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Mais de um ano depois das demolições que marcaram o Bairro do Talude, o 24notícias regressou ao local e encontrou um território suspenso no tempo. Entre caminhos de terra batida, barracas improvisadas e sinais evidentes de degradação, permanecem as marcas de uma comunidade que continua à espera de respostas.
À medida que se avança pelo bairro, a paisagem torna-se mais árida. As habitações precárias convivem com sinais de vida quotidiana, pelas portas entreabertas vislumbram-se quadros pendurados nas paredes, sofás gastos e roupa estendida. Ao fundo, a Ponte Vasco da Gama domina o horizonte. A vista poderia ser idílica, não fosse o abandono que caracteriza grande parte daquele espaço.
O silêncio é interrompido apenas pelo vento. Duas crianças brincam junto de uma mulher que aparenta ser a mãe. O 24notícias tenta falar com a suposta família, sem sucesso. Mais adiante, uma jovem lava roupa em alguidares, uma imagem que contrasta com a proximidade da cidade.
No centro do bairro surge José Alberto, pastor da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Mais do que um espaço de culto, a igreja tornou-se um ponto de encontro da comunidade e o local onde os moradores se organizam sempre que enfrentam problemas que afetam a vida no Talude.
Para José Alberto, as demolições nunca foram um episódio isolado. "Isto acontece repetidamente. Há menos de um mês voltaram a demolir mais duas casas."
Na sua perspetiva, a intervenção da Câmara Municipal de Loures resume-se à destruição das construções, sem que sejam apresentadas alternativas para quem ali vive. "Não se dão condições ao povo. Há muitas pessoas aqui com documentos e que trabalham, mas não há qualquer contributo para melhorar a vida desta população."
A igreja acabou, por isso, por assumir um papel central na vida da comunidade. "Quando acontece alguma coisa, toda a gente se reúne aqui. É aqui que falamos com a população e tentamos perceber como podemos ajudar", esclarece o pastor.
Esse apoio é, sobretudo, espiritual: "Este povo precisa de conforto. Pelo menos de conforto espiritual, para ganhar força para continuar."
Quanto às famílias que perderam as suas casas, o pastor diz que muitas acabaram por regressar ao bairro e reconstruir as barracas. "Onde é que eles iam viver? Muitos preferiram voltar para aqui do que aceitar um abrigo ou um hotel."
Na sua opinião, as soluções de alojamento temporário não respondem às necessidades das famílias. "Num hotel a pessoa não consegue cozinhar, não consegue viver normalmente. Fica numa solidão imensa."
José Alberto recorda que as demolições se sucedem desde 2020. "Esta foi apenas mais uma."
Acusa ainda a autarquia de dificultar a reação judicial dos moradores. "Muitas vezes colocam as notificações à sexta-feira ao final da tarde e as demolições acontecem logo a seguir. Assim, as pessoas não têm tempo para recorrer aos tribunais."
Ainda assim, reconhece que, na última vaga de demolições, associações e tribunais conseguiram prestar algum apoio à população, embora considere que esse esforço tenha sido insuficiente para travar o processo.
Um ano depois das demolições, José Alberto afirma que: "Nada mudou. As pessoas continuam aqui e ninguém fez nada por elas".
Ao percorrer o Talude, o 24notícias encontra entulho de obras, eletrodomésticos abandonados e vários tipos de resíduos acumulados entre as habitações improvisadas. Segundo o pastor, o bairro sempre conviveu com resíduos espalhados pelos caminhos de terra batida, mas a situação agravou-se desde a última operação.
José Alberto recorda que, há alguns anos, a Câmara Municipal chegou a numerar algumas habitações, alimentando a expectativa de que o bairro pudesse vir a ser integrado ou regularizado. A esperança, porém, nunca se concretizou.
O pastor rejeita a ideia de que os moradores vivam à margem da sociedade: "A maior parte trabalha na construção civil, na jardinagem, na limpeza ou noutros trabalhos pouco qualificados. Vivem do salário mínimo e, com esses rendimentos, é impossível pagar rendas de 900 ou 1000 euros."
Desde a última grande operação, acrescenta, a Câmara Municipal não regressou ao bairro para apresentar soluções. "Vêm, deitam as casas abaixo e vão-se embora. As pessoas ficam entregues a si próprias."
Embora algumas famílias tenham sido encaminhadas para os serviços municipais ou tenham recebido propostas de apoio ao arrendamento, José Alberto considera que essas respostas ficam muito aquém da realidade do mercado. "Dizem às pessoas para arrendarem um quarto com 200 ou 300 euros. Mas onde é que hoje se encontra um quarto por esse valor?", remata.
