Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

"Olá cientista Maria. Chamo-me Graça, conhecida como a primeira de seis irmãos; sou faladora e risonha, gosto de Ciência (mas não dos testes). No país, temos muitas tradições culturais que vieram dos nossos avós. Tu também? Moro em Timor, a ilha do crocodilo. [...] É fácil ser cientista? Algum dia te cansaste de ser cientista?"

A cientista Maria é Maria João Correia, bióloga, investigadora com trabalho desenvolvido sobretudo na área do mar e professora universitária. Conheceu a "Cartas com Ciência" através das redes sociais. "Fiquei encantada com o programa, muito bem organizado, porque sempre tive esta relação de partilha, dar o que também recebi", conta.

O projeto estava ainda no início, e Graça, a menina da carta, tinha então treze anos. Hoje, seis anos depois, talvez esteja na faculdade. De lá para cá, Maria João Correia trocou cartas com mais dois alunos, um do Brasil, outro de Cabo Verde.

No total, no âmbito dos diversos programas já foram trocadas "mais de 3.000 cartas" e a "Cartas com Ciência" tem atualmente uma base de dados com mais de 820 cientistas, adianta Mariana Alves, uma das fundadoras da associação e um dos seis membros da direção.

Mariana é bioquímica. Escolheu esta área com "sentido prático e de missão", queria descobrir uma vacina ou criar algo com impacto na vida das populações. "Tive o privilégio de conhecer grandes laboratórios em países diferentes. Fiz diversas experiências porque os meus país puderam financiar essas escolhas", recorda. Os anos passaram e a investigação deu lugar à divulgação. "Temos de tornar a ciência mais democrática".

E as hostilidades são várias, a começar pela "desigualdade geográfica". Mas há outras exclusões, como "o racismo ou a misoginia". "Onde estão as mulheres negras na representação da ciência em Portugal? E as ciganas ou as com deficiência?". A pergunta é retórica, mas são vários os estudos que mostram que há poucas cientistas mulheres em cargos de chefia, por exemplo.

Talvez por isso, muitas meninas de contextos socioeconómicos difíceis continuem a achar que os cientistas são todos "homens brancos de cabelos despenteados".

"Quando olhamos para as profissões que as crianças e jovens participantes da Cartas com Ciência escolhem em questionários, cerca de 55% dos meninos escolhem profissões CTEM [Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática] versus 30% das meninas". Mariana sublinha, nesta matéria, a importância de programas como o Girlmove, em Moçambique, destinados a meninas.

Mas a ciência não é nem tem de ser uma guerra de sexos. "A equidade deve ser o objetivo. E isto é importante também para os meninos, que todos entendam a relevância da ciência e tenham exemplos".

Celebramos, hoje [Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência], todas as mulheres e meninas, tendo em vista uma ciência e educação que valorizem cada pessoa, para lá das estruturas e estereótipos de género dominantes e que perpetuam desigualdades", afirmou Mariana Alves por ocasião da Conferência "Mulheres e Meninas na Ciência", que teve lugar na sede da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em Lisboa, em 2023. O mesmo que repete agora.

"Acreditamos numa ciência que, em seriedade e em linha com as evidências e o conhecimento, se descole da construção binária de género, e combata a categorização de diferenças humanas feita em serviço de hierarquias de poder. Uma ciência, uma comunicação de ciência e uma educação em ciências que sirvam a paz e a justiça", considera.

Ciência sem preconceitos

É esse o objetivo da "A Cartas com Ciência", "reduzir as desigualdades sociais usando a ciência como ferramenta". Para isso, implementou programas de troca de cartas postais num universo de mais de 250 milhões de pessoas que falam a língua portuguesa (CPLP) e noutras comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

Já participaram nos programas de troca de cartas mais de mil crianças e jovens de oito países, incluindo Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. De acordo com os dados recolhidos, foi assim que "83% dos estudantes conheceram um cientista pela primeira vez".

"É uma grande responsabilidade. Queremos uma ciência sem preconceitos; o contacto tem de ser ético e igual, não pode passar por estereótipos. Muitos estudos mostram que por causa da exclusão escolar e da sociedade os mais desfavorecidos vão ter menos acesso à ciência", explica Mariana Alves. "Não temos como objetivo que todos se tornem cientistas, mas queremos que a ciência seja uma ferramenta de cidadania".

O projeto "Cartas com Ciência" está repleto de histórias emocionantes e já serviu de inspiração à criação de programas semelhantes não só em Portugal mas também noutras partes o mundo. Guilherme Barbosa, professor cientista, começou em Campinas, no Brasil, uma iniciativa semelhante. O mais engraçado, aconteceu quando, na correspondência trocada com um estudante, explicou que num meio elitista e fechado, iria a uma entrevista de emprego e recebeu do jovem cabo-verdiano uma resposta de apoio e incentivo: "Tem confiança, és um bom professor".

Estudantes e cientistas correspondem-se por carta e estabelecem um diálogo pessoal e contínuo sobre ciência, experiências de vida, aprendizagem e perspectivas profissionais. Este é outro ponto importante, explica Mariana: "Nesse momento, em que escrevem e recebem a carta, são eles o centro da atenção". E são obrigados a parar, a refletir, a abstrair-se de tudo o resto.

Existem programas que duram um ano letivo (e que implicam a troca de três cartas), e atividades específicas, como o "Dia Mundial com Ciência". O que importa, é o que significam de estímulo, motivação e, como diz um dos miúdos, "força para não desistir dos meus sonhos".

A equipa a "Cartas com Ciência" tem atualmente cerca de 30 pessoas, todas voluntárias, cada uma com o seu percurso. Neste momento, o projeto, que fará seis anos em maio, está a procura de financiamento "para podermos ser sustentáveis e continuar".

A este propósito, Mariana Alves, que trabalha pro bono na associação, lembra que a vida dos cientistas e investigadores não é um mar de rosas. "Há muitas pessoas a trabalhar de graça. Muitos continuam a achar que a investigação não é uma profissão a sério. Precisamos de mais direitos laborais".

Doutorada em biologia molecular, Mariana Alvez sublinha que esta é uma opinião que só a vincula a si. "As pessoas não podem viver eternamente sem um contrato de trabalho, porque todos os meses têm contas para pagar". Outra questão "muito relevante", é o "assédio e os muitos casos reportados em Portugal, em que justiça continua a proteger pratica e a perseguir quem denuncia".

__

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.