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As marionetas vão voltar a invadir Lisboa. Entre 7 e 31 de maio, a capital recebe a 26.ª edição do FIMFA Lx - Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas.

"É um grande orgulho termos conseguido até agora, durante 26 anos, continuar a manter o festival, apesar de todos os contextos que temos vindo a atravessar. O festival resistiu e cá está, é mais um ano em que Lisboa se transforma nesta grande plataforma internacional para o teatro de marionetas, onde vamos apresentar 23 companhias de 12 países diferentes. São mais de 100 representações e, na sua maior parte, em estreias", explica Luís Vieira, da direção artística do FIMFA Lx, ao 24notícias.

"Temos 17 estreias nacionais e uma antestreia. Está tudo preparado. Vamos começar com um grande espetáculo no São Luiz que,  durante este mês de maio, é praticamente a casa das marionetas. Começamos com uma companhia sediada em Oslo e em Nova Iorque. São artistas americanos e noruegueses que constituem o coletivo Wakka Wakka, que nós já há alguns tempos gostaríamos de ter trazido, mas só agora foi possível", desvenda.

"É um conjunto de 14 pessoas e, portanto, estão muitos cursos envolvidos e muitas parcerias internacionais para tornar isto possível. Vão apresentar a sua última produção, a sua última criação, Dead as a Dodo, que é um espetáculo absolutamente fascinante e absolutamente mágico, que mistura marionetas extraordinárias, algumas de tamanho humano, outras gigantes, e tudo num universo um bocadinho de banda desenhada, que muitas vezes nos remete para o Tim Burton. É um musical com marionetas, que foi classificado o ano passado pelo New York Times como um dos melhores espetáculos do ano 2025 em Nova Iorque", acrescenta.

Logo nos primeiros dias, Luís Vieira destaca também a presença do francês Johanny Bert, que apresenta Cabaret Love, com um "marioneta queer e punk que ultrapassa de facto as fronteiras do género, faz voar todas as algemas, e como ele diz, vai encher-nos de love, que é o que toda a gente precisa neste momento. Atravessar esta escuridão sem um pouco de esperança, sem um pouco de tolerância e de empatia, vai ser muito difícil, e portanto as artes estão aqui para ajudar também as pessoas a ultrapassarem estes momentos mais complicados".

Um festival "dos 4 ao 104" e para olhar o mundo

Marionetas não são só marionetas. "Há um lado desconcertante, este lado em expansão constante em que as pessoas se surpreendem por coisas que não estão à espera de encontrar, e que de facto não encontram na sua vida normal, só dentro de um teatro. É esta magia, este entrar num outro portal e desafiar o espanto que cativa este público, que é um público também em si próprio muito variado", nota Luís Vieira.

"Nós dizemos que o festival é dos 8 ao 108, ou dos 4 ao 104. Na verdade, são já várias gerações que têm vindo ao FIMFA ao longo destes 26 anos: os pais trazem os filhos, e a seguir os avós trazem os netos, e portanto isto é uma bola de neve, e de públicos muito variados", frisa.

Ao festival chegam também "muitos curiosos sobre estas artes da marioneta, porque são várias artes de que estamos a falar", avança. "Não estamos a falar só das marionetas naquele conceito antropomórfico, do boneco, mas de uma forma de um universo bastante mais expandido em que várias artes contribuem de facto para a criação dos espetáculos. Há cada vez mais artistas plásticos e mais videoastas, cineastas, mais bailarinos envolvidos na criação destes objetos artísticos, destes objetos performativos, e vamos ter de facto muita magia e muito novo circo neste FIMFA".

Segundo Luís Vieira, "as propostas são imensas, são três semanas exaustivas de programação, desde adaptação de clássicos, teatro visual, teatro de objetos, há um pouco de tudo".

"Há espetáculos que estão pela primeira vez em Portugal, na sua maior parte. É uma oportunidade única de o público se poder confrontar com estes artistas e com estas suas novas criações. Estou-me a lembrar, por exemplo, de um espetáculo feito, por exemplo, com 681 ratoeiras, em que ele constrói uma autêntica cidade pela qual se deambula", exemplifica.

