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Num prédio de linhas industriais, na Penha de França, Lisboa, reside o Impact Hub Lisbon.
O espaço de coworking, habitat de nómadas digitais ligados à área social, esconde um pequeno segredo no quarto e último piso ao qual não é fácil aceder. Mas, mal a porta se abre, a visão deteta uma exígua cozinha e um amplo terraço. É uma combinação perfeita para um convite à socialização, à mesa.
O pequeno espaço das artes culinárias é partilhado por três mulheres. Todas já ultrapassaram a barreira dos 65 anos. Helena, Rosa e Manuela, na zona reservada aos preparativos gastronómicos, de olhos nos ingredientes, movimentam-se, vagarosamente, à volta de uma mesa.
Entre conversas tripartidas, enrolam uma massa tenra (de carne) e um enfarinhado cujo cheiro atrai as narinas de quem se aproxima. Fazem parte de um projeto saído da incubação. “A Avó Cooking Lab”. A génese é a “A avó Veio trabalhar”, projeto de intervenção social criado há mais de 10 anos pela Fermenta, útero comum aos empreendimentos desenvolvidos para e a partir de avós. Ângelo Compota e Susana António são os cofundadores.
Sair de casa e ter tempo para si mesma
Helena Ferrer bate à porta dos “70 anos”. Entrou na “A Avó Veio Trabalhar”, por influência de uma amiga, em outubro do ano passado. “Fazemos bordados, tricô, crochet e damos workshops”, resume.
Ao novo desafio do Ângelo Compota, resolveu dar outro uso às habilidosas mãos. À palavra coser, adicionou o verbo homófono, cozer. “Falou-me do projeto da cozinha, como gosto muito de cozinhar, vim experimentar”, conta ao 24notícias. Tem um sotaque que embrulha a língua portuguesa de tons dançantes de Cabo Verde (onde nasceu) e o português afrancesado que trouxe de França.
A cantiga não engana. Helena é de Cabo Verde, Ilha de São Vicente. “Vim para Lisboa em 1969. Ia fazer 14 anos, fiz o liceu e em 1975 fomos para França, perto de Estrasburgo. Vivi lá 45 anos”.
Três países resultam numa mescla entre a gastronomia gaulesa, africana e portuguesa. As receitas correm-lhe no sangue. “O meu pai era cozinheiro nos barcos de carga, nos Países Baixos, a minha filha também está no mesmo caminho, em França”, narra a antiga educadora social que teve, entre braços, trabalho com adultos deficientes.
Reformada, regressou a Portugal há cinco anos, “à procura de melhor qualidade de vida e tempo mais quente”. Tem a companhia da irmã e sobrinhos. Mas foi na “Avó Cooking Lab” que encontrou uma porta “para sair um bocadinho de casa, para não estar sempre a cozinhar para todos e ter tempo para mim”, desabafa, embora continue a ajudar o outro”, como sempre fez. “Agora é tempo para fazer outra coisa que não seja estar em casa”, exterioriza.
Mãe de três filhos, avó de três netos, “três rapazes, todos do meu filho”, Helena não subiu sozinha ao quarto andar do Impact Hub. A seu lado, Rosa, sua conhecida do grupo das “Avós de Lisboa” e Manuela, das “avós de Cascais, que conheceu “no primeiro dia em que vim aqui”, especifica.
“Agora temos mais tempo livre nas nossas vidas”
“Agora temos mais tempo livre nas nossas vidas. Ocupamos o tempo a fazer coisas úteis. E damos continuidade aos saberes que temos...”, explica Manuela, como se apresenta, sem acrescentar o apelido.
“Aprendi a cozinhar com a mãe e a avó. Acho que a maioria de nós foi em casa, não é?, lança a pergunta cuja resposta repousa na ponta da língua.
“Quem tem o gosto para cozinhar, vai investigar em revistas, internet, programas de televisão”, anota. “Vamos apurando os nossos saberes, porque a cozinha também está sempre evolução”, antecipa Manuela, 66 anos, “mas ainda não reformada”, avisa.
Esclarece que ficou desempregada há um ano e viu "o projeto no Facebook. Fui para a “Avó Veio Trabalhar”, em Cascais e agora também estou por aqui”, afirma.
“Gostamos de cozinhar. Não é um castigo, é até libertário, liberta o stress”, acentua. O “prazer” foi iniciado bem cedo. “Aos 12 anos”, recorda.
Tem as origens físicas e gastronómicas na Beira Baixa, na Covilhã, para se ser mais preciso. Iniciou o percurso profissional na terra natal. “Passei por quatro confeções, mas as fábricas fecharam e vim para Lisboa”, recorda.
Trabalhou “24 anos na casa de uma senhora idosa” e “ao mesmo tempo cozinhava para umas miúdas”. O serviço está reduzido, hoje, “a uma delas”, exprime.
