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Será necessário esperar ano e meio para que os comboios da Fertagus tenham mais lugares: a partir de junho de 2027, a concessionária do serviço sobre carris entre Roma-Areeiro e Setúbal conta pôr em marcha a circular as duas carruagens compradas em Espanha. As duas unidades serão colocadas em dois comboios simples, que passarão a ter cinco em vez de quatro carruagens e lotação de 1510 lugares, em vez dos atuais 1200. Admite-se ainda a compra de mais unidades, revela a presidente da Fertagus, Cristina Dourado, em entrevista exclusiva ao 24notícias. Esta é a resposta da empresa ao aumento da procura registado depois de dezembro de 2024, quando foi reforçado o serviço entre Setúbal e Coina, que acabou por prejudicar os restantes passageiros. Em 2025, mais de 31,8 milhões de utentes viajaram na Fertagus, crescimento de 5% face a 2024.

“Entre 2018 e 2023, duplicou a procura no troço entre Setúbal e Coina. Percebemos que era necessário reforçar a oferta neste percurso, sobretudo na hora de ponta da tarde: a situação era crítica, com comboios de hora a hora”, recorda Cristina Dourado. Nesses cinco anos, houve várias medidas para captar passageiros para os modos coletivos mas a oferta praticamente não cresceu.
Em abril de 2019, a Fertagus aderiu ao passe metropolitano de transportes de Lisboa por 40 euros por mês, redução substancial face aos mais de 100 euros mensais anteriormente pagos pelos passageiros para atravessarem todos os dias a Ponte 25 de Abril. A partir de 2022, o arranque da Carris Metropolitana “aumentou em 40% a oferta de rebatimento às estações”, fazendo com que mais pessoas apanhassem o autocarro para chegar à estação ferroviária. Houve ainda um “aumento populacional brutal na Margem Sul num curto espaço de tempo”, sinaliza Cristina Dourado. Neste período, o único aumento de oferta foi a retirada de lugares sentados no material circulante para aumentar a lotação.

][Infografia, evolução da procura de passageiros na Fertagus entre 1999 e 2025 – Fonte: Fertagus -

Após um estudo de procura, a Fertagus entendeu que tinha de haver comboios a cada 20 minutos entre Setúbal e Lisboa. “Foi um risco assumido, pois estávamos a esticar a corda em termos de manutenção e de pessoal. Era a única alternativa que nós tínhamos”, assume a responsável. “Toda a gente sabia que não tínhamos mais composições. Sinalizámos ao Estado em 2023 a necessidade de reforço de material circulante perante o aumento da procura”, destaca. Em 15 de dezembro de 2024, o operador ferroviário aumentou o número de viagens sem comprar novos comboios – seria necessária uma notificação ao Estado com dois anos de antecedência.

A mudança ocorreu três meses depois de a empresa ter conseguido a terceira prorrogação da PPP junto do Estado. Em setembro desse ano, o Conselho de Ministros aprovara o prolongamento do contrato de concessão até 31 de março de 2031, ao abrigo de um acordo de reposição do equilíbrio financeiro que tinha sido pedido em janeiro de 2023 pela empresa do grupo Barraqueiro.
A adesão aos novos horários surpreendeu, sobretudo nos comboios com oito carruagens (comboios duplos). “Verificámos que não fizemos o planeamento mais adequado. Inicialmente, pusemos os comboios duplos a partir de Setúbal e os simples a partir de Coina. Reparámos que não estávamos a maximizar os comboios duplos em termos de ocupação.” Em janeiro, a Fertagus ajustou a oferta, com comboios de quatro carruagens a partirem de Setúbal e os duplos a saírem de Coina.

Ainda assim, continua a haver gente a ficar na plataforma à espera do próximo comboio, sobretudo nas estações do Pragal, Fogueteiro, Foros de Amora e Corroios. A Fertagus tem mesmo contado quantos passageiros ficam apeados, daí insistir em que as pessoas, se puderem, antecipem ou atrasem a entrada no comboio.

