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A conclusão é do projeto “Ruas de Abril”, desenvolvido em 2019 pelo Museu Nacional da Imprensa, que mapeou a forma como o país reescreveu o espaço público após o fim da ditadura.
“A latitude da toponímica abrilista mostra, claramente, que as figuras e os ideais da Revolução dos Cravos se espalharam, quase osmoticamente pelo país”, explica, ao 24notícias, Luiz Humberto Marcos, fundador do Museu Nacional da Imprensa e responsável pelo projeto. “Ou seja, o país, através dos seus representantes autárquicos, assumiu o 25 de abril como sendo verdadeiramente seu e não apenas dos revolucionários que derrubaram a ditadura carunchosa”.
Um país rebatizado
Logo após a queda do Estado Novo, em 1974, ruas, avenidas e praças começaram a mudar de nome. Em muitos casos, tratou-se de eliminar referências diretas ao regime. O exemplo mais emblemático é a antiga Ponte Salazar, hoje Ponte 25 de Abril. Também em Lisboa, a Praça do Ultramar deu lugar à Praça das Novas Nações, refletindo o fim do império colonial.
“Mais do que apagar essas referências, o objetivo foi relevar os valores trazidos pela liberdade, com designações e figuras nobres”, sublinha Luiz Humberto Marcos.
Os novos nomes seguiram padrões claros: mais de 1600 referências diretas ao 25 de Abril, ao Movimento das Forças Armadas ou aos Capitães de Abril, e cerca de 1050 alusões ao 1.º de Maio. A par destas, multiplicaram-se as homenagens a figuras centrais da revolução e da resistência antifascista.
Entre elas, destaca-se Salgueiro Maia, o militar com maior presença na toponímia nacional. Mas também nomes como Humberto Delgado, que mesmo antes da revolução, simbolizava a oposição ao regime, ou escritores e ativistas perseguidos pela ditadura passaram a ocupar o espaço público.
Decisões locais, impulso coletivo
Apesar do caráter simbólico destas mudanças, o processo foi, sobretudo, local. “Tanto quanto sei, tudo passou por decisões tomadas nos órgãos autárquicos. Esse poder é deles, em termos formais, mesmo que a ação popular tenha motivado algumas das opções”, explica o responsável pelo projeto.
Em alguns casos, as propostas nasceram diretamente da população. No Porto, por exemplo, a antiga Praça do Município passou a Praça General Humberto Delgado, numa mudança que terá tido origem em sugestões vindas da rua.
Nem todas as decisões foram consensuais. “Houve situações de resistência, mas não de conflito significativo”, refere Luiz Humberto Marcos, sublinhando que as dinâmicas variaram de concelho para concelho.
Um mapa desigual, mas quase total
Hoje, as chamadas “ruas de Abril” cobrem quase todo o território nacional. Mas, não de forma homogénea. Apenas 21 concelhos não têm qualquer referência à revolução, a maioria na região Centro. Ao mesmo tempo, há zonas onde a presença é muito mais expressiva. Os distritos de Lisboa, Setúbal e Porto concentram o maior número de designações, enquanto outros, como Bragança ou Guarda, apresentam valores mais reduzidos.
Também fora dos grandes centros urbanos há casos relevantes. Concelhos como Vila da Feira ou Vila Nova de Cerveira destacam-se pelo número de ruas associadas ao 25 de Abril. Ainda assim, o mapa revela diferenças claras entre litoral e interior: não apenas na quantidade, mas também na forma como estas mudanças aconteceram.
“As transformações precisam de boas sementeiras e terra bem lavrada, contra a opressão e a subserviência. O interior ainda hoje aspira a mudanças legítimas, em termos de necessidades relativas à qualidade de vida, ao saneamento, à educação, à cultura, etc.”, explica Luiz Humberto Marcos.
Para o responsável pelo projeto, a toponímia não é apenas um reflexo do passado, mas também das condições sociais e da capacidade de mobilização das populações. “As reivindicações exigem capacidade de conhecimento e de mobilização. Se não, o marasmo impõe-se e ganha raízes”.
“A toponímia também ajuda a conhecer melhor a vontade de transformação das pessoas, da sociedade”, resume.
A memória que fica nas placas
Mais de 50 anos depois, o significado destas ruas mantém-se? A resposta não é linear mas, a leitura de Luiz Humberto Marcos aponta para uma permanência que vai além do simbólico.
Para o responsável pelo projeto, a toponímia não é apenas uma marca administrativa ou geográfica. É uma forma de memória coletiva, profundamente enraizada no espaço. E, acrescenta que os valores associados ao 25 de Abril continuam presentes na sociedade portuguesa, refletidos em indicadores como a educação, a saúde ou as condições de vida.
“É uma marca indelével. Que se estende para além dos lugares, das regiões, e que penetra no espaço global, através de mapas reais e virtuais”, afirma. “A toponímia torna-se uma espécie de malha fina que acompanha a cartografia urbana e constrói uma metalinguagem sobre os povos”.
Essa “metalinguagem” conta, neste caso, a forma como o país apropriou a revolução: não como um episódio distante, mas como parte integrante da sua identidade.
“Sobre a forma como o povo português aderiu e fez seu o golpe arriscado dos Capitães de Abril”, continua. “Esta ousadia dos capitães podia ter fracassado e eles serem todos presos. A Censura ainda atuou na manhã do 25 de abril, cortando as notícias sobre o golpe. Os censores certamente pensavam que o golpe fracassaria, como noutras ocasiões”.
É precisamente por isso que o mapa das “Ruas de Abril” ganha um significado mais amplo.
“Neste contexto, o que a toponímia mostra é uma vitória da liberdade sobre um regime colonial e de opressão que pretendia continuar. As ruas de abril ativam a memória coletiva”.
Um retrato do país
Olhando para o conjunto, o mapa desenhado pelo projeto “Ruas de Abril” não é apenas um levantamento toponímico. É também um retrato do país e da forma como este lidou com o seu passado recente.
“Em termos gerais, podemos dizer que é um retrato feliz de um país que acredita nos grandes valores da humanidade”, considera Luiz Humberto Marcos.
Mais do que isso, sugere uma ideia de continuidade entre o momento revolucionário e o presente.
“Creio que se pode dizer, com pertinência, que o 25 de Abril faz parte da pele de Portugal. Os eczemas não chegarão para deslustrar essa pele de Abril. É uma pele que respira liberdade, o bem essencial desta data memorável”.
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