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“A CP – Comboios de Portugal transportou, em 2025, um total de 208,2 milhões de passageiros, o valor mais elevado deste século.” Foi desta forma que, em fevereiro, a transportadora anunciou o melhor desempenho dos últimos 25 anos, muito à custa do passe ferroviário. Há um pequeno senão: nos serviços suburbanos de Lisboa, a empresa perdeu passageiros no total e por comboio, mesmo com mais viagens. A CP também está com muitas dificuldades em saber quais são os percursos feitos pelos subscritores do passe, que dá acesso a todos os comboios do país exceto o Alfa Pendular e os suburbanos de Lisboa e do Porto dentro das respetivas áreas metropolitanas.

Comecemos pelos passageiros. Em 2025, houve um total de 139 222 413 validações no serviço suburbano de Lisboa, menos 2,1% do que em 2024, ano recorde. Se compararmos o número de utentes com o número de viagens realizadas, o recuo foi de 3,67%, calculou o 24notícias a partir dos dados fornecidos esta semana pelo Ministério das Infraestruturas em resposta a perguntas de um grupo de deputados do PS. 

Houve menos utentes apesar de, nos suburbanos de Lisboa, a Linha do Sado ter passado a usar comboios com mais lugares, com quatro carruagens cada, iguais aos da Linha de Sintra. Também em 2025, as obras de modernização da Linha de Cascais obrigaram a trocar comboios por autocarros de substituição, sobretudo no período da noite.

O Alfa Pendular também teve menos utilizadores, com 1 934 972 bilhetes vendidos em 2025, menos 0,3% face ao ano anterior. No entanto, como baixou ligeiramente o número de circulações, a ocupação média por comboio foi de 264,3 clientes, ligeiramente acima dos 263,7 de 2024. O número do ano passado ficou abaixo, no entanto, dos 280,2 passageiros por comboio de 2023.

Regionais duplicam utilizadores mas levantam dúvidas

É um feito indiscutível: o passe ferroviário colocou mais gente a usar os comboios regionais e interregionais. Em 2025, foram contados 32 324 404 registos, mais do dobro (113%) do que em 2024 e o triplo de 2023, quando o passe ferroviário custava 49 euros por mês e apenas entrou em ação em agosto desse ano. No último ano, houve 331,7 passageiros por comboio regional, mais 122% do que em 2024. O aumento foi tão significativo que o serviço regional passou a ser o segundo mais procurado da CP, superando os suburbanos do Porto.

Mas há fundadas dúvidas sobre como estão a ser contados os passageiros dos comboios regionais, sobretudo os que usam o passe mensal. Nestes serviços, não existem controlos de acesso nem reserva de lugar. Como o passe está sempre válido, “pode não ser fiscalizado” pelo revisor “numa parte significativa das suas utilizações”, sobretudo em “viagens com poucos quilómetros e/ou em comboios de elevada ocupação”.

Também não há forma de saber que percursos estão a ser feitos: a falta de oferta e a elevada procura podem ser meras perceções por falta de dados estatísticos. Quando se compra o passe, cada passageiro indica uma origem e destino “mais frequente” mas pode não corresponder à realidade. 

“Uma das desvantagens apontadas, aquando da prévia análise à possível implementação deste título, foi exatamente a perda de qualidade da informação sobre a utilização que os clientes, com títulos mensais / assinaturas, faziam dos serviços CP, uma vez que não há um registo claro e inequívoco da utilização efetuada pelos detentores” do passe, reconhece o gabinete de Miguel Pinto Luz. 

A métrica utilizada para apurar a procura pelo título mensal pressupõe que cada passageiro faça 45 viagens por mês no mesmo percurso, “tendo por base a utilização registada nos Intercidades (reservas) e as fiscalizações registadas nos comboios regionais e urbanos”, esclarece o ministério. 

Os deputados do PS também levantaram dúvidas sobre a taxa de ocupação média dos comboios regionais ter disparado de 23 para 78% em 2025. No entanto, as realidades são muito díspares: por exemplo, nos comboios regionais entre Tomar e Lisboa, a taxa de ocupação média nos dois comboios que chegam à estação do Oriente, às 8h05 e 9h05, foi de 99% e 95%, respetivamente. Na Linha do Oeste, a taxa de ocupação média foi de 18%.

Mais passageiros entre cidades

O passe ferroviário também permite duas viagens por dia em qualquer Intercidades, desde que haja lugares disponíveis e possíveis de ser reservados quando faltarem 24 horas para a partida do comboio da primeira estação. Tal levou a um aumento de 48,2% no número de passageiros no serviço de longo curso entre cidades, para 5 342 750, com 298,5 viajantes por comboio – mais 50,7% face a 2024.

A possibilidade de usar os Intercidades impediu um ainda maior crescimento do serviço regional, sobretudo a partir das principais estações. Na Linha do Norte, por exemplo, um passageiro pode trocar o regional entre Entroncamento e Lisboa pelo Intercidades, que faz o mesmo percurso mas demora menos tempo.

Nos suburbanos do Porto, houve mais 16,7% de passageiros, com ajuda do regresso do serviço de passageiros à Linha de Leixões, que incluiu uma nova estação junto ao Hospital de São João. Nota ainda para o disparo de 75% no número de passageiros nos comboios urbanos de Coimbra – apesar do fecho da estação central da cidade. 

Em condições normais, a crise dos combustíveis, que tem marcado as últimas semanas, seria mais um incentivo para usar o comboio. Mas a impossibilidade de aumentar a oferta por falta de comboios, sobretudo nas horas de ponta, pode ser um travão a mais um aumento do número de passageiros em 2026.

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