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Uma análise a 1,14 mil milhões de notícias online publicadas globalmente entre 2017 e 2025 conclui que a proporção de artigos que incluem termos relacionados com abuso misógino caiu para 1,3% do total da informação digital em 2025, o valor mais baixo do período em análise. O pico foi registado em 2018, quando atingiu 2,2%, em plena vaga do movimento #MeToo. Em África, onde vários conflitos têm sido associados a elevados níveis de violência sexual, a cobertura terá caído para o nível mais baixo em nove anos, em 2024, avança o The Guardian.
“É chocante, sobretudo tendo em conta a dimensão do problema e a forma como a violência contra mulheres e a misoginia têm sido instrumentalizadas por atores autoritários no contexto do recuo de direitos”, afirmou a professora Julie Posetti, do Centro de Jornalismo e Democracia da City St George’s, Universidade de Londres. “Isto sinaliza uma falha do jornalismo… e mostra o quão pouco progresso foi feito”.
O primeiro relatório global deste tipo, com acesso exclusivo a dados antes da sua publicação, analisou também a cobertura relacionada com Jeffrey Epstein entre 2017 e fevereiro de 2026. Entre quase um milhão de artigos sobre o caso, apenas 0,1% incluíam a expressão “violência contra mulheres”, enquanto 25% referiam “vítimas” e 26% mencionavam termos como “poder”, “dinheiro”, “elites” ou “corrupção”.
O estudo aponta ainda para a ausência de uma abordagem estrutural da misoginia, sublinhando que muitas peças jornalísticas não enquadram o problema nas desigualdades de género e nas dinâmicas de poder que o sustentam.
Segundo a autora principal do relatório, Luba Kassova, esta ausência de enquadramento impede uma compreensão mais profunda do fenómeno: “Ao fazer esta análise, concluímos que a perspetiva da desigualdade de género está praticamente ausente da cobertura do caso Epstein, o que significa que o jornalismo não chega às causas do problema”.
O relatório indica ainda que a prevalência de violência sexual em vários países não se reflete num nível proporcional de cobertura mediática, sugerindo que esta tendência ignora uma necessidade urgente das audiências.
Estima-se que uma em cada nove mulheres em todo o mundo tenha sido vítima de violência por parte de homens nos últimos 12 meses, e que uma em cada três tenha sofrido violência física ou sexual ao longo da vida. Os investigadores alertam ainda que a subnotificação é elevada, devido ao estigma associado.
Com a crescente digitalização, os espaços de disseminação da violência de género estão a expandir-se. Estudos citados apontam que milhões de mulheres e raparigas são alvo de violência online todos os anos, com até 60% a reportarem experiências deste tipo.
Quando estes temas são noticiados, o estudo refere ainda um desequilíbrio nas vozes ouvidas: por cada mulher citada, são citados 1,5 homens. Entre especialistas, 24% são homens e 17% mulheres.
O relatório recomenda uma maior centralidade das sobreviventes e vítimas nas narrativas jornalísticas, bem como um reforço da presença de mulheres em posições editoriais de decisão, de forma a melhorar o enquadramento destas histórias.
Defende ainda que a cobertura de casos mediáticos de abuso deve procurar explicar as causas estruturais, incluindo desigualdades de género e normas culturais, em vez de se centrar apenas nos acontecimentos.
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