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Durante décadas, filmes (como a personagem do camaleão Pascal em Entrelaçados), desenhos animados e até manuais escolares ajudaram a consolidar a ideia de que os camaleões são mestres em camuflagem ativa. No entanto, a ciência mostra que essa capacidade foi amplamente exagerada.

De acordo com a National Geographic, estes répteis “não conseguem transformar a cor da pele para corresponder a qualquer fundo”. Michel Milinkovitch, professor do Departamento de Genética e Evolução da Universidade de Genebra, explica:

“As pessoas acreditam que, se colocarmos um camaleão sobre um tabuleiro de xadrez, ele vai esconder-se adotando o mesmo padrão, mas isso não é verdade.”

O investigador acrescenta que muitos vídeos que aparentam mostrar essa habilidade “são completamente falsos”. Parte da confusão resulta do facto de os camaleões serem naturalmente difíceis de detetar no seu habitat. Mas essa “invisibilidade” deve-se sobretudo à forma, postura e coloração base do animal, que já se assemelham a folhas ou ramos, e não a uma mudança ativa para imitar o cenário.

Ainda assim, podem efetuar ajustes de tonalidade para se tornarem menos visíveis. Estas variações são limitadas e não permitem reproduzir fundos específicos, como flores brilhantes ou folhas individuais.

As mudanças mais visíveis, no entanto, têm outra função: comunicação. Quando dois machos se encontram, inicia-se um verdadeiro “duelo visual”.

“Eles enlouquecem. Tornam-se amarelos, vermelhos, brancos, algo bem visível nas árvores”, descreve Michel Milinkovitch.

O macho mais fraco “desliga” a exibição cromática para sinalizar rendição e evitar confronto. As cores desempenham ainda um papel essencial no acasalamento, ajudando a atrair, ou a afastar, potenciais parceiros.

A capacidade dos camaleões para mudar de cor sempre intrigou cientistas e público. Hoje, sabe-se que este fenómeno resulta de um mecanismo biológico sofisticado e não de simples camuflagem. Investigadores da Universidade de Genebra descobriram que os camaleões alteram rapidamente a tonalidade da pele ao ajustar uma camada de células especiais chamadas iridóforos, localizadas sob a superfície cutânea.

Ao contrário de outros animais que mudam de cor, como lulas ou polvos, os camaleões não alteram a aparência através da movimentação de pigmentos. A mudança ocorre devido a transformações estruturais microscópicas que modificam a forma como a luz é refletida pela pele.

O estudo analisou exemplares de camaleão-pantera, espécie originária de Madagáscar, e identificou duas camadas espessas de iridóforos, que contêm nanocristais de diferentes tamanhos e disposições, essenciais para as alterações de cor. Os camaleões conseguem reorganizar esses nanocristais ao contrair ou relaxar a pele. Esta reorganização altera os comprimentos de onda da luz refletida: num estado calmo, os cristais refletem principalmente tons azulados; quando o animal se excita, a rede expande-se e produz cores mais quentes, como amarelos ou vermelhos.

O estudo conclui que a mudança de cor nos camaleões é, acima de tudo, um fenómeno físico baseado na interação entre luz e estruturas nanoscópicas da pele. Esta adaptação permite tanto discrição no ambiente como comunicação visual entre indivíduos, e não constitui um “disfarce automático” para imitar qualquer fundo, como se pensava.

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