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Quando era ainda bebé, movia-se ao som de qualquer música que passasse na televisão. Não que tenha memórias desse tempo, mas faz parte das histórias de família. O que não esquece é o primeiro espetáculo de ballet a que assistiu, "O Lago dos Cisnes", tinha apenas quatro anos: "Adorei!", conta Joe Powell-Main. "A partir daí, soube que queria fazer parte desse mundo".

Aos cinco anos, começou a ter aulas de ballet perto de casa e a coisa prometia. Entusiasmados, os professores acharam que o miúdo tinha potencial, o que o levou a fazer audições e a conquistar um lugar numa das melhores e mais antigas escolas de ballet clássico do mundo, The Royal Ballet School.

Tudo corria bem até uma lesão ter obrigado Joe a submeter-se a uma cirurgia. Entre entorses, tendinites e fraturas por stress, as lesões no ballet são comuns, não só devido à exigência física mas também aos movimentos repetitivos da dança. As partes do corpo mais afetadas são geralmente os pés, os tornozelos, os joelhos e região lombar. No seu caso, o problema surgiu num joelho.

A operação trouxe complicações e o bailarino acabou por ficar dependente de canadianas, mas o pior estava para vir. Um ano depois da cirurgia, "um acidente de automóvel agravou ainda mais a situação, fiquei com pouca atividade muscular na perna esquerda e com o pé invertido". Joe enfrentava dificuldades acrescidas e dependia agora das muletas e também da cadeira de rodas.

"Para ser franco, nunca pensei que voltaria aos palcos ou que voltaria sequer a dançar depois de ter ficado com esta deficiência", confessa. O que o fez ter medo foi também o que o impeliu a continuar. Isso e "a certeza de que a minha mãe estaria sempre lá para me ajudar a conquistar os meus sonhos, independentemente de tudo o que pudesse acontecer".

E foi a mãe que reparou nos anúncios de cadeiras de rodas para bailarinos de danças latinas e danças de salão e, dessa forma, fez Joe voltar à dança. O processo não foi fácil. "Vivo com uma deficiência há 13 anos e demorei algum tempo a perceber que não deixaria que isso me impedisse de realizar os meus sonhos", desabafa.

Preconceito: o maior desafio é mudar atitudes

Hoje, a cadeira de rodas, como as canadianas, "são definitivamente uma extensão do meu corpo quando as uso, embora haja momentos em que parecem ter a sua própria personalidade", afirma. Talvez por isso, "e por ser vermelha e por eu ter origem galesa", a cadeira de dança anterior chamava-se Dragão. A que tem há já quatro anos não é menos voluntariosa, mas ainda não tem nome.

"Às vezes, quando danço com outro bailarino, tenho a tentação de dizer: 'Atenção, não estás a dançar apenas comigo, temos aqui um terceiro parceiro'." É que embora sejam uma extensão do seu corpo, muletas e cadeira de rodas podem ter vida própria, até porque "dançar com a minha cadeira de rodas versus dançar com as minhas muletas é realmente muito diferente".

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Se nas danças de salão, por exemplo, já se fez um grande caminho no que diz respeito à inclusão, em termos de ballet clássico as coisas só agora estão a começar a mudar. "O que é realmente interessante, porque quando tive a oportunidade de trabalhar com o Royal Ballet entrei à espera de uma coisa e, afinal, fiquei completa e agradavelmente surpreendido".

"Em dez anos, o progresso foi impressionante", testemunha Joe. "O avanço foi de tal forma grande que as companhias estão mesmo a começar a falar na possibilidade de ter bailarinos com diferentes capacidades, cores, tamanhos e feitios todos juntos no palco, o que é fantástico. Ainda há um longo caminho a percorrer, embora seja estimulante pensar onde estaremos daqui a outros dez anos".

