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Na quinta-feira, 7 de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária ordenou a retirada de detergentes lava-loiça, sabões líquidos para roupa e desinfetantes produzidos pela Ypê na unidade de Amparo, no interior do estado de São Paulo.

Segundo a BBC Brasil, a medida abrangia todos os lotes cuja numeração terminasse em “1”. Além da recolha, a agência ordenou inicialmente a suspensão da produção, comercialização, distribuição e utilização dos produtos afetados, após identificar falhas no processo de fabrico e risco de contaminação microbiológica.

Apesar de a Anvisa ter suspendido temporariamente os efeitos da decisão depois de um recurso apresentado pela empresa, o organismo esclareceu que não alterou a avaliação técnica sobre o risco sanitário e mantém a recomendação para que os consumidores não utilizem os produtos dos lotes afetados até existir uma decisão definitiva.

A própria Ypê informou que decidiu manter parte da produção de líquidos parada enquanto implementa as medidas exigidas pela autoridade sanitária.

Na terça-feira, 12 de maio, a empresa e a Anvisa reuniram-se para analisar o recurso feito pela marca, segundo uma publicação no Instagram. Hoje, 15 de maio,  a Agência analisa o recurso apresentado pela Ypê.

Em poucas horas, o caso deixou de ser apenas uma questão de saúde pública e passou para o centro do debate político nas redes sociais brasileiras. Com vídeos onde pessoas simulavam usar o detergente como gel de banho ou como bebida.

Apoiantes do ex-presidente Jair Bolsonaro acusaram o governo de Lula da Silva de perseguição à empresa, recordando que membros da família Beira, ligada ao grupo controlador da Química Amparo, dona da marca Ypê, fizeram doações para a campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral brasileiro, membros da família terão doado, em conjunto, cerca de um milhão de reais à campanha do antigo presidente.

A ligação política da empresa ao bolsonarismo já tinha sido alvo de controvérsia anteriormente. Em 2022, a Química Amparo foi condenada pela Justiça do Trabalho por assédio eleitoral, depois de promover uma transmissão interna de apoio a Bolsonaro junto dos funcionários. Na altura, a empresa afirmou ser apartidária.

Nas redes sociais, políticos, influenciadores e figuras públicas começaram a publicar vídeos a utilizar produtos da marca numa espécie de campanha informal de apoio à empresa.

O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, divulgou um vídeo a lavar loiça com detergente Ypê e apelou aos seguidores para comprarem os produtos da marca.

“Vamos acabar com esta sacanagem que estão a fazer com esta empresa 100% brasileira”, afirmou.

Também o senador Cleitinho publicou um vídeo a utilizar o detergente enquanto criticava a atuação da Anvisa, questionando em tom irónico se o organismo iria “fiscalizar a esponja de cada brasileiro”.

Já o deputado estadual Lucas Bove afirmou que a empresa estaria a ser “perseguida” por ser “bolsonarista”.

O presidente da Câmara de Sorocaba, Rodrigo Manga, adotou uma posição mais moderada, defendendo a substituição dos lotes afetados, mas criticando aquilo que classificou como um “massacre” contra a companhia.

A polémica chegou também ao mundo do entretenimento. A cantora Jojo Todynho publicou vídeos a lavar loiça com detergente da marca e garantiu que continuaria a usar os produtos.

O ator Júlio Rocha ironizou a situação nas redes sociais, afirmando já ter “tomado banho com Ypê” e usado os produtos em brincadeiras com os filhos.

Ao mesmo tempo, multiplicaram-se memes e imagens geradas por inteligência artificial associando a marca à direita política brasileira. Algumas publicações sugeriam até a retirada da cor vermelha de determinados produtos da marca, numa referência ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Enquanto isso, as autoridades sanitárias continuavam a reforçar o alerta. O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo reiterou que o risco sanitário permanece sob análise e recomendou que os consumidores evitem utilizar os produtos dos lotes abrangidos até decisão final.

A suspensão temporária das medidas após o recurso da empresa alimentou interpretações divergentes nas redes sociais. Apoiantes da marca consideraram que a decisão demonstrava que a atuação inicial da Anvisa teria sido exagerada ou politicamente motivada. Já as autoridades sanitárias insistiram que a recomendação para não utilizar os produtos continua válida.

Segundo uma reportagem do programa Fantástico, na rede Globo, a agência reguladora deverá reunir-se esta semana para decidir se mantém ou revoga definitivamente a suspensão.

Em comunicado, a Ypê afirmou que “a segurança dos consumidores é, e continuará a ser, a maior prioridade”.

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