25 anos à procura de reforçar comboios

Quando a Fertagus começou as operações, em julho de 1999, a empresa ficou com uma frota de 18 automotoras elétricas de quatro carruagens. As UQE da série 3500 são iguais aos comboios de dois andares da CP, que circulam sobretudo na Linha da Azambuja. “Quando comprámos os comboios, era suposto haver um reboque intermédio, uma quinta carruagem. Falámos com o fabricante em relação a isso, por volta de 2000/2001”, recorda Cristina Dourado.

Não houve desenvolvimentos e a concessionária acabou por começar a usar os comboios duplos, acoplando duas unidades, que formam um total de oito composições. Na altura, a solução permitiu responder às necessidades na hora de ponta: “ainda hoje, metade da procura da Fertagus é transportada em duas horas. Tamanha concentração não se coaduna com comboios simples a cada 10 minutos”.

A empresa fez vários contactos durante mais de 20 anos. “Diziam-nos que a solução se arranjava…mas nada.” Em 2005, na renegociação do contrato de concessão, a operação entre Roma-Areeiro e Setúbal transformou-se numa parceria público-privada, com um prazo mais curto, e a Fertagus deixou de ser dona dos comboios: passaram para o Estado, através da empresa Sagesecur, com a concessionária a pagar uma renda anual para utilizar o material circulante. O cenário dificultou o reforço da frota, pois não haveria tempo para rentabilizar o investimento.

A alternativa foi apostar na compra de carruagens que pertenciam à Renfe, homóloga espanhola da CP. A aquisição foi mais difícil do que se esperava. “Nos últimos anos, apercebemo-nos da renovação do material circulante deles e conseguimos descobrir que tinham duas unidades encostadas e em bastante mau estado. Tentámos a venda direta mas eles remeteram-nos para o leilão. Entregámos uma proposta em envelope fechado e conseguimos comprar”, lembra Cristina Dourado.

Os dois reboques chegaram a Portugal entre outubro e novembro e já estão a ser intervencionados. “Precisamos de retirar as casas de banho, ajustar a cablagem e os sistemas de informação ao passageiro, além de concluir todo o processo de homologação e certificação pelo IMT [Instituto da Mobilidade e dos Transportes]. Contamos que se possa pôr o material em circulação até meados do próximo ano. Mesmo assim, é mais rápido do que comprar novo material circulante”, sinaliza a responsável.

A ambição é não ficar por aqui: “o que nos custa são as duas primeiras unidades. A nossa intenção é comprar mais, porque eles [Renfe] vão libertar material. O nosso objetivo não é obviamente ficarmos por estas duas [carruagens]”. Para já, as composições pertencem ao grupo Barraqueiro, dono da Fertagus. No entanto, a atual PPP termina em 31 de março de 2031, na sequência da terceira prorrogação do contrato. A concessionária pretende que o material circulante seja integrado no património do Estado. Caberá ao IMT a palavra final.

Linha provoca atrasos

Quem usa a Fertagus também tem notado que os atrasos estão a tornar-se mais frequentes. Nos últimos dois anos, aumentaram quase 10 vezes os minutos de atraso nestes comboios, de 6400 para 55.000. A empresa culpa sobretudo o gestor da rede ferroviária nacional. “A situação da infraestrutura agravou-se muito entre 2023 e 2025”, lamenta a líder da concessionária. Só em 2025, a IP é responsabilizada por dois terços dos atrasos na Fertagus. E quatro em cada 10 minutos de atraso devem-se às reduções temporárias de velocidade.

“É preferível ter os afrouxamentos do que corrermos riscos. Mas afetam a nossa capacidade de cumprir a pontualidade”, destaca Cristina Dourado. A responsável mostra uma tabela com as reduções temporárias de velocidade atualmente em vigor e há mesmo situações que já duram há mais de um ano.