Apesar das críticas, acredita que existem medidas que poderiam melhorar as condições de vida dos moradores enquanto não é encontrada uma solução definitiva.
"Se o Estado diz que as pessoas recorrem a ligações ilegais de água e eletricidade, então instale esses serviços e deixe que as famílias paguem pelo que consomem. Ninguém quer prejudicar o Estado. As pessoas querem trabalhar e viver com dignidade", afirma.
As críticas do pastor encontram eco no movimento Vida Justa, que acompanha há vários anos a situação do Bairro do Talude.
Em declarações ao 24notícias, Carlos Kangoma, ativista do movimento, explica que a principal mudança desde as demolições não foi nas condições de vida dos moradores, mas na forma como a comunidade passou a organizar-se. "A maior evolução foi a criação da associação de moradores, que hoje representa a população de forma organizada", diz.
"Continuamos a lutar para que se possam garantir condições sustentáveis para estas pessoas, porque as condições apresentadas até à data não são sustentáveis a longo prazo. Continuamos neste braço de ferro com a Câmara de Loures, que tem como objetivo não reorganizar as pessoas, nem ajudá-las, nem encontrar soluções sustentáveis, mas sim demolir as habitações que existem no bairro", revela o ativista sobre as respostas apresentadas pela Câmara Municipal de Loures.
Enquanto esse impasse se mantém, a associação de moradores tem procurado melhorar as condições do bairro através de ações de limpeza e continua a reivindicar o acesso a serviços básicos.
Carlos Kangoma defende que, enquanto não existir uma solução definitiva para o Talude, compete à autarquia assegurar o fornecimento de água e eletricidade. "As pessoas não têm capacidade financeira para entrar no mercado da habitação. A solução que a Câmara apresenta, através do apoio ao pagamento da caução e da primeira renda, é praticamente impossível de concretizar. Com as novas regras do arrendamento, que permitem aos senhorios definir qual é que é o número de cauções que podem pedir, a situação torna-se ainda mais difícil", acrescenta.
O que diz a Câmara Municipal?
Segundo dados enviados ao 24notícias, o município tem atualmente identificadas 70 "construções precárias e ilegais". A autarquia acrescenta que, desde outubro de 2025, "não foi identificada qualquer nova construção ilegal que tenha permanecido no território", uma vez que todas as estruturas entretanto erguidas "foram prontamente sinalizadas e demolidas pelos serviços municipais". Ainda assim, assegura que mantém "particular atenção a ampliação de algumas estruturas abrangidas por providências cautelares".
No plano judicial, a Câmara refere que as operações realizadas em julho de 2025 deram origem a "oito providências cautelares", às quais se juntou uma nova ação em junho deste ano. No total, os processos abrangem "26 requerentes". De acordo com a autarquia, duas dessas situações habitacionais já ficaram resolvidas, permitindo a demolição das respetivas construções. As restantes estruturas abrangidas pelas decisões judiciais continuam por demolir, aguardando a conclusão dos processos nos tribunais.
A Câmara garante que continuará a cumprir as decisões judiciais e que qualquer nova intervenção dependerá das decisões finais dos tribunais.
Relativamente ao acompanhamento social das famílias afetadas, o município afirma que "23 agregados familiares conseguiram autonomizar-se com apoio da autarquia" na sequência das demolições. "Quatro famílias beneficiaram ainda de soluções de alojamento de emergência em unidades hoteleiras e centros de acolhimento", enquanto "sete agregados continuam atualmente a ser acompanhados pelos serviços municipais de ação social".
Segundo a Câmara, a "maioria das restantes famílias" deixou de recorrer aos serviços municipais por "iniciativa própria".
Quanto ao futuro do Bairro do Talude, a posição do executivo "mantém-se inalterada". A autarquia sustenta que a maioria dos terrenos onde se encontram implantadas as construções pertence a proprietários privados e está classificada pelas entidades competentes como uma área "insuscetível de reconversão urbanística".
O Bairro do Talude Militar começou a formar-se nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, com a construção de habitações sem licença, sobretudo em terrenos privados ao longo da antiga Estrada Militar, que ligava Caxias a Sacavém e que, entretanto, foi desclassificada pelo Ministério da Defesa. Neste momento, tem construções mais antigas em alvenaria com acesso a água e energia, como o caso da comunidade cabo-verdiana logo na entrada do bairro, e outras mais recentes de chapa de zinco e sem infra-estruturas.
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