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É uma manhã de domingo como uma qualquer outra manhã de domingo. As ondas da praia de Carcavelos, em Cascais, arrastam para a linha de água uma vasta e heterogénea comunidade de surfistas. Dos avançados aos iniciados, novos e velhos e uma classe especial. O surf adaptado.
O relógio aponta as 9h30. O sol nasceu à esquerda de quem olha para o mar. Ilumina o extenso areal e o forte de São Julião da Barra. No imenso paredão que liga a fortificação marítima à curva da Parede assiste-se à azáfama do trânsito de pranchas e desfile de fatos de neoprene. Cheira a wax (cera usada nas pranchas). Está um dia bom para o surf. Meio-metrinho no horizonte.
Junto ao antigo “Narciso”, restaurante que testemunhou os primeiros passos do surf em Portugal, nos anos 70 do século XX, colados à sede da Federação Portuguesa de Surf, instrutores, pais e voluntários dão a mão a quem mais necessita de ajuda. Há dois grupos. A mesma missão.
Um, mais alargado, SURFaddict, de licra amarela, representa a Associação Portuguesa de Surf Adaptado, projeto criado em 2012. Liderado por Teresa Abraços, pioneira do surf feminino em Portugal, recebeu naquele domingo de meio de abril a companhia, entre outros, de dois voluntários especiais, Vasco Ribeiro, pentacampeão nacional de surf, e Camila Kemp, surfista luso-alemã, campeã no circuito português e olímpica pela Alemanha, nos JO Paris2024.
Ao lado, a uns metros de distância, está um número mais reduzido de aspirantes a surfistas. Seis crianças autistas e um veterano, Joaquim Delgado, ou “Quim” como é carinhosamente tratado por quem ali passa. É tetraplégico.
Aos domingos de manhã, no sítio onde nasceu o surf em Portugal
Nuno Ryder, António Oliveira e Miguel Costa compõem as três quilhas que manobram este projeto de surf inclusivo, NossaOnda Surf Adaptado. Todos os domingos, vestem a licra azul e ajudam crianças autistas e com paralisia cerebral, deficiências cognitivas ou tetraplégicos.
Ryder está na génese do surf adaptado. Fez parte, ao lado de Teresa Abraços e Nuno Vitorino, do “nascimento” da SurfAddict. Em 2019, conheceu o António e o Miguel, instrutores de surf, no Centro Recreativo e Cultural da Quinta dos Lombos, afamado clube de surf de Carcavelos. Juntos, deram a mão ao surf adaptado com a Associação Salvador.
Entretanto, os caminhos separam-se. O Miguel criou uma escola de surf, NossaOnda, António continuou como gestor de talentos e produtor de conteúdos e Ryder nunca deixou a mentoria do desporto inclusivo e adaptado. Em outubro passado, o reencontro. Miguel abre o surf adaptado na escola, António entra na água e os dois chamam Nuno Ryder que aceita o desafio depois de resistir à abordagem inicial. “Não tive coragem de ficar em casa”, confessa Ryder ao 24noticias.
Os três regressaram à casa de partida. Ao paredão de Carcavelos. Ao surf adaptado. Adicionaram um novo membro, Jacinta, instrutora e mãe de um dos alunos autista. O tridente “fez com que este projeto se iniciasse”, reconhece.
“Começámos em outubro”, fixa a data. “O Miguel e o António têm uma grande vertente humana. São mesmo boas pessoas, algo raro hoje em dia. É por isso que vou à praia: pelos alunos e por eles”.
“Sabemos o impacto que tem e temos o feedback dos pais”
À frente do antigo “Narciso”, todas as semanas, os surfistas da NossaOnda Surf Adaptado cruzam-se no caminho para a água com a SurfAddit. Conferem um colorido especial à ondulação que nasce onde o Tejo entra no mar.
As crianças estão de fato vestido. Caminham para o mar de mão dada com pais e voluntários. Ao contrário de outras escolas, não há uma prancha por aluno. Há duas. Cada um irá deslizar, à vez, nas longboards azuis. Segurança assim dita. O rácio de treinadores, quatro, Nuno, Miguel, António e Jacinta, encaixa no número de alunos recebidos. Sete. Houve ainda a ajuda de um pai (do Miguel). Pais que estão sempre na fila da frente para ajudar.
O 24noticias transformou-se em instrutor por uma hora. Seguiu a regra. Passa por ajudar as crianças a vencer medos, ganhar autoestima e independência, aprender a ler o mar e a explorar as perceções e o lado sensorial, dos toques na prancha, mão na areia e a sensação da água na cara.
“Todos os domingos, às 10h, estamos aqui. Procuramos mais um ou outro instrutor, para conseguirmos expandir mais o projeto”, contou Miguel. António quer mais. “O Nuno tem um vasto conhecimento. Nós temos mais de cinco anos de experiência. Conseguimos formar mais instrutores e chegar a mais miúdos, temos cada vez mais alunos a pedirem e estamos limitados em aceitar”, lamenta.