No geral, o público tem acolhido Joe de forma "extremamente positiva". Mas houve momentos em que teve de enfrentar barreiras. "Os desafios são físicos, mas também psicológicos, de preconceito, de atitude. 'Se está numa cadeira de rodas ou anda de canadianas, nunca poderá ter o mesmo talento que um bailarino que dança pelo seu pé'. Já me disseram isto".

Joe confessa que não teve resposta. "Para ser franco, fiquei um pouco atónito. Não sou o tipo mais falador do mundo, mas acho que interiormente, no meio do meu silêncio, sempre quis provar que estas pessoas estavam erradas e que era possível. Espero ter conseguido".

O regresso foi "uma espécie de descoberta" de entraves. "Quando recomecei, um dos maiores desafios do meu trabalho era ir em digressão, havia muitos problemas de acessibilidade. Desde logo nos bastidores dos teatros", descreve. "Havia locais onde não podia realmente dançar com o resto da companhia".

"A certa altura, até senti que a empresa queria fazer as coisas de maneira inclusiva, mas depois não era muito recetiva quando eu dizia que alguma coisa não estava a funcionar. Então, tornou-se um ambiente difícil para mim".

Hoje, se tivesse de descrever a sua forma de dançar numa só palavra, ela seria "inconvencional". "A razão pela qual digo isto é porque pego numa técnica clássica e transformo-a. Obviamente, faço-o com muito respeito pelo ballet clássico, é importante respeitar a sua história, mas é igualmente importante trazê-lo para uma nova era. Por isso, de certa forma, atiro o livro das regras pela janela".

Plano B, ser (também) coreógrafo

Além de bailarino Joe é coreógrafo e fundador da JPM Productions. "A ideia surgiu porque, quando trabalhava num ambiente predominantemente com bailarinos de pé, tinha de estar sempre a adaptar as coreografias à minha forma de dançar", explica.

"Também fiz um projeto de investigação e desenvolvimento com o Scottish Ballet, no Reino Unido, mas estava a ficar um pouco frustrado porque como freelancer, de certa forma, não era visto nem como coreógrafo nem como bailarino. No fundo, criei a JPM Productions como uma espécie de bandeira para todo o meu trabalho coreográfico. Depois, tive algumas oportunidades realmente fantásticas de coreografar alguns trabalhos e de os levar à Royal Opera House".

O objetivo passa por alcançar um novo patamar naquilo que é a "dança acessível, uma dança que fale com diferentes públicos". "Quero ser capaz de criar e mostrar isto de forma independente, mas também, espero, através de colaborações com diferentes empresas e organizações, sejam companhias de ballet ou festivais, por exemplo".

"Quero realmente que as pessoas vejam histórias com as quais se possam relacionar, que possam desafiar perceções e que tenham em palco pessoas reais. Um dos desafios com que me deparei no ballet foi as pessoas acharem que um bailarino tem de ser perfeito o tempo todo, não pode ter uma deficiência física".

É por isso que "a dança contemporânea está muito mais à frente, porque nem sempre tens de estar bonito. Mas há pessoas reais, com falhas, atrás das personagens que os bailarinos estão a interpretar, gente com particularidades únicas e incríveis, com muito para oferecer. É muito importante que celebremos isso", acredita.

Muitas vezes, o financiamento é o principal bloqueio à apresentação destes projetos, sobretudo agora que o governo do Reino Unido está a reorganizar os apoios disponíveis para pessoas com deficiência. Apesar de tudo, e através de uma página na GoFundMe, uma plataforma de arrecadação de fundos, Joseph consegui angariar alguns apoios monetários, incluindo "um montante simpático de um mecenas generoso, dinheiro que me permite fazer o meu próprio trabalho".

Além disso, o bailarino e coreógrafo vai disponibilizar algum do seu trabalho, acessível online entre os dias 15 e 18 de agosto mediante o pagamento de uma pequena quantia, apenas para mostrar do que trata a JPM Productions.

