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Depois da denúncia e da manifestação, a creche encerrou portas, com a comunicação aos pais de que voltaria a abrir a 16 de fevereiro. Contudo, o grupo de encarregados de educação responsável pela denúncia disse ao 24notícias que o cenário parece ser agora outro: sem qualquer aviso, a Academia Sonhar e Crescer, em Carnide, Lisboa, colocou um cartaz num dos vidros, onde se percebe que o espaço está disponível para arrendamento.

Thainá, mãe de Francisco, uma das crianças vítimas de maus-tratos, conta que várias pessoas foram vistas a "retirar sacos pretos da escola" há alguns dias, o que já dava a entender que o espaço não seria reaberto.

Agora, com a colocação do cartaz, questiona: "Será isto uma prova de que vão fugir ou vão abrir noutro lado com nomes diferentes e continuar a aterrorizar crianças?".

O 24notícias tentou contactar a Academia Sonhar e Crescer, mas não houve resposta até à publicação deste artigo.

Quanto à investigação sobre a creche, Thainá diz que, até ao momento, nenhum dos pais denunciantes foi contactado. "Não há constituição de arguidos, ninguém fez nada, ninguém nos disse nada".

Por isso, os pais pretendem voltar à rua esta segunda-feira, para mostrar que não vão baixar os braços, e foi convocada uma "manifestação pela proteção dos bebés nas creches", frente à Academia Sonhar e Crescer, às 09h00.

O que dizem os pais?

Thainá conta ao 24notícias que Francisco ficou apenas um ano na escola." Ele sempre foi a chorar e nós estranhámos, mas como é o primeiro filho pensámos que seria normal".

"Ele entrou com dez meses. Quando o íamos buscar, estava assim com os olhos inchados, mas diziam que ele tinha estado bem, já não estava a chorar quando chegávamos. Pensávamos que, ao longo do tempo, ele ia habituar-se, mas não: foi sempre a chorar. Começou as primeiras palavras com 'mãe' e 'pai' e a seguir foi 'medo'. Ele já percebia mais ou menos o caminho para a escola e dizia que tinha medo de ir para a escola", recorda.

Depois, Francisco foi mudado de sala, para a sala das crianças com um ano, e os pais notaram que ficava "ainda mais assustado por ir para a escola". "Começou mesmo aos gritos e nós estranhávamos e desde essa altura que queríamos mudá-lo de escola".

"Foi aí que começámos a ver algumas nódoas negras, mas se diziam que tinham sido feitas por um menino, que tinha caído ou batido com a cabeça, nós acreditávamos. Até que apareceu com um traumatismo craniano", nota.

Com esse diagnóstico, a 30 de janeiro deste ano, foi a gota-de-água. "A avó do menino foi buscá-lo e enviou-nos uma fotografia e percebemos que não tinha sido só uma queda. Deram-nos diferentes versões do que aconteceu e não batiam certo".

A partir daqui, juntaram-se outros pais. Começaram por ser quatro, agora são cerca de 50 e as histórias continuam a acumular-se e a alongar-se no tempo.

Mariana, mãe de Vitória, diz ao 24notícias que só começou a juntar as peças com o caso de Francisco. "Fez-se um grupo no Whatsapp, onde os pais alertavam para aquilo que aconteceu. Fiquei em choque com a situação, obviamente. E depois fui ler conversas antigas com a educadora e reparei que muitas vezes eu enviava-lhe fotografias de marcas no corpo da minha filha".

"Perguntava-lhe se tinha acontecido alguma coisa na escola e ela nunca respondia por mensagem, ligava-me logo e dizia que era no berço ou que tinha sido um amigo que arranhou. Havia sempre uma desculpa", evidencia.

Além das questões físicas, Mariana notou que a filha não estava a progredir na introdução alimentar, facto que associa à forma como alimentavam as crianças na creche. "A minha filha tem quase dois anos, andou lá desde os quatro meses e hoje em dia ela só come iogurtes e leite, não lhe consigo dar sólidos, até numa consulta a médica frisou que ela odeia comida".

Tal como estas duas mães, muitas outras começaram a juntar histórias. "Vários pais que tinham na semana passada os filhos na creche começaram a falar, ou mesmo pais de há dez anos ou mais. Também há ex-auxiliares que contam alguns casos. Isto está a tomar proporções mesmo muito graves", denuncia, ao mesmo tempo que reforça que "o que mais revolta é não haver resposta das entidades, como a Segurança Social ou a CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens)".

Até ao momento, o Ministério Público (MP) confirmou que já abriu uma investigação depois de ter tido conhecimento de uma denúncia de maus-tratos de crianças nesta creche e a Segurança Social fez uma fiscalização ao estabelecimento.

De recordar que o caso veio a público a 9 de fevereiro, quando foi noticiado que a Polícia de Segurança Pública (PSP) teve de intervir numa manifestação de pais em frente à Academia Sonhar e Crescer.

Nesse dia, registou-se uma concentração de cerca de 40 pessoas, que exibiam cartazes com imagens de alegados ferimentos sofridos por crianças, atribuídos a funcionárias da creche.

Segundo a PSP, foi iniciada de imediato uma investigação às denúncias de maus-tratos a crianças na creche — que integra a rede Creche Feliz —, em articulação com o Ministério Público, através do DIAP de Lisboa.

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