Cozer à máquina é muito da “minha arte”. Ainda hoje o faz. “Tenho máquinas em casa e às vezes ajudo amigos numas bainhas ou numa coisa qualquer”, frisa.
Linhas à parte, cozinhar “dá-me prazer”, em especial a cozinha portuguesa à qual junta uma pitada de inovação. “Conhecemos agora ingredientes que, antigamente, não existiam”, explana Manuela, uma “avó” a quem os filhos não abençoaram com netos.
“O projeto da cozinha, é ouro sobre azul”
Rosa Reis nasceu em Portugal, aos 13 anos foi para Angola onde trabalhou até aos 25 “no Banco Totta”. Regressou, foi integrada na Caixa Geral de Depósitos, “até me reformar”, ao abrigo de um programa de reformas antecipadas do banco público.
“Fiz as contas. Entretanto, tinha perto de 60 anos e para não estar em casa, fiz-me à vida. Ainda trabalhei em lavandarias, adoro passar a ferro. Hoje, não me importava de por lá trabalhar, gosto imenso daquelas máquinas de vapor”, conta.
Por sugestão da filha, entrou pela porta da “Avó Veio Trabalhar”. Foi “há ano e meio” e não foi “por solidão”. Tinha ocupação. “Estava sempre em contacto com este e aquele, a passar a roupinha a ferro ou fazer uma bainha”, informa.
Hoje, experiencia algo diferente. “Em vez de estar em casa sentada, a fazer malha, não sei o quê, quando posso, venho sempre. Adoro, é um ambiente muito bom”, descreve, ao referir-se ao trabalho das avós à volta das linhas e agulhas.
Acompanha o empreendimento gastronómico a sair da incubadora. “O projeto da cozinha, é ouro sobre azul. Ao fim ao cabo, é a minha praia também”, relata Rosa, “77 anos”, cuja felicidade da troca do vapor da lavandaria pelos fumos na cozinha está gravada no sorriso. “Tem um cheiro mais agradável”, graceja Rosa, avó de “cinco netos”, indica.
“Sempre adorei cozinhar. E mesmo depois dos meus três filhos estarem arrumados nas casinhas deles, vão sempre pedindo, mãe faz-me uma panelinha de sopa”, anuncia.
No início, era o café
Manuela, Rosa e Helena prosseguiram com o preparado dos ingredientes e cederam palco aos cofundadores do projeto. A conversa traslada para o terraço.
“É um novo passo. Bem, não é assim tão novo quanto isso. Quando criámos a “A Avó Veio Trabalhar”, tivemos esta ideia de ter um espaço suficientemente grande para termos uma cafetaria incubada em que pudéssemos receber pessoas e ter esta ligação da comunidade com os nossos avós”, recorda Ângelo Compota.
Permanece na ideia inicial. “Era a Avó Coffee Lab”, aberta cinco dias por semana e que promovesse o café de saco tradicional, bolos tradicionais, bolo de mármore, de laranja, chocolate e refeições caseiras, mais leves”, recorda.
Tentaram fazê-lo antes de se mudarem para o Impact Hub Lisbon, mas o antigo proprietário no anterior espaço – “não permitiu ter saída de fumos” – fez com que a ideia tivesse ficado na “prateleira estes anos”, adianta.
Até que, “marcas e clientes” começaram a desafiar a “Avó Veio Trabalhar” para “ter ações relacionadas com a cozinha e apercebemo-nos que as avós vibravam com estas ações, quando as mobilizávamos a trazer um doce tradicional, um prato, traziam 40 mil coisas como se fosse uma mesa de Natal”, refere.
Da conversa “informal” com o Impact Hub, à existência do “espaço disponível” e procura de “um parceiro social que o pudesse explorar” deram os primeiros passos.
O café, contudo, não saiu do papel. E avançaram para os pratos. Portugueses.
Pratos portugueses para nómadas digitais, mas não só
“Tem muito a ver com os pratos tradicionais de conforto, uma boa patanisca de bacalhau com arroz de feijão, peixe da horta, arroz de tomate, salada russa, torta de bacalhau”, apresenta. Para aumentar a água na boca, as sobremesas “muito simples, mas com muito sabor”, como o “arroz doce ou o pudim mandarim...”, desfila.
“Apostamos naquela comida de quando vamos à casa das nossas avós, ou quando revivemos essas memórias”, expõe cofundador, psicólogo de profissão e formação.
“As pessoas reúnem-se à volta de uma mesa, todos temos este imaginário das avós a cozinharem, os fins de semana juntos e a comida a unir as gerações”, avança Susana António, designer, igualmente cofundadora da Fermenta.
“Era uma vontade antiga de juntar pessoas à mesa. Surgiu esta oportunidade, fizemos a candidatura à Fundação Aucham, fomos selecionados, temos outro parceiro, a Portugal Inovação Social, e decidimos avançar”, conta.
