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Os resultados, apresentados por investigadores do Memorial Sloan Kettering Cancer Center e destacados recentemente pela CNN, estão a reforçar o entusiasmo em torno de uma tecnologia que ganhou notoriedade durante a pandemia, mas que nasceu originalmente para combater o cancro.
A história acompanha Vita Sara Blechner, uma norte-americana diagnosticada com cancro do pâncreas em 2020. Depois de ser submetida a cirurgia para remover o tumor, recebeu uma vacina experimental criada especificamente para o seu caso. Os cientistas analisaram as mutações presentes nas células cancerígenas e desenvolveram uma fórmula personalizada para ensinar o sistema imunitário a reconhecer e atacar aquelas células.
Mais de seis anos depois, continua sem sinais da doença. Dos 16 doentes incluídos no ensaio clínico, oito desenvolveram uma resposta imunitária forte à vacina. Destes, sete permanecem vivos e sem progressão significativa do cancro.
Os resultados são particularmente relevantes porque o cancro do pâncreas continua a ser uma das formas mais agressivas da doença, com taxas de sobrevivência muito reduzidas.
O que dizem os especialistas?
Ao contrário das vacinas tradicionais, que previnem infeções, estas vacinas são desenvolvidas para ajudar o sistema imunitário a reconhecer e atacar células cancerígenas já existentes.
“Estamos ainda longe de compreender o cancro na sua plenitude. Ainda assim, os resultados recentes são genuinamente encorajadores”, afirma Daniel Guedelha, fundador da Generation Health. Segundo o especialista, existem atualmente mais de 120 ensaios clínicos em curso que utilizam esta tecnologia em diferentes tipos de tumores.
- Por que é importante acompanhar esta tecnologia? As vacinas de mRNA representam uma das áreas mais promissoras da investigação oncológica atual. Se os resultados continuarem a confirmar-se, poderão abrir caminho a tratamentos altamente personalizados para alguns dos cancros mais difíceis de tratar.
“Pela primeira vez, há razões sólidas para acreditar que esta tecnologia pode mudar o paradigma do tratamento oncológico para estes doentes”, conclui Daniel Guedelha.
- Por que estão a gerar tanto entusiasmo? O principal motivo é o tipo de cancro em causa. O cancro do pâncreas é considerado um dos mais difíceis de tratar e continua associado a uma elevada mortalidade.
No ensaio do Memorial Sloan Kettering, metade dos dezasseis doentes desenvolveu uma resposta imunológica robusta à vacina personalizada. Seis anos depois, a maioria dos doentes que responderam à vacina continua viva, numa doença em que apenas um em cada dez doentes sobrevive dois anos após o diagnóstico, explica Daniel Guedelha.
Para o especialista, estes resultados sugerem que a tecnologia poderá ter potencial para alterar o paradigma terapêutico em alguns tipos de cancro.
- O que falta provar? Apesar dos resultados promissores, os investigadores alertam que ainda não existem provas suficientes para que estas vacinas possam ser utilizadas de forma generalizada.
“Falta ainda evidência robusta de Fase 3, aprovação regulatória e dados de custo-efetividade à larga escala. O caminho da bancada para o doente é longo e exigente”, sublinha.
Os próximos anos serão decisivos para perceber se os resultados observados em pequenos grupos de doentes se confirmam em estudos mais alargados.
Os principais desafios
Uma das características mais inovadoras destas vacinas é também um dos seus maiores desafios: a personalização. Cada vacina é desenhada a partir das mutações específicas do tumor de cada doente, o que torna o processo mais complexo e mais caro do que a produção de medicamentos convencionais.
O modelo personalizado é possível e já está provado na prática. O que falta é escalar com eficiência e garantir acesso equitativo, refere Daniel Guedelha.
Segundo o especialista, será necessário investir em inovação industrial, acelerar processos de fabrico e criar mecanismos que permitam tornar estes tratamentos acessíveis a um maior número de doentes.
- Portugal tem condições para produzir estas vacinas? Na opinião de Daniel Guedelha, sim. “A atração de um centro de produção farmacêutica depende da competitividade económica, estabilidade regulatória, infraestruturas e recursos humanos qualificados. Portugal já demonstrou noutras indústrias que consegue reinventar-se e adaptar-se.”
O responsável destaca a existência de empresas farmacêuticas nacionais com capacidade industrial e conhecimento acumulado, defendendo que o país tem condições para participar nesta nova geração de terapias, desde que exista uma aposta estratégica consistente.
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