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Entre o final de janeiro e meados de fevereiro, Portugal foi atingido por uma série de depressões que se traduziram em ventos fortes e cheias.

As regiões mais afetadas incluíram cidades como Leiria e Coimbra, onde o dique do rio Mondego chegou a ceder, provocando o colapso de um troço da A1.

A sucessão destes dias chuvosos pode dar a sensação de que o problema da seca ficou para trás, mas essa conclusão pode ser precipitada. O climatologista e investigador, Carlos da Câmara, ouvido pelo 24notícias sublinha que “a noção de seca é mais complexa do que parece” e depende de vários fatores, não apenas da quantidade de precipitação.

Desde logo, é necessário distinguir diferentes tipos de seca. A primeira a manifestar-se é a seca agrícola (ou agrometeorológica), que corresponde à falta de água no solo disponível para as plantas. Este fenómeno reage rapidamente à ausência de chuva e tem impacto direto na vegetação e na produção agrícola.

Mesmo após períodos de precipitação intensa, esta seca pode surgir mais tarde. “O facto de ter chovido muito agora não quer dizer que não possa vir a haver seca agrícola”, explica o especialista, acrescentando que a temperatura e a evapotranspiração - a perda de água do solo e das plantas para a atmosfera - são determinantes.

Outro aspeto essencial é a forma como a chuva ocorre. Precipitação fraca e persistente, denominada "molha-parvos", infiltra-se melhor no solo e mantém a humidade necessária às culturas. Já aguaceiros intensos, cada vez mais frequentes, podem resultar numa escorrência superficial. “Numa chuvada muito intensa, uma boa parte da água escorre e não entra sequer no solo”, alerta.

Esta dinâmica tem ainda consequências ao nível do risco de incêndio rural. A chuva favorece o crescimento de vegetação que, se posteriormente sujeita a calor e falta de precipitação, seca e transforma-se em “combustível fino” - ervas, caruma e matéria vegetal que ardem com facilidade e geram os incêndios rurais.

Num plano diferente está a seca hidrológica, que ocorre quando começa a faltar água nas barragens e aquíferos. Este processo é mais lento. Atualmente, as reservas de água encontram-se em níveis confortáveis, o que reduz o risco imediato, mas pode criar uma falsa sensação de segurança. “Agora que temos água, deixa-se de pensar na seca. Só voltamos a pensar quando ela regressa”, observa.

Portugal caracteriza-se, aliás, por uma forte variabilidade interanual da precipitação, típica dos climas mediterrânicos. Situado numa zona de transição entre regiões áridas e temperadas, o país alterna naturalmente entre anos mais secos e anos mais chuvosos. “Não é defeito, é feitio do nosso clima”, resume o climatologista.

Contudo, as alterações climáticas estão a intensificar este padrão. O aumento da energia na atmosfera torna o ciclo da água mais extremo, potenciando episódios de chuva intensa e localizada, seguidos de períodos secos mais longos. O resultado é um contraste crescente entre cheias e escassez.

Perante este cenário, a gestão da água assume um papel central. As barragens funcionam como “caudais de futuro”, armazenando água em períodos húmidos para utilização em fases de menor disponibilidade e ajudando também a regular cheias. A ausência dessa capacidade de regulação, como se observa em algumas bacias hidrográficas, agrava tanto o risco de inundação como a vulnerabilidade à seca.

"Em Alcácer do sal, as pessoas andavam com água pelo pescoço. Porquê? Porque o Rio Sado não tem barragens com capacidade de regularizar o caudal. No Tejo, sim, houve inundações, e no Mondego houve inundações, no Porto, no Douro houve inundações, mas nada que se compare".

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O especialista defende ainda que Portugal precisa de reforçar a chamada “cultura de risco”, ou seja, a consciência coletiva para fenómenos climáticos extremos que fazem parte da realidade do território e tenderão a intensificar-se.

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