Em vez da cafetaria “decidimos que, se calhar, era melhor testar vários modelos. Estamos a fazer catering, almoços comunitários, eventos e festas”, revela.
Embora, por agora, o foco permaneça nos eventos do Impact Hub, a ideia necessita de amadurecer. Mas o catering está apto a servir empresas, se requisitados.
“O repto passa por estarmos em contacto direto com os nómadas digitais, as empresas sediadas aqui. É aberto à comunidade, mas, num futuro próximo, a intenção é fazer coisas para fora do espaço”, anuncia Ângelo.
“As pessoas que trabalham aqui, muitas estão fora dos seus países, longe das famílias, e encontram uma nova família à volta da mesa”, compara Susana.
“Queremos que as pessoas se imaginem na casa das avós. Queremos voltar a dar protagonismo às avós, como fazemos na “Avó Veio Trabalhar”, aponta.
Mas não só. Os sabores típicos portugueses, perdidos à medida que Lisboa (e o país) se submissa debaixo do turismo massificado, são chamados de volta. “Já dificilmente conseguimos encontrar um bom restaurante que sirva comida tradicional portuguesa”, com todos os mistérios e segredos”, lamenta Ângelo.
“As três avós confecionam pataniscas de forma diferente, porque os backgrounds são diferentes”, avisa. São, contudo, guiadas pela mente criativa da consultora Sofia Correia. “É um bocadinho nesta lógica de formar, formar e capacitar as avós”, frisa.
“É diferente estarmos a prestar um serviço ao público do que propriamente estar a confecionar em casa, portanto, é dar palco a estes vícios que elas têm de casa, mas espremê-los e torná-los mais polidos ao ponto que o serviço seja melhor prestado, mas nunca perdendo, esta pitada”, assevera.
A quebra de estigmas e os idosos no centro de tudo
A existência de diversas cozinhas e projetos sociais é reconhecido pelos cofundadores, Ângelo e Susana. Reclamam, no entanto, a distinção neste laboratório das avós.
“Fizemos esta prospeção de mercado, para tentar perceber os menus. O que nos distingue? A pinta e o sabor”, sorri, Ângelo.
Por enquanto, são três avós. “Três personalidades completamente diferentes. A Rosa consegue manter o equilíbrio das outras duas, a Manuela precisa de palco e a Helena fala pelos cotovelos”, caracteriza. “Numa fase posterior serão seis, quando começarmos a ter um grande fluxo”, antecipa.
Susana intromete-se. “A comida é mais do que comida e o que queremos trazer de diferente para esta cozinha comunitária, é que a terceira idade, as pessoas mais velhas, possam ser o centro, e que se volte a olhar para as pessoas mais velhas com sabedoria e sem paternalismo”, sublinha.
“É preciso quebrar este preconceito do que é uma pessoa idosa, uma pessoa velha. Se falarmos com jovens adultos, ninguém se quer ver velho, porque ninguém quer imaginar, por causa do preconceito”, observa a designer.
“Mas, se à nossa volta, começarem a existir cada vez mais pessoas que mostram que envelhecer é só um estado normal e não tem nada de mal, se calhar começamos a quebrar esse estereótipo”, perfectiva, um caminho em que as conversas e participação das avós em workshops, outro dos propósitos do projeto, ajudará a dissipar.
“É interessante também recuperar as histórias, histórias de família, do aprendi a cozinhar isto com a minha avó, ou mãe, coisas que, para nós, já não são assim tão recentes, mas têm todo o interesse em recuperar”, realça Ângelo.
Costura, gastronomia e rostos do envelhecimento
O primeiros pratos começam a ser servidos com cadência. “Às vezes, as coisas saem da gaveta na altura que têm de sair. Agora, já temos experiência, know-how e parcerias suficientes para que a “Avó Cooking Lab” ande de forma diferente do que quando começámos há 11 anos”, salienta Susana.
Apesar do cariz social, Rosa, Manuela e Helena, são remuneradas. “Manter a ligação de se sentirem ativas e contribuir ativamente para a sociedade. Têm um propósito, um objetivo e uma meta a cumprir”, define Ângelo Compota.
“Não é um trabalho diário, coisa que elas próprias também não querem. A ideia é que seja ao ritmo delas, mas que não seja um trabalho das nove às cinco”, refere Susana.
Começaram à volta da retrosaria e do croché, 10 anos passados, a restauração e, na forja, um novo projeto a envolver os mesmos protagonistas: as avós.
“Estamos a pensar numa agência de modelos. 60+”, deixam escapar, em uníssono, os cofundadores da Fermenta, Susana e Ângelo, duas almas que se complementam, casadas com este trabalho.
“Damos passos pequenos e sólidos. Uma coisa de cada vez”, sempre ligado ao envelhecimento”, conclui Susana António. “É a nossa pedra basilar”, remata.
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