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O aumento da esperança média de vida é uma das maiores conquistas da medicina moderna, mas isso não significa que vivamos mais anos com saúde. Esta foi uma das principais mensagens deixadas pela nutricionista e investigadora Conceição Calhau no oitavo episódio da terceira temporada do podcast TOP of Mind, da Bial, conduzido pela médica Margarida Santos.

"Conquistámos mais anos de vida, mas não necessariamente mais saúde", resume Conceição Calhau, que explica que esse fenómeno representa também um desafio crescente para o Serviço Nacional de Saúde, perante uma população mais envelhecida e com maior carga de doença crónica.

A investigadora recorda que, há poucas décadas, a esperança média de vida rondava os 55 anos. Hoje, os portugueses vivem cerca de mais três décadas, o que altera profundamente as necessidades em saúde. No caso das mulheres, exemplifica, a menopausa deixou de coincidir com o fim da vida e passou a representar uma fase que pode durar várias décadas, o que exige novas abordagens na promoção da saúde.

Para Conceição Calhau, a medicina atravessa atualmente uma transformação profunda. Se durante grande parte do século XX o principal objetivo era combater a mortalidade e as doenças infecciosas, hoje o foco deve estar na prevenção das doenças crónicas e na promoção de estilos de vida saudáveis.

Ainda assim, alerta para um paradoxo, nunca existiu tanta informação disponível sobre saúde, mas isso não significa que existam melhores comportamentos.

"As pessoas já sabem que comer melhor faz bem. O desafio deixou de ser o conhecimento e passou a ser a mudança de comportamento", explica.

Nesse contexto, considera que o exemplo dado pelos profissionais de saúde é determinante. Defende que médicos, nutricionistas e outros profissionais devem ser coerentes entre o discurso e a prática e recorda que a credibilidade também se constrói através dos comportamentos do dia a dia.

Redes sociais: ameaça, mas também oportunidade

A desinformação foi outro dos temas centrais da conversa. Margarida Santos recorda alguns dos mitos que circulam nas redes sociais, como o medo do glúten ou os alegados benefícios das águas alcalinas, e questiona o impacto deste tipo de conteúdos.

Conceição Calhau reconhece que a desinformação constitui uma ameaça à saúde pública, mas acredita que também representa uma oportunidade para aproximar o conhecimento científico da população.

"Se é nas redes sociais que as pessoas estão, então é aí que os profissionais de saúde também têm de estar", defende.

A investigadora considera essencial criar condições para que médicos e investigadores possam comunicar ciência de forma consistente. Defende ainda que essa missão deve ser reconhecida como parte integrante das carreiras na área da saúde.

A pandemia de Covid-19 reforçou a evidência da relação entre alimentação, doenças crónicas e resposta do organismo às infeções.

Conceição Calhau recorda que pessoas com hipertensão, obesidade ou dislipidemia, mesmo quando tinham a doença controlada com medicação, apresentaram frequentemente quadros mais graves de Covid-19. Na sua perspetiva, esta realidade demonstra que o tratamento farmacológico não substitui a importância dos estilos de vida saudáveis.

Considera, por isso, que esta experiência coletiva tornou mais evidente que cuidar da saúde antes da doença é uma responsabilidade partilhada entre os cidadãos e o sistema de saúde.

Apesar do crescente conhecimento científico, alterar hábitos continua a ser uma tarefa difícil.

A investigadora explica que muitas das consequências de uma alimentação desequilibrada só surgem ao fim de vários anos, o que reduz a perceção do risco. A este fator junta-se o aumento dos problemas de saúde mental, da ansiedade e do consumo de ansiolíticos, que frequentemente condicionam a relação com a alimentação.

Em muitos casos, afirma, existe uma componente emocional que impede mudanças sustentadas. Por isso, defende uma maior integração da psicoterapia e de equipas multidisciplinares na abordagem aos estilos de vida.

Margarida Santos lamenta precisamente a escassez destes recursos nos cuidados de saúde e sublinha que a prevenção continua a depender demasiado da iniciativa individual.

Ao longo da conversa, Conceição Calhau critica o atual modelo assistencial, excessivamente centrado na resposta à doença.

Na sua visão, os cuidados de saúde primários deveriam assumir um papel muito mais forte na promoção da saúde e na prevenção, em vez de funcionarem sobretudo em contexto de emergência ou de doença instalada.

A investigadora vai mais longe e defende uma maior articulação entre o Serviço Nacional de Saúde e a chamada indústria do wellness, desde que assente em evidência científica, para criar respostas preventivas mais acessíveis à população.

Quando o tema é alimentação, Conceição Calhau alerta para uma ideia frequentemente esquecida. Mais do que discutir apenas o excesso de açúcar, sal ou gordura, importa olhar para aquilo que desapareceu do prato dos portugueses.

Segundo a nutricionista, a alimentação tornou-se mais monótona e perdeu alimentos fundamentais da dieta mediterrânica, como o feijão, o grão, as ervilhas e outras leguminosas.

"Estamos sempre muito focados naquilo que é proibido, quando o problema também está naquilo que deixámos de comer", refere.

Na prática, observa que muitos pratos continuam divididos apenas entre arroz, massa ou batata e carne ou peixe, o que revela pouca diversidade alimentar e uma presença insuficiente de alimentos vegetais.

No final do episódio, Conceição Calhau resume a sua visão sobre um envelhecimento saudável em três pilares fundamentais: "a qualidade da alimentação, o horário das refeições e a prática regular de exercício físico".

A estes junta uma mensagem simples que sintetiza a sua filosofia de promoção da saúde: "Comer metade, mexer o dobro, rir o triplo e dormir ainda melhor."

Para Margarida Santos, esta conversa deixa uma conclusão clara: "A longevidade não passa por parecer eternamente jovem, mas sim por viver mais tempo com autonomia, clareza, mobilidade e qualidade de vida."

Porque, como conclui a médica, "o verdadeiro anti-aging pode estar nas pequenas escolhas, repetidas de forma consistente e possível ao longo da vida."

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