O mundo atual também salta para os espetáculos. "Vamos ter projetos, um de uma companhia checa e outro de uma companhia da Eslovénia, que falam de momentos absolutamente marcantes, relacionados com os tempos que vivemos agora. Um aborda um dos grandes desastres ecológicos que houve na explosão de uma plataforma de petróleo e o outro fala-nos de uma história absolutamente dramática, que tem a ver também com as alterações climáticas e com as cheias que destroem muitas vezes vilas e cidades, como aconteceu agora em Leiria".

"A vida das pessoas vê-se confrontada com estes fenómenos naturais e com esta violência e esta afirmação da natureza, este grito da natureza. E vemos estas marionetas hiperrealistas e miniaturizadas, tudo construído por eles, vemos o campo, temos a tempestade, em áudio ouvimos o relato de uma família que conta ter ficado sem casa, perdido tudo — e isto faz-nos, de facto, recentrar-nos sobre o nosso mundo e pensar um pouco em tudo o que está a acontecer à nossa volta", reflete.

Afinal, "os artistas não vivem isolados da realidade e, portanto, refletem nos seus trabalhos as preocupações que todos nós também temos".

Uma arte em evolução

Em Portugal, esta arte da marioneta tem evoluído. "Há 20 anos havia muito menos companhias e muito menos oferta de trabalho de companhias portuguesas do que há hoje e também com uma qualidade diferente", nota Luís Vieira.

Prova disso são os inúmeros espetáculos com assinatura portuguesa no FIMFA, como é o caso de Crankies de Fazer Chorar as Pedras da Calçada, de A Tarumba - Teatro de Marionetas, ou Hamlet Sou Eu, do Teatro Praga, em que "a história é contada e recontada, primeiro pelos atores, depois pelos objetos e a seguir pelos meninos que estão a assistir ao espetáculo e que participam".

A complementar com estes espectáculos, de notar que Lisboa é habitualmente palco destes bonecos, através do Museu da Marioneta, o primeiro dedicado "à sua história, às suas técnicas e à divulgação do teatro de marionetas, com especial enfoque na marioneta em território nacional".

"Aberto a todos os públicos, o Museu partilha o conhecimento sobre a arte da marioneta através da exposição de longa duração e de uma forte ligação com marionetistas e criadores, promovendo tanto as formas tradicionais como as abordagens contemporâneas e inovadoras desta arte performativa", é referido.

Quanto ao FIMFA deste ano, Luís Vieira deixa o convite: "As pessoas devem vir. Deixem-se espantar e venham ver, venham 'FIMFAr' connosco. Vir ao FIMFA é descobrir coisas novas, propostas artísticas novas, artistas que estão em permanente a desenvolver trabalhos, em permanente escuta e investigação sobre as matérias que trabalham. No fundo é dar vida ao inanimado e é sempre surpreendente vir assistir a alguns destes espetáculos", remata.

Que espetáculos ver?

A programação da 26.ª edição do FIMFA Lx - Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas está disponível online, assim como as informações sobre a bilheteira do evento.

Há peças para todos os gostos e carteiras, com valores que não ultrapassam os 14€ por bilhete.

Estes são alguns exemplos do programa:

A programação do FIMFA Lx26 inicia-se no São Luiz Teatro Municipal, com Dead as a Dodo, um espetáculo da reputada companhia norueguesa e nova-iorquina Wakka Wakka, que se apresenta pela primeira vez em Portugal. Misturando marionetas de tamanho humano e gigantes, humor negro e efeitos visuais surpreendentemente inovadores, o espetáculo promete levar o público por uma odisseia musical hipnotizante sobre a sobrevivência, a transformação e o poder da amizade.

Ainda no São Luiz, será possível assistir a mais oito espetáculos do Festival. O francês Johanny Bert apresenta Cabaret Love, que dá palco a uma marioneta queer e punk, que ultrapassa as fronteiras de género; e ainda uma nova versão de HEN, espetáculo que leva a palco uma marioneta hiper-realista, para nos falar de amor. A companhia espanhola La Mula traz Thauma, espetáculo premiado, que apela ao humor, à beleza, ao mistério e ao inesperado, e que tem sido considerado a grande revelação no universo do teatro visual.