“Neste momento, estamos com sete miúdos e aceitámos agora mais dois”, anuncia António. Ambiciona ter mais treinos ao longo da semana. “Sabemos o impacto que tem e temos o feedback dos pais”.
“Estas famílias vêm aqui em pleno inverno. E ficam aqui. Com um sorriso na cara. Não falham. Não falham. É inacreditável”, exalta Nuno Ryder. Tem água pela cintura. As ondas batem-lhe no dorso e prepara-se para saltitar entre alunos.
Joaquim, o tetraplégico que gosta de enrolar-se nas ondas
“Estamos abertos a todo o tipo de patologias”, revela Miguel. Autismo. Paralisia. Tetraplegia. Epilepsia. Naquele domingo em que o sol permaneceu meio escondido entre nuvens, estava a Clarinha, Miguel, Ricardo, Rafael, Laura e um novo aluno, o Dinis. São todos autistas.
Estava, como está sempre, Joaquim Delgado, 68 anos. O surfista tetraplégico é figura bem conhecida nas ondas de Carcavelos. Estaciona o carro quase em cima do areal. No paredão, António e Miguel acumulam a tarefa de lhe vestir fato. Joaquim é suspenso no ar. António eleva-o a um palmo da cadeira de rodas. Miguel enfia-lhe o fato de neoprene pelas pernas. Um saco de plástico nos pés facilita o processo. Escorrega como manteiga.
Já vestido, Nuno Ryder e António Oliveira transportam-no no veículo de três rodas que o levará pela areia até à água
Novamente elevado, é colocado na prancha adaptada. Miguel tem a missão de ajudar a empurrar o Joaquim numas ondas “lá fora”.
“Quim” foi ginasta de alta competição. Em 1979, na inocência dos 21 anos, sofreu uma queda e lesiona-se para a vida. “Foi a fazer um triplo mortal numa prova”, lembra ao 24noticias o antigo ginasta do Ginásio do Sul (Almada).
Há 12 anos, o surf entra no filme da sua vida, por brincadeira. O mar é paixão antiga. “Nunca tinha feito surf, mas sempre gostei do mar, mesmo após o acidente, chegava à praia, ia ao banho, sozinho, nadava, os surfistas metiam-se comigo porque não era possível andar lá dentro com o mar tão grande”, recorda.
Apareceu o surf adaptado.E o próprio Joaquim adaptou uma prancha ao seu estado. Está à vontade dentro de água. “Gosto de andar nas ondas, enrolado, lá debaixo”, solta. “Vou com o Miguel lá para fora quando o mar está grande. Digo-lhe para não se preocupar. Ele sai para um lado, eu, para outro. Encontramo-nos na areia”, detalha.
Treinou e treina apneia. É autodidata. A técnica ajuda-o quando “se faz” às ondas. “Nos dias de verão, quando ia treinar apneia, à beira de água, barriga para baixo, cheguei a fazer quase quatro minutos, as pessoas assustavam-se”, recorda, a rir.
“Aqui treina-se a parte mental com a parte respiratória. Se conseguir as duas coisas, consegue-se tudo. É o que tento transmitir à malta mais jovem”, refere.
A mão afaga a cara gasta pelo sol. Hoje, pesa-lhe a parte física. “Está a ver o tamanho desta praia”, questiona ao apontar o horizonte. “Vinha sozinho, descia a rampa, saltava da cadeira, sentado na areia, de costas para o mar, puxava as pernas e o rabo, tipo caranguejo, até chegar à água”, descreve. “Sou um tetraplégico. Não sou paraplégico”.
No passado, incomodava-o olhares de quem, na areia, espreitava de soslaio a sua condição, sem olhar à sua perseverança em arrastar-se até às ondas. Dentro de água, Joaquim esquece tudo. “Até mesmo quando a água está fria e vamos enrolados na onda é tipo uma hidroginástica. O corpo consegue relaxar, não tinha essa noção. Com a água fria, o corpo contrai, mas eu consigo relaxar completamente”, assume. “Não faço muito esforço, é só controlar a parte respiratória com a parte mental. Desde que esteja controlado, o resto não interessa”, assegura.
Retira da vida de ginasta a chave para a vivência numa cadeira de rodas. Não olha para trás, nem lamenta para a frente. “Aprendi a lidar com isso, a tirar o melhor partido disto, um dia de cada vez, a desenrascar e a ver as coisas pela positiva”, conta. Alinhado com o set, empurrado por Miguel para rasgar a onda e fugir da espuma, o sorriso não deixa dúvidas do estado de espírito.
Abrir os braços como Cristo Redentor
O 24noticias vestiu o fato de surf à medida e fez-se ao mar. Escutou os avisos de Miguel e de António. Todos têm de olhar as ondas de frente. O todos, são os alunos.
