiram “mais de 10 milhões de euros“ na instalação das ecopistas, segundo o representante da CIMVDL. “Foi a audácia e a ambição de, há 15 anos, os municípios tomarem esta opção política, deixando por vezes de fazer outras coisas como saneamento ou águas para apostarem nesta requalificação, onde a administração central do Estado se demitiu", sinalizou Nuno Martinho.

Isso não significa, no entanto, que não existam despesas de conservação das ecopistas. “Necessitamos de linhas de financiamento que permitam a manutenção em condições deste canal e do edificado, para mantermos este produto turístico com qualidade”, alertou a autarca de Tondela. Em dezenas de municípios, a implementação da taxa turística tem servido para ajudar os orçamentos e entrar com dinheiro para despesas de manutenção. Cenário completamente impensável para Carla Antunes Borges.

“Como é que nós no interior podemos colocar uma taxa turística, quando o nosso principal desejo é cativar, atrair e, acima de tudo, combater o despovoamento? É fácil falar em taxas turísticas para o grande centro de Lisboa ou do Porto”, contestou. Daí a líder de Tondela ter retorquido: “Deixem-me fazer um desafio: se calhar nós podíamos implementar uma taxa turística, mas no sentido inverso. Pagávamos aos turistas para vir para Tondela, Vouzela e Oliveira de Frades”.

Locomotiva Vouzela
Locomotiva Vouzela Comboio créditos: Diogo Ferreira Nunes MadreMedia

Sem carro, é difícil lá chegar

Com o desaparecimento do comboio, chegar a estes territórios sem ter carro próprio tornou-se mais difícil. Os autocarros são o único modo de transporte coletivo, com serviços sobretudo no horário da escola e do trabalho e apenas nos dias úteis. Também há serviço expresso (longa distância) mas contam-se pelos dedos de uma mão o número de viagens por dia. O tempo de deslocação também não ajuda, pois é o dobro do carro privado caso saia de Viseu, por exemplo. Sobra, por isso, o automóvel e os acessos através de estradas como IP3, Nacional 2 e ainda a A25. Aqui há um problema, como reconhece a representante do Turismo Centro de Portugal.

“Reconheço que há um desafio na mobilidade: temos estrangulamentos como o IP3, que dificultam o acesso” ao território, notou Anabela Freitas. Há ainda limitações no número de postos de carregamento para carros elétricos. Os autarcas destacaram ainda a existência do serviço de transporte a pedido “Ir e Vir”, em que táxis ligam as localidades da região com poucos ou nenhuns transportes públicos e a viagem custa o mesmo que o bilhete do autocarro, 1,50 euros. A reserva tem de ser feita na véspera do dia anterior e o serviço apenas está disponível nos dias úteis.

As ecopistas podem ser percorridas a pé ou de bicicleta. Se quiser pedalar mas não tiver um veículo de duas rodas, há a rede de bicicletas partilhadas “Bora”, que serve a região mas conta apenas com modelos sem assistência elétrica. Os percursos estão ainda habilitados para pessoas em cadeira de rodas.

Exemplos internacionais

Durante o debate foram apresentados dois exemplos do uso do regresso do comboio aos carris em linhas que chegaram a ser levantadas mas que entretanto voltaram. Em Ponferrada, na região espanhola de Castela e Leão, o comboio turístico Ponfeblino vai voltar a partir ainda em 2026, após mais de 45 anos sem serviço de passageiros, transportando viajantes em linha de bitola métrica até Laciana, num projeto financiado pelo PRR espanhol.

Em França, em Orcines, a quase 400 quilómetros de Paris, o Panoramique des Dômes é um comboio de cremalheira que voltou a circular em 2012 após quase um século de interregno. Esta foi a solução mais sustentável encontrada pelo município de Puy-de-Dôme para que os turistas pudessem continuar a visitar a zona vulcânica classificada como Património Mundial pela Unesco. Entre 1925 e 2008, a subida até aos 1465 metros era feita em automóveis e autocarros, com prejuízo causado ao local.

Em Itália, desde 2013 que a Fondazione FS, pertencente ao Estado italiano, já reativou mais de 600 quilómetros de linhas ferroviárias. Os percursos deixaram de ter serviço regular de passageiros mas as vistas são mais do que suficientes para voltarem a atrair os turistas, promovendo o turismo ferroviário com comboios a circular.

Ouvidos os exemplos, o autarca de Oliveira de Frades respondeu sobre a possibilidade do regresso do serviço sobre carris: “Se hoje podemos falar numa possibilidade de eventualmente um dia voltarmos a ter um comboio histórico, isso só é possível porque, ao contrário do que aconteceu ali em França, não ficou ao total abandono durante décadas. Não é a solução desejável mas é a possível num projeto em parceria de três municípios."

“Gostava de voltar a ver o comboio a passar com as janelas abertas a apreciar aquela paisagem, fazer uma grande festa. Ainda me lembro dele. Eu acho que é possível passar mas dentro do canal da antiga linha já há prédios edificados, tínhamos de os deitar abaixo. Há uma série de trabalhos que teria de ser feita. Mas eu gostava que ele passasse”, acrescentou o líder de Vouzela.

“É preciso perder para redescobrir”, Manuel de Novaes Cabral. Com “esperança em reativações futuras” de linhas, o presidente da fundação que gere o Museu Nacional Ferroviário considera que “pôr a circular [o comboio] deve ser uma utilidade que corresponda à necessidade do território e das pessoas. O comboio provoca emoções e experiências, que são as palavras mágicas do turismo."

Resta saber quais serão as próximas etapas para que os comboios um dia voltem a passar por estes territórios, promovendo o turismo de natureza e de sustentabilidade.

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