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A automedicação, comum no quotidiano de muitos cidadãos, pode ser tanto um sinal de autonomia e literacia em saúde como um reflexo das dificuldades no acesso a cuidados médicos. Foi esta dúvida, entre a escolha informada e a resposta forçada, que levou ao tema dos mais recentes Relatórios de Saúde da Cátedra BPI | Fundação ”la Caixa” de Economia da Saúde.

Garantir o acesso a cuidados de saúde é uma das funções essenciais de um sistema de saúde. Mas hoje, que realidade encontram os utentes?

As dificuldades financeiras levam os portugueses a abdicar de medicamentos prescritos?

"Se há prescrição de medicamentos, tem que haver necessidade", começa por dizer Pedro Pita Barros, investigador da Nova SBE. "Se os medicamentos não são adquiridos por custos financeiros, isto significa que a cobertura do Serviço Nacional de Saúde não está a cumprir o seu papel de proteção".

Para encontrar soluções para esta questão, Pedro Pita Barros propõe analisar quem são os grupos mais afetados. Apesar de os idosos terem mais medicamentos prescritos, o estudo mostra que não há uma diferença substancial entre grupos etários.

Já as diferenças de rendimentos e condições de vida são o fator que mais pesa, e tem vindo a agravar-se. O estudo Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais e Acesso a Cuidados de Saúde 2025, desenvolvidos no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social numa parceria entre a Fundação ”la Caixa”, o BPI e a Nova SBE, mostra ainda que, desde a pandemia, a situação piorou, tornando o acesso aos medicamentos mais difícil para muitas pessoas.

O custo dos medicamentos é a principal despesa associada a uma consulta médica, com um valor médio próximo dos 30 euros por episódio, considerando o custo direto total.

Ligar para a linha SNS24 antes de ir à urgência. Quais foram os resultados?

O programa “Ligue Antes, Salve Vidas”, implementado em 2023, parece ter tido impacto na utilização dos serviços de urgência. Comparado com o ano em que o programa foi criado, registou-se uma redução de cerca de 10% nas idas a urgências de hospitais públicos, enquanto as urgências privadas se mantiveram iguais.

Paralelamente, aumentaram as consultas em centros de saúde primários e em consultórios privados, cerca de 4%. A maioria dos cidadãos que participou no inquérito acredita que o programa conseguiu reduzir as idas desnecessárias às urgências, embora ainda se questione se a diminuição se deve à linha SNS24 ou à desmotivação provocada pelo caos registado nos serviços de urgência.

A falta de médicos de família empurra as pessoas para o privado?

O recurso ao médico de família no setor privado tem vindo a crescer ligeiramente, de 13,3% em 2023 para 14,8% em 2025. Contudo, a maioria dos utentes que recorre ao privado — 10 em cada 15 pessoas — também possui médico de família no setor público, mostrando que a falta de médicos de família não é o único motivo para a escolha privada. A decisão depende sobretudo da capacidade financeira, que permite contratar seguros de saúde e facilita o acesso a consultas privadas.

Confiam os portugueses na automedicação?

A automedicação trata-se do momento uma pessoa escolhe usar medicamentos para tratar sintomas ou doenças que a própria identifica, incluindo remédios com ou sem receita.

Segundo a investigadora da Nova SBE Carolina Santos, a maioria das pessoas encara a automedicação com cautela, considerando-a adequada apenas para problemas menos graves e reconhecendo os riscos envolvidos. Ainda assim, 51,85% dos inquiridos já se automedicaram em algum momento.

Entre os principais fatores que influenciam esta prática estão a situação profissional e o acesso a cuidados de saúde: pessoas sem médico de família no SNS tendem a automedicar-se mais, muitas vezes usando-a como substituto de consultas. Doentes crónicos e mulheres apresentam maiores taxas de automedicação, enquanto a escolaridade e a capacidade financeira parecem não ter impacto significativo. Quanto à origem dos medicamentos, a maioria recorre às farmácias para obter os produtos utilizados.

Quão eficaz é a automedicação?

A automedicação apresenta um elevado sucesso autoreportado neste estudo, com 68,85% das pessoas a considerarem eficaz o tratamento que fizeram. No entanto, aqueles que confiam excessivamente na prática têm menor probabilidade de obter bons resultados.

Apesar da frequência do recurso a medicamentos sem orientação, 63,08% dos inquiridos não comunicam essas práticas ao seu médico de família. Entre os problemas de saúde mais comuns associados à automedicação destacam-se ansiedade, depressão, doença renal e artrose.

O 24notícias questionou os investigadores sobre quais os medicamentos mais frequentemente utilizados na automedicação e aqueles que apresentam maior risco para a segurança dos utentes. No entanto, esses dados não estavam disponíveis no estudo. Ainda assim, os investigadores consideraram pertinente incluir esta informação no próximo relatório. Um médico presente acrescentou que estes dados existem, mas lamentavelmente não são de acesso público.

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