Para lá dos afrouxamentos, a Fertagus também queixa-se de a IP dar prioridade aos comboios de longo curso da CP, calculando que 11% dos atrasos devem-se à preferência pelo Alfa Pendular e o Intercidades. Na Europa, é habitual os combois rápidos terem prioridade sobre o serviço suburbano, considerando que têm menos paragens. Ainda por culpa da IP, a Fertagus contabiliza em 10% os atrasos por avaria na infraestrutura e em 7% por cantonamentos – para esperar que um comboio complete uma secção da via.

A maior procura pelos comboios da Fertagus e a incapacidade de reforçar a frota também estão a prejudicar a pontualidade do serviço: 9% dos atrasos devem-se à entrada e saída de passageiros dos comboios. Nas plataformas de algumas das estações, o número de seguranças foi reforçado para haver maior controlo no embarque e desembarque.

Os atrasos penalizam ainda os comboios seguintes: na linha 3 da estação de Roma-Areeiro, por exemplo, há apenas sete minutos entre a chegada e a partida de outro comboio da Fertagus. Em condições normais, o maquinista teria de mudar para a outra ponta da automotora; no entanto, os problemas com os atrasos fazem com que o maquinista do comboio seguinte já esteja na cabine.

Continuar para lá de 2031

A Fertagus começou a operar o comboio da Ponte 25 de Abril em julho de 1999, com um contrato de 30 anos. No entanto, a primeira alteração surgiu em 2005, por conta da utilização do serviço abaixo do previsto: após dois anos de conversações, o contrato foi encurtado para durar até 2010, mantendo a empresa o direito a receber compensação do Estado. Também nesse ano ficou estabelecido que a Fertagus poderia comandar a operação até ao final de 2019 mas sem receber pagamento público.

A opção de prolongamento foi acionada mas não muito tempo depois Fertagus e o Estado voltaram a negociar, a partir de 2012: a concessionária sentiu-se penalizada pelo aumento do valor da tarifa de utilização das linhas de comboio, que foi determinado pela então Refer (e atual IP) em dezembro de 2011 e que não estava previsto no contrato. Os anos passaram e o valor em dívida da taxa de utilização atingiu os 7,6 milhões de euros.

Depois de sete anos de conversações, em vez de o Estado pagar à empresa que gere as linhas de comboio, chegou-se a acordo, em dezembro de 2019, para prolongar a concessão por mais quatro anos e nove meses, até 30 de setembro de 2024. Em setembro deste ano, o contrato foi novamente prorrogado. Com esta decisão, a Fertagus vai operar o comboio da Ponte 25 de Abril até 31 de março de 2031, mais dois anos do que previa o contrato de concessão inicial, de 1999.

No atual contrato, a Fertagus tem garantias do Estado caso o aumento dos custos seja superior ao previsto. Além disso, se a procura for abaixo das perspetivas, a empresa é compensada; no entanto, como o número de passageiros tem aumentado, a concessionária tem pago ao Estado ano após ano.

A Fertagus não quer ficar por aqui. “O futuro passará pela necessidade de novos comboios, uma vez que os atuais farão 30 anos em 2029. O Grupo Barraqueiro gostaria de continuar com esta operação, pois temos orgulho no serviço que criámos”, destaca Cristina Dourado. Afastada, para já, está uma eventual nova prorrogação do contrato: “Se a gente quisesse viver assim até ao fim do contrato. Não tínhamos aumentado a oferta. Nós sempre nos preocupamos com as pessoas, sempre quisemos entregar um bom serviço.”

A líder levanta ainda a questão de se discutir, ao nível da Área Metropolitana de Lisboa, “o equilíbrio da mobilidade entre o comboio, o barco e o autocarro. Temos um território que continua a ter as dependências de Lisboa, tal como no passado. Não temos grandes polos de emprego na Margem Sul. Ainda para mais, as pessoas que moravam em Lisboa estão a ser expulsas para as periferias, sobretudo para Pinhal Novo e Setúbal”, remata Cristina Dourado. Resta saber se o “comboio da Ponte” conseguirá receber mais passageiros e haverá mais oferta de lugares.

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