Ideias não faltam: para o Natal está em preparação uma adaptação de "O Quebra-Nozes", de Tchaikovsky — "também me disseram que eu nunca seria visto numa obra assim, quero mostrar que é possível" —, e na primavera de 2026 será apresentada uma versão de um ato de "Giselle", com cerca de 29 minutos de duração. "Vou apresentar ambos localmente, filmar e depois partilhar. Quem sabe surja a oportunidade de levar estes trabalhos a algum festival", talvez até em Portugal.

Aveiro, a estreia internacional depois do acidente

Joe Powell-Main conhece diversos bailarinos portugueses e até já trabalhou com alguns deles, como é o caso de Miguel Fernandes, que esteve na primeira companhia a que pertenceu no País de Gales. "Era um bailarino e um artista fantástico, penso que agora está no musical 'O Rei Leão'".

O bailarino-coreógrafo também segue o trabalho da Companhia Nacional de Bailado e, quando soube que vinha a Portugal, foi marcando algumas publicações no Instagram, na esperança de ser visto. E também pesquisou alguma coisa de uma nova companhia do Porto, a Ballet do Douro, "porque alguém com quem trabalhei dançou com eles e teve uma experiência muito positiva".

Joe esteve em Aveiro no mês de julho, na 10.ª edição do Festival dos Canais. Assegura que foi uma das experiências mais marcantes da sua carreira, "não só porque foi a minha estreia internacional, mas também porque numa das apresentações, especialmente, havia um grupo de dançarinos com deficiência, alguns de muletas, outros de cadeira de rodas, e, no final, vieram falar comigo, num gesto de apreço e de gentileza".

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"Muitos nem falavam uma palavra de inglês, mas estávamos ligados pelo poder da dança, senti algo realmente muito especial. É muito mais fácil expressar algumas ideias através da dança do que por palavras. É por isso que acredito que a dança e a arte têm um papel enorme na sociedade, para a tornar inclusiva. Quando sobe ao palco, o bailarino fica vulnerável e exposto. Quando, como eu, usa cadeira de rodas e muletas, a mensagem é que sabe que pode não se parecer com toda a gente, pode não fazer algo como toda a gente, mas isso não significa que não tenha sonhos e não possa alcançar coisas brilhantes".

"E foi incrível ouvir a líder do grupo partilhar como é desafiante em Portugal montar uma apresentação com dançarinos com incapacidades diversas, mas nem por isso ela desistiu. Foi aí que senti que era mesmo, mesmo especial. E sim, acho que o público gostou do que viu, de maneira geral, e sinto-me grato por isso".

São vários os momentos que marcam a vida de Joe. "Ter a oportunidade de trabalhar com o Royal Ballet foi um momento realmente importante para mim, abriu-me muitas portas".

"Mais recentemente, devo dizer que trabalhar no Reino Unido com uma pequena companhia de ballet, a New Works Ballet Theatre, em Bristol, numa produção de "O Monte dos Vendavais", em que o encenador criou o papel de Heathcliff a pensar em mim, foi um grande momento. Ter uma personagem principal interpretada por um bailarino em cadeira de rodas é incrível e é algo com que sempre sonhei", confessa o bailarino.

Joe Powell-Main sente-se afortunado. "Muitos pensam: 'bem, deves ter treinado a um nível elevado para entrar na Royal Ballet School'. A verdade é que isso permitiu-me expandir os meus horizontes. Gostaria muito que houvesse mais possibilidades para bailarinos com deficiência treinarem em diferentes escolas de dança".

"Há um fosso enorme entre os grupos comunitários que temos aqui no Reino Unido — e tenho a certeza de que em Portugal também —, e o caminho profissional, ou seja, não há continuidade. Por vezes, aparecem bailarinos profissionais com deficiência, mas gostava de ver percursos de formação para estes bailarinos, programas de dança completos acessíveis a bailarinos com diferentes necessidades. Uma vez mais, uma das maiores dificuldades é o financiamento. Mas se todos se juntassem, algo incrível aconteceria", desafia.