António desenha na areia a forma de seis pranchas. Uma por aluno. Deitados na areia fazem o aquecimento e ensaio do take off (levantar). Fazem-no em terra firme embora nem todos o consigam fazer em meio aquático. Interagimos com Rafael. A cada mergulho que dá, bate os pés em sinal de alegria. Deita-se em cima da prancha. Profere palavras isoladas. Sem ligação. Está feliz.
Estendemos a mão à Laura e seguimos as dicas de Nuno Ryder. Dar liberdade. Deixar que sejam as crianças a procurar ajuda e não estar sempre a amparar. Mergulhamos de mão dada com a Clarinha. O sal que lhe escorre na cara destapa momentos de rara felicidade.
Imitámos o António e empurrámos o Ricardo na prancha. Colocámos a parte do nosso corpo no tail (traseira) da prancha. Assistimos ao take off de Ricardo. À primeira, pôs-se de pé. Abriu os braços tal qual Cristo Redentor. O gesto recebeu o aplauso dos instrutores António, Miguel e de todos os pais que estavam com os pés submersos na água. Clarinha repetiu o feito. Recebeu a mesma dose de ovações.
Os surfistas, ora estão com a água até à cintura, entre mergulhos e espera de vez para subir para a prancha, ora saem e vão ter com os pais. É um vai e vem. Uns, ajoelham-se na areia molhada. Querem sentir a mistura. Outros, oferecem corpo e cara às ondas.
Os pais estão em linha na primeira linha de água. De telemóvel em riste, registam momentos. Interagem com os filhos e todos os outras crianças.
“Gosto de estar em contacto com estas crianças. Não é só com o meu filho”
Jacinta é mãe de Miguel. O filho não se põe de pé. Para já. “Houve uma altura em que ficava de joelhos”, regista. “Estamos na água para incentivá-los”, adianta. “Fazemos exercícios, movimentos repetitivos, ajudam-no a estimular para se pôr de pé e perceberem que têm de remar”, avança.
“Um dia vai conseguir, até pode não conseguir, mas é a forma que têm de perceber sobre o que fazer”, elucida. “Damos a ordem, mas só se vai pôr em pé se quiser. Partirá sempre dele”.
Jacinta está em Carcavelos por causa do Miguel. Aproveitou o tapete estendido e ajuda outras crianças. Enfermeira e especialista em Saúde Mental, veste várias camadas de um fato aos domingos. É mãe, voluntária e instrutora de surf.
É uma surfista tardia. Começou aos 40 anos. Cinco anos depois, completou o curso de treinadora e escolhe para estágio o surf adaptado.
“Pouco depois do início da pandemia conseguimos que o meu filho começasse a fazer umas aulas de surf adaptado, noutra escola”, recua Jacinta, 48 anos. “Tiveram contacto com um grupo onde estavam o Miguel e o António”. Nasce a ligação. “Para além do fator médico”, dado relevante, o “fator humano” do António e do Miguel “em cativar as crianças autistas”, inclinou-a para a Nossa Onda.
“Isto é uma missão. Como treinadora, estou disponível para ajudar, gosto de estar em contacto com estas crianças. Não é só com o meu filho, quero ajudá-lo, mas gosto de ajudar todas estas crianças, como fiz esta manhã com a nova criança (Dinis)”, frisa. “Tenho gosto de fazer aquilo, não é para agradar a ninguém”.
“O mergulhar, sentir a energia e o bater das ondas no corpo ajudava-o a não ter necessidade de se autoagredir”
O grau de autismo de Miguel “é moderado a grave”. O comportamento “tem sido muito difícil de controlar e estava a comprometer a aprendizagem”, indica. “É não-verbal, não comunica o que consideramos o básico, comunica por palavras”, diz. “Diferencia a casa do pai pelo gato e a da mãe pelo cão” exemplifica.
Alterna com o ex-marido na ajuda ao filho. O pai do Miguel é também uma figura ativa no apoio dado. Interage igualmente com outras crianças que estão no mar. Dá a mão a quem estiver mais a necessitar. Chama, de forma repetitiva, o filho. “Miguel, Miguel”!
“Sabe muito mais do que aquilo que achamos. O comportamento limitou muito na parte social e mostrar aquilo que sabe. Apesar de ter esta comunicação limitada, é uma criança muito autónoma”, salienta. “É capaz de desenrascar-se sozinho e fazer uma refeição simples, por exemplo, uma papa”, confessa Jacinta.
O mar e as ondas fazem parte da rotina entre mãe e filho.
“Às vezes, depois do jantar, quando está com sono, gosta de ir dar uma volta”, anuncia. “Habituei-o, sem querer, a irmos de casa, de carro, de Carnaxide até Carcavelos, para ouvir o mar e adormecer