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Comentários sobre o corpo, toques indesejados, convites insistentes e mensagens enviadas fora do contexto das aulas. Quatro mulheres relatam ao 24notícias terem sido alvo de assédio sexual enquanto tiravam a carta de condução em diferentes escolas do país. Apesar de algumas terem denunciado as situações, dizem que encontraram descrença, falta de mecanismos de resposta e medo de represálias. Especialistas alertam que a relação de dependência entre aluno e instrutor torna estas vítimas particularmente vulneráveis.
Ana, 22 anos, de Braga, conta que os episódios começaram durante as aulas práticas. "No início eram comentários sobre o meu corpo, piadas que me deixavam desconfortável. Depois passou a tocar-me no braço e na perna, sempre com a desculpa de corrigir a posição", relata. Segundo a jovem, o instrutor chegou a sugerir que poderiam "treinar fora de horas" para acelerar o processo de aprendizagem. "Fiquei paralisada. Sabia que precisava daquelas aulas para acabar a carta. Quando falei com a escola, disseram-me que era a minha palavra contra a dele", revelou ao 24notícias.
Situação semelhante viveu Beatriz, 31 anos, de Torres Vedras, que afirma ter sido alvo de mensagens insistentes enviadas por um responsável da escola depois das aulas. "Começou por dizer que eu conduzia bem e que tinha ‘perfil’. Depois passaram a ser convites para café, elogios constantes e mensagens à noite", descreve. Beatriz apresentou queixa junto da direção da escola e ponderou recorrer às autoridades, mas acabou por desistir. "Disseram-me que, sem provas claras, dificilmente avançaria. Apaguei as mensagens durante uma crise de ansiedade. Hoje arrependo-me, mas na altura só queria que aquilo acabasse", disse.
Ambas as jovens dizem ter tido a perceção de que o sistema não está preparado para lidar com este tipo de situações, sobretudo quando não existem testemunhas diretas ou registos formais. "Fiquei com a sensação de que denunciar só me ia trazer mais problemas", afirma Ana. Beatriz acrescenta que o medo de represálias, nomeadamente atrasos deliberados na marcação de exames contribuiu para o silêncio. "A carta de condução tornou-se um peso emocional enorme", acrescentou.
"Perguntava se tinha namorado, dizia que eu merecia um homem mais velho e chegou a insinuar que podia oferecer-me aulas extra sem cobrar. Nunca aceitei, mas passei a ir para as aulas cheia de ansiedade"Carolina
Já Carolina, 26 anos, de Setúbal, passou por situação semelhante e diz que começou a sentir-se desconfortável logo nas primeiras aulas de condução. "Fazia comentários sobre a minha roupa e dizia que eu era demasiado bonita para estar nervosa ao volante. Eu ria por vergonha, mas sentia-me cada vez mais intimidada", recorda. Com o passar das semanas, afirma que o instrutor começou a prolongar o tempo das aulas, estacionando o carro para conversar sobre a sua vida pessoal.
"Perguntava se tinha namorado, dizia que eu merecia um homem mais velho e chegou a insinuar que podia oferecer-me aulas extra sem cobrar. Nunca aceitei, mas passei a ir para as aulas cheia de ansiedade", diz, contando que terminou a carta de condução com outro instrutor, mas nunca apresentou queixa: "Só queria acabar aquilo e nunca mais voltar".
Também Inês, 19 anos, de Coimbra, descreve um ambiente que rapidamente deixou de ser apenas de aprendizagem. Segundo conta ao 24notícias, o instrutor fazia constantes elogios à sua aparência e aproveitava os momentos em que o carro estava parado para se aproximar fisicamente.
"Dizia que precisava de me mostrar a posição correta das mãos, mas ficava demasiado perto de mim. Sentia-me completamente desconfortável", diz a jovem, afirmando que chegou a pedir à escola para mudar de instrutor, sem explicar os motivos. "Inventei que os horários não eram compatíveis porque tinha medo que ninguém acreditasse em mim. Felizmente aceitaram a mudança, mas nunca tive coragem de contar o verdadeiro motivo", disse.
Especialistas sublinham que este tipo de contexto reúne vários fatores de risco. Em declarações ao 24notícias, a psicóloga Marcela Matos explica que o assédio sexual em contextos de dependência e assimetria de poder, como nas escolas de condução, tende a ter impactos psicológicos particularmente significativos. "A vítima encontra-se numa posição de vulnerabilidade, muitas vezes dependente da outra pessoa para atingir um objetivo importante, o que intensifica sentimentos de impotência e encurralamento", refere.
"Disseram-me que, sem provas claras, dificilmente avançaria. Apaguei as mensagens durante uma crise de ansiedade. Hoje arrependo-me, mas na altura só queria que aquilo acabasse"Beatriz
Segundo Marcela Matos, são frequentes experiências de vergonha, medo e auto-culpabilização. "A vergonha desempenha um papel central, a pessoa pode sentir-se exposta, diminuída ou ‘defeituosa’, mesmo quando objetivamente não teve qualquer responsabilidade na situação", diz. Quando a vítima antecipa que não será acreditada, acrescenta, "o sistema de ameaça é ainda mais ativado, reforçando sentimentos de isolamento, desproteção e desvalorização".
