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O modus operandi é relativamente simples, os burlões utilizam ferramentas de IA para criar réplicas altamente realistas da voz de uma pessoa a partir de apenas alguns segundos de gravação. Essas amostras podem ser obtidas através de vídeos publicados nas redes sociais ou de chamadas previamente gravadas sem o conhecimento da vítima.
Segundo o Federal Bureau of Investigation, à CNN Internacional, os norte-americanos perderam mais de 893 milhões de dólares em fraudes relacionadas com inteligência artificial no último ano. Entre elas incluem-se esquemas de clonagem de voz, emails de phishing gerados por IA, burlas românticas e outras formas de fraude digital.
Os criminosos costumam fazer-se passar por familiares, amigos ou colegas de trabalho. Frequentemente, simulam situações de emergência, como um rapto, um acidente ou uma detenção, criando um forte sentimento de urgência para pressionar a vítima a enviar dinheiro rapidamente. O objetivo é impedir que a pessoa tenha tempo para refletir ou verificar a história.
A tecnologia evoluiu ao ponto de ser extremamente difícil distinguir uma voz artificial de uma voz real. Henry Ajder, especialista em conteúdos gerados por IA, afirma que mesmo profissionais da área têm dificuldade em identificar estas falsificações, tornando irrealista esperar que a maioria das pessoas consiga fazê-lo.
As fraudes mais sofisticadas vão além de uma simples gravação. Algumas utilizam sistemas de conversão de texto em fala ou técnicas de "voice skinning", que permitem aos burlões conversar em tempo real enquanto a sua voz é transformada para soar exatamente como a da pessoa que estão a imitar. Isto torna as interações muito mais convincentes. Em paralelo, os criminosos podem recorrer ao chamado "caller ID spoofing", uma técnica que falsifica o número de origem da chamada, fazendo parecer que o contacto provém realmente do familiar ou amigo.
Os especialistas recomendam que as pessoas deixem de tentar identificar sinais técnicos na voz, como pausas estranhas ou entoações artificiais, porque esses indícios se tornaram cada vez menos fiáveis. Em vez disso, aconselham a procurar os sinais típicos de qualquer burla: pressão para agir rapidamente, pedidos de segredo, exigências de transferências de dinheiro invulgares ou ameaças de consequências graves caso não se cumpra o pedido.
Sempre que receber uma chamada deste tipo, a recomendação é interromper a conversa e tentar contactar diretamente a pessoa em causa por outro meio, como uma mensagem, uma chamada para o seu número habitual ou através de familiares e amigos que possam confirmar a sua localização.
Outra medida preventiva sugerida pelos especialistas é a criação de uma palavra-passe ou código familiar, conhecido apenas por um pequeno grupo de pessoas. Em situações suspeitas, esse código pode servir para confirmar rapidamente a identidade do interlocutor.
Perante uma chamada emocionalmente intensa que envolve pedidos urgentes de dinheiro, é mais seguro assumir que pode tratar-se de uma fraude e verificar a informação de forma independente do que agir impulsivamente.
Em Portugal, o Governo aprovou uma proposta de autorização legislativa que obriga as operadoras de comunicações a reforçarem o combate às mensagens fraudulentas, incluindo o bloqueio ou a anonimização de mensagens suspeitas. A medida segue agora para o Parlamento e visa aumentar a segurança nas comunicações eletrónicas e proteger os utilizadores de práticas abusivas, como a usurpação de números de telefone e de identificadores de mensagens.
Entre as novas regras previstas está a obrigatoriedade de as operadoras implementarem mecanismos de deteção e combate a fraudes, como mensagens de ‘spoofing’, uma técnica em que os burlões falsificam números de telefone ou identidades de entidades confiáveis para enganar as vítimas e obter dados pessoais ou dinheiro. As empresas poderão também ser obrigadas a bloquear ou ocultar mensagens que contenham ligações suspeitas ou enganosas.
A proposta inclui ainda a obrigação de identificação dos utilizadores de cartões pré-pagos móveis, uma medida que pretende dificultar o anonimato associado a atividades fraudulentas. Em paralelo, o diploma prevê também a possibilidade de instalação de inibidores de sinal em estabelecimentos prisionais, com o objetivo de reforçar a segurança.
Segundo o Governo, estas alterações legislativas pretendem dar resposta ao aumento de fraudes digitais e alinhar Portugal com outros países europeus nesta matéria. De facto, o Banco de Portugal já tinha alertado que Portugal era, até agora, o único país da União Europeia sem legislação específica para combater o ‘spoofing’.
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