Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
O cérebro humano sofre alterações físicas e funcionais durante a permanência no espaço, adaptando-se à ausência de gravidade. Embora esta capacidade de adaptação seja essencial para a sobrevivência dos astronautas, os cientistas alertam que poderá representar um obstáculo significativo em futuras missões de longa duração, como as previstas para a Lua e Marte, diz a BBC.
Desde o início da exploração espacial, uma das grandes dúvidas era perceber de que forma o organismo humano reagiria à ausência de gravidade. Ao longo das últimas décadas, tornou-se evidente que o corpo consegue adaptar-se a este ambiente extremo, apesar das profundas mudanças físicas que ocorrem durante as missões.
Os efeitos da microgravidade sobre músculos e ossos são há muito conhecidos. Sem a necessidade de contrariar constantemente a força da gravidade, os músculos começam a perder massa e os ossos perdem cálcio poucos dias após a chegada ao espaço. Mesmo cumprindo um rigoroso programa diário de cerca de duas horas de exercício físico, os astronautas regressam frequentemente à Terra incapazes de caminhar sem assistência, podendo demorar vários anos até que a densidade óssea recupere totalmente.
No entanto, os efeitos sobre o cérebro continuam a ser menos compreendidos. Para Alessandro Alcibiade, médico de voo da ESA, trata-se do órgão mais importante do corpo humano. Sem um cérebro plenamente funcional, considera, todo o restante equipamento e preparação deixam de ter utilidade.
Os estudos realizados até agora têm sido limitados. Um dos exemplos mais conhecidos envolveu os gémeos astronautas Scott e Mark Kelly. Enquanto Scott permaneceu um ano na Estação Espacial Internacional, Mark ficou na Terra. Os investigadores concluíram que as capacidades cognitivas de Scott se mantiveram praticamente inalteradas durante a missão, mas sofreram uma diminuição durante cerca de seis meses após o regresso.
Agora, um novo estudo publicado na revista científica Frontiers in Psychology e partilhado em exclusivo com a BBC reuniu dados de 15 investigações sobre imagiologia cerebral, envolvendo cerca de 377 participantes, entre astronautas e voluntários submetidos a simulações de voos espaciais na Terra.
A equipa da Universidade de Birkbeck, em Londres, concluiu que a exposição à microgravidade provoca alterações tanto na estrutura como no funcionamento do cérebro. A principal autora do estudo, Elisa Raffaella Ferrè, explica que foram identificadas várias regiões cerebrais que sofrem modificações quando deixam de estar sujeitas à gravidade terrestre.
Os investigadores verificaram alterações nas áreas responsáveis pelo controlo do movimento, do equilíbrio e da perceção do próprio corpo. Também identificaram mudanças no opérculo cerebral, uma região onde diferentes sinais sensoriais são integrados e processados.
Para Ferrè, estas conclusões demonstram que o cérebro humano evoluiu para funcionar num ambiente onde a gravidade está permanentemente presente. A investigadora recorda que tarefas aparentemente simples, como pegar numa chávena de café, são executadas automaticamente porque o cérebro calcula constantemente a influência da gravidade sobre os movimentos do corpo.
Esta adaptação cerebral é benéfica durante as missões espaciais, permitindo aos astronautas aprender a mover-se em microgravidade. Contudo, o problema surge quando é necessário voltar a adaptar-se a um ambiente com gravidade.
As imagens das missões Apollo ilustram bem essa dificuldade. Segundo Ferrè, os astronautas apresentavam dificuldades em manter a postura correta na superfície lunar, não apenas devido ao peso dos fatos espaciais, mas também porque o cérebro precisava de recalibrar o equilíbrio e a locomoção para um ambiente com gravidade diferente da terrestre.
Enquanto as missões à Estação Espacial Internacional permitem um período de adaptação e uma recuperação assistida após o regresso, futuras viagens até Marte poderão representar um desafio muito maior. Após cerca de oito meses em microgravidade, os astronautas poderão encontrar dificuldades logo ao sair da nave na gravidade marciana, equivalente a cerca de um terço da existente na Terra.
Os cientistas alertam que, mesmo com músculos e ossos mantidos através do exercício físico, o cérebro poderá não estar preparado para essa transição. Numa missão em que as comunicações com a Terra terão atrasos significativos, qualquer alteração na capacidade de decisão ou na coordenação motora poderá colocar em risco toda a operação.
Entre as soluções consideradas está a utilização de naves capazes de gerar gravidade artificial através de sistemas rotativos, uma ideia frequentemente retratada na ficção científica. No entanto, essa tecnologia continua a ser demasiado dispendiosa devido ao aumento significativo da massa das naves.
Paralelamente, estão a ser desenvolvidas técnicas que recorrem a pequenas correntes elétricas para estimular as regiões cerebrais responsáveis pela perceção da gravidade, procurando facilitar o processo de adaptação.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários