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A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou que a Europa enfrenta um dos períodos mais incertos desde a Segunda Guerra Mundial, num contexto de crises acumuladas que estão a redefinir o panorama económico e político do continente.
No discurso que assinalou os 75 anos da Associação dos Bancos Alemães, Christine Lagarde contrastou o momento atual com o contexto da fundação da instituição, numa Europa em reconstrução e à beira de um período de crescimento e estabilidade.
Hoje, pelo contrário, “a incerteza é maior do que em qualquer momento desde então”, afirmou, apontando uma sucessão de choques: a pandemia, a guerra no continente europeu, a pior crise energética em meio século e o aumento de tarifas mais significativo desde os anos 1930. A estes soma-se um novo conflito que afetou o Estreito de Ormuz, crucial para o fornecimento global de energia.
Segundo Christine Lagarde, cada uma destas crises expôs fragilidades em pilares que eram considerados garantidos, como o "acesso a energia barata, a previsibilidade das relações comerciais com os Estados Unidos e a segurança militar do pós-guerra".
Foi neste contexto que recorreu ao filósofo alemão Hegel, citando a ideia de que “a coruja de Minerva levanta voo apenas ao anoitecer”, para sublinhar que a compreensão surge depois da experiência. “A verdade é que estes anos difíceis ensinaram-nos muito”, afirmou.
Algumas dessas lições já estão a ser aplicadas, como demonstra a mudança significativa na política de defesa alemã, que, segundo Christine Lagarde, teria sido impensável antes das crises recentes.
No plano económico, a presidente do BCE destacou que o cenário permanece altamente incerto, sobretudo devido à imprevisibilidade da evolução do conflito atual e dos seus impactos.
As projeções do banco central apontam para inflação mais elevada e crescimento mais baixo, com diferentes cenários dependentes da evolução dos preços da energia. A interrupção no fornecimento global de petróleo poderá atingir cerca de 13% do consumo mundial, embora os mercados ainda antecipem um impacto temporário.
Ainda assim, a presidente alertou que, se a disrupção persistir, os efeitos poderão agravar-se e alastrar a vários setores, desde a indústria tecnológica até à produção agrícola, passando pela indústria química.
Neste contexto, a definição da política monetária torna-se particularmente complexa. A responsável identificou duas variáveis críticas, a duração do choque e o grau de transmissão dos preços da energia para a inflação.
Por um lado, consumidores e empresas estão mais atentos à inflação após choques recentes, por outro, a fragilidade da procura poderá limitar aumentos de preços e salários.
Perante esta incerteza, Lagarde defendeu uma abordagem cautelosa, sublinhando também o papel das políticas orçamentais.
Medidas como cortes de impostos ou limites de preços podem conter a inflação no curto prazo, mas correm o risco de distorcer os sinais de mercado e prolongar pressões inflacionistas. Já os apoios diretos ao rendimento, embora essenciais para proteger os mais vulneráveis, podem estimular excessivamente a economia se forem demasiado abrangentes.
A presidente do BCE alertou ainda para a redução da margem orçamental dos governos, defendendo que o apoio deve ser “temporário, direcionado e preservar os sinais de preços”.
A concluir, Lagarde reiterou o compromisso do BCE com a estabilidade de preços e apelou à aplicação prática das lições aprendidas com as crises.
“ Não basta saber, é preciso também pôr em prática.”, afirmou, citando o estadista Johann Wolfgang von Goethe , acrescentando que o banco central está preparado para agir para garantir que a inflação regressa aos 2% no médio prazo.
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