O grupo francês Stereoptik regressa a Portugal com Dark Circus, um circo insólito e sombrio, na fronteira entre as artes visuais, as marionetas e o vídeo, para ver em família, enquanto o artista belga Berg Berg apresenta A Sensitive Case, um espetáculo de manipulação e novo circo, onde mais de 500 ratoeiras moldam uma cidade repleta de torres, ruas e edifícios. A companhia eslovena Ljubljana Puppet Theatre apresenta Departure, peça que cruza a experiência real de uma família que perdeu a sua casa nas cheias de 2023, na Eslovénia, com uma dimensão ficcional.

Por sua vez, no contexto dos 30 anos da morte de Heiner Müller, as companhias portuguesas Teatro de Ferro e Alma d’Arame criaram Vidro Pantera, um espetáculo-visita-guerra-relâmpago ao universo do dramaturgo alemão.

Também no São Luiz, será apresentado Tipping Point, da companhia checa Alfa Theatre, uma peça de teatro de objetos documental e marionetas hiper-realistas em miniatura, subordinada ao tema das consequências do tráfego mundial e da globalização.

No Teatro Variedades, será possível assistir a Loco, da Compagnie Tchaïka, da Bélgica, inspirado em O Diário de um Louco, de Nikolai Gogol, um conto absurdo e surrealista sobre a fronteira incerta entre a loucura e a razão. Para dar vida a este universo, duas marionetistas interpretam e manipulam Popríchin, num bailado surrealista.

O Teatro do Bairro recebe dois espetáculos de teatro de objetos: a companhia belga Karyatides volta a trazer a Lisboa um clássico da literatura, desta vez, Crime e Castigo, de Dostoiévski, levado à cena através de figuras de madeira, gesso, resina, bonecos de tecido e objetos variados, numa produção d'A Tarumba, em coprodução com o Teatro Nacional D. Maria II. A companhia La Loquace, proveniente de França e Espanha, apresenta Viva!, uma criação de teatro de objetos, recheada de precisão e invenção cénica, inspirada na história verdadeira de um dos intérpretes, passada durante a Guerra Civil Espanhola.

No Centro Cultural de Belém, o FIMFA Lx26 apresenta uma das grandes apostas da edição deste ano: Éclipse, do francês Léo Rousselet - um circo de objetos singular, com humor e um toque de magia, que explora as relações entre a manipulação de objetos, o malabarismo, a nova magia e a água. Nos Jardins do Bombarda, Fernando Mota apresenta, em antestreia, Até ao Fim do Mundo, um projeto que cruza a geologia com a exploração musical e sonora dos elementos naturais, a literatura e o vídeo.

O FIMFA Lx26 apresenta também uma programação dirigida aos mais novos e a famílias. No LU.CA - Teatro Luís de Camões, serão apresentados: Milo, o Magnífico, uma criação de Alex & Olmsted, dos Estados Unidos da América. Um aprendiz de mágico que apresenta diversos truques de magia com origem nas suas experiências científicas, num espetáculo cheio de humor, com impressionantes técnicas de manipulação.

Do Reino Unido, chega o grupo Hopeful Monster, com Monstros Esperançosos, um espetáculo sobre a história da evolução, contada através das mãos humanas, que se transformam e movem, criando criaturas surpreendentes. Por fim, a Compagnie Lamento, de França, apresenta Imóvel & Saltitante #2, uma criação singular que leva o público numa viagem criativa pelos altos e baixos da imaginação, combinando desenho, novo circo, dança e formas animadas.

No Museu de Lisboa - Palácio Pimenta estão também a ser preparados dois dias para toda a família, com o minigolfe mais original do mundo. El Minigolf, dos espanhóis Mumusic Circus, é uma instalação de engenharia artesanal, construída em madeira, cheia de mecanismos, surpresas e curiosidades que prometem não deixar ninguém indiferente.

No Teatro Romano, a companhia portuguesa Radar 360º apresenta Uma Pequena CircOOnferência, performance dedicada aos mais pequenos, que flutua entre o rigor histórico da História do Circo Europeu e a dimensão onírica de um historiador que aspira ser um artista de circo. Por fim, na Biblioteca de Marvila, a companhia portuguesa Partículas Elementares apresenta, para o público escolar, Ninho, inspirado no poema Sei de um ninho, de Miguel Torga.

Além das peças, durante o FIMFA Lx decorrerão ainda um conjunto de atividades complementares, como exibição de filmes, masterclasses, conferências e encontros com os criadores.

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