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A APAV apoiou, nos últimos quatro anos, 3 968 vítimas de violência durante e após relações, sendo que 29% dos casos envolveram jovens menores de 25 anos, que sofreram pelo menos um tipo de violência, incluindo controlo, violência psicológica, perseguição e violência sexual. O controlo tem sido identificado como o tipo de violência mais normalizado, frequentemente interpretado como demonstração de amor e confiança.
Para alertar para este fenómeno, a APAV lançou uma campanha que, durante vários dias, promoveu o Relationchip, um alegado microchip subcutâneo capaz de localizar o parceiro e sincronizar passwords, apresentado como solução para “relações mais seguras”. A narrativa foi construída com linguagem realista e estética tecnológica levando à questão se seria verdadeiro. Só numa segunda fase foi revelado que se tratava de uma campanha de consciencialização sobre comportamentos abusivos, como controlo, vigilância e perda de autonomia.
O 24notícias falou com a ativista Paula Cosme Pinto que mencionou o risco de normalização de comportamentos abusivos:
“O que a campanha mostra já acontece: jovens e adultos monitorizam telemóveis e localização de parceiros, muitas vezes sem questionar. Colocar estes conteúdos a circular sem desconstrução imediata da narrativa inicial é perigoso. É algo com que não se pode brincar, é literalmente brincar com o fogo, quando deixamos mensagens ambíguas perante as camadas mais jovens.”
Paula Cosme Pinto critica ainda o alcance mediático e a lógica de marketing da campanha, que privilegia impacto em detrimento da segurança das vítimas:
“A campanha teve certamente boas intenções e um alcance mediático bem conseguido, mas ao tratar de violência na intimidade é preciso reduzir ao máximo o espaço para ambiguidades. Reproduzir vídeos realistas sobre controlo e monitorização do outro, sem clarificação, é problemático e pode traumatizar quem já foi vítima.”
Já para o escritor e consultor de comunicação Nelson Nunes, o objetivo central da campanha foi consciencializar a sociedade sobre este problema e os riscos associados:
“Levantar, ou seja, fazer nascer alguma consciencialização sobre o problema deste controlo entre parceiros nas relações, que depois pode levar a outros cenários mais perigosos, a falta de liberdade, manipulação, violência emocional e psicológica e até física.”
Segundo Nelson Nunes, a campanha foi construída com algum mistério e intencionalmente provocadora: “Algum mistério, digamos assim, com o levantamento de uma certa indignação. E essa indignação só por si também é positiva.”
A reação do público mostrou que o controlo emocional ainda não está normalizado, permitindo que a campanha cumprisse o seu papel educativo. Nelson Nunes destaca também o follow-up da APAV, incluindo podcasts como o Voz de Cama.
Uma das preocupações levantadas foi que a campanha pudesse inspirar agressores. Nelson Nunes rejeita esta ideia, que vê como "paternalista", sublinhando que o conhecimento é um fator de proteção: “Aquilo não é novidade para ninguém. Mas acho que é sempre muito mais poderoso que a vítima tenha conhecimento de que aquilo pode ser feito.”
O escritor defende que informar as potenciais vítimas é fundamental para prevenir situações de violência. "Mas há assuntos difíceis dos quais é preciso falar, mesmo que possam despertar esses gatilhos. E eu compreendo, acho que estou à vontade de falar sobre isso. Eu tenho falado muito sobre violência doméstica porque eu cresci num contexto desses e, portanto, eu próprio também tenho esses gatilhos. Mas acho que o dano versus o ganho, de falar de um determinado tema, eu acho que o ganho acaba por vencer mesmo."
A campanha utilizou métodos comuns no marketing e no lançamento de produtos, incluindo o recurso ao choque: “O choque foi calculado e foi integrado numa campanha 360, para depois abordar o tema em várias plataformas: em notícias, com episódios em podcast, com conteúdos nas redes sociais.”
Segundo Nelson Nunes, este tipo de abordagem é arriscada, mas eficaz para gerar atenção e reflexão: “Se uma campanha não causa desconfortos ou não nos põe a pensar uma segunda vez sobre algum instinto nosso, se calhar a campanha é esquecível. Esta, se calhar, no final do ano, vou-me lembrar dela.”
O escritor considera que a campanha teve sucesso mesmo que apenas algumas pessoas tenham sido educadas sobre os números e a dimensão do problema: “Se educou duas ou três pessoas sobre os números, já estamos a ter sucesso. Já está a haver sucesso sobre a eficácia da campanha.”
Nelson Nunes reforça que, quando se trata de violência doméstica, falar sobre o tema de forma consciente e estratégica é mais valioso do que evitar o debate. "Estou sensível a esse argumento do gatilho, mas acho que se nós fizermos aqui um bocadinho um zoom out, acho que é um sacrifício que vale a pena fazer", afirmou.
O trabalho criativo da APAV em parceria com a agência BBDO
O diretor criativo da campanha, João Guimarães, da agência BBDO explicou ao 24notícias a génese da ideia e os desafios de comunicar sobre um tema tão sensível:
“A APAV entrou em contato connosco, e apareceu-me com uma causa nova: o controlo digital no namoro. Já vimos muitas campanhas sobre violência doméstica, mas este é um tema muito atual, que se passa com os miúdos, e eles nem percebem que é controlo. Os pais, por outro lado, têm dificuldade em acompanhar e aconselhar” afirmou.
Por se tratar de um tema inovador, a equipa decidiu criar uma solução fora do convencional: “Sabemos que os miúdos passam pouco tempo na televisão, por isso não nos adiantava fazer uma campanha com meios totalmente tradicionais. Tínhamos de estar no mundo digital, super saturado de informação, e precisávamos de algo que chamasse a atenção e permitisse que o tema fosse debatido.”
A ideia do Relationchip surgiu como forma de gerar curiosidade e debate: “O chip é quase como o que se faz aos cães. Achámos logo que ia suscitar curiosidade e gerar debate.” A campanha foi estruturada em fases, com a primeira focada em criar credibilidade: “Só o facto de termos conseguido gerar dúvida sobre a sua existência já foi uma vitória. Recorrendo a códigos e linguagens associadas a gadgets da Apple, criámos um site e conteúdos com máxima credibilidade.”
O objetivo era alertar para comportamentos normalizados que são, na realidade, formas de violência: “Muitas pessoas criticavam o objeto físico do chip sem perceber que já faziam o mesmo com os telemóveis: ter o localizador sempre ligado, monitorizar com quem o parceiro está, mudanças de espaço como prova de compromisso… Queríamos mostrar que aquilo é violência, não comportamento normal.”
No podcast Voz de Cama, a criminóloga Cynthia Silva, da APAV, admitiu ser difícil captar a atenção dos jovens com tantos estímulos: “Se calhar tinha mesmo de ser com uma campanha diferente assim, que era necessária para despertar consciências e questionar os próprios comportamentos.”
Sobre o investimento da segunda fase, a mensagem de “vamos refletir sobre isso” , Cynthia Silva diz que sabia haver o risco de esta segunda mensagem não ter o mesmo alcance, mas que o investimento foi feito para transmitir a ideia de que é necessário “mudar o chip” para alertar todos os jovens que é possível pedir ajuda.
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