Ao longo do tempo, estes episódios podem contribuir para sintomas de ansiedade, depressão, hipervigilância, dificuldades na confiança interpessoal e, em alguns casos, sintomatologia traumática. "A perceção de injustiça e de falta de validação social agrava significativamente o impacto psicológico", sublinha.
O silêncio das vítimas é, muitas vezes, interpretado como falta de gravidade ou de credibilidade, mas a psicóloga alerta para uma leitura mais informada do fenómeno. "Do ponto de vista psicológico, o silêncio é altamente compreensível. O medo de não ser acreditada, aliado à vergonha e à auto-culpabilização, ativa sistemas de defesa profundamente enraizados", explica. A vergonha, acrescenta, "promove estratégias de ocultação e retraimento", levando a vítima a evitar falar sobre a experiência para não se expor a mais julgamento ou rejeição.
Este silêncio tem custos elevados. "Quando a experiência não é nomeada nem validada, tende a ser internalizada, contribuindo para um aumento do auto-criticismo, sentimentos de inadequação e sofrimento emocional persistente", afirma Marcela Matos, salientando que a ausência de reconhecimento externo dificulta a integração da experiência e mantém a pessoa num estado prolongado de alerta.
"No início eram comentários sobre o meu corpo, piadas que me deixavam desconfortável. Depois passou a tocar-me no braço e na perna, sempre com a desculpa de corrigir a posição"Ana
Mesmo quando não existem provas formais, há sinais emocionais e comportamentais que podem indicar que alguém foi alvo de assédio. Entre eles estão mudanças de comportamento, evitamento de determinados contextos, aumento da ansiedade ou irritabilidade, alterações do sono, sentimentos de vergonha ou desconforto corporal e maior tendência para o isolamento. "Pode também surgir uma relação mais crítica consigo própria e dificuldades em confiar nos outros", acrescenta.
Nestes casos, o apoio psicológico é considerado essencial. "Deve assentar numa abordagem validante, segura e não julgadora, ajudando a pessoa a compreender que a responsabilidade pelo assédio nunca é da vítima", defende a psicóloga. Paralelamente, sublinha a importância de mecanismos institucionais acessíveis, confidenciais e sensíveis ao trauma. "A validação da experiência da vítima, mesmo sem provas formais, pode ser decisiva para mitigar o impacto psicológico e promover a recuperação", diz.
"A vítima encontra-se numa posição de vulnerabilidade, muitas vezes dependente da outra pessoa para atingir um objetivo importante, o que intensifica sentimentos de impotência e encurralamento"Marcela Matos, psicóloga
Para Ana e Beatriz, falar agora é também uma forma de alerta. "Se eu tivesse ouvido outras histórias antes, talvez tivesse percebido que não estava sozinha", diz Ana. Beatriz concorda: "O problema é que continuamos a aprender a conduzir num ambiente onde o silêncio ainda parece ser a regra".
Direitos e procedimentos legais
O advogado Ricardo Nunes, especialista em direito laboral e proteção de vítimas de assédio, explica como os alunos podem reagir legalmente a situações de assédio em escolas de condução e quais os cuidados essenciais para garantir proteção e prova em casos de abuso.
"O primeiro passo é que a vítima documente tudo o que acontece. Qualquer mensagem, email ou nota escrita sobre situações de assédio pode ser determinante caso haja necessidade de prova futura. Mesmo detalhes que parecem pequenos ajudam a construir o contexto de abuso", afirma Ricardo Nunes.
Segundo o advogado, "as escolas de condução têm o dever legal de criar canais de denúncia seguros e confidenciais. Se um aluno sente que não pode denunciar internamente sem retaliação, a lei protege a possibilidade de recorrer diretamente às autoridades competentes, como a polícia ou o Ministério Público".
Nunes alerta ainda que "o silêncio da vítima é compreensível, mas não deve ser confundido com consentimento. Muitos alunos têm medo de represálias ou de não serem acreditados, e é aqui que o apoio psicológico e legal se torna crucial para quebrar o ciclo de medo e isolamento".
"O ideal é que instituições formem os instrutores e criem regulamentos claros, com penalizações definidas para casos de assédio. Mas, enquanto esses protocolos não existirem ou não forem eficazes, é importante que as vítimas conheçam os seus direitos e saibam que podem exigir responsabilização judicial e proteção contra retaliações", conclui.
O 24notícias entrou em contacto com as escolas de condução que as quatro mulheres frequentaram, em Braga, Coimbra, Torres Vedras e Setúbal, mas nenhuma quis comentar esta situação.
O 24notícias contactou o IMT e o Ministério Público que até à data de publicação deste artigo não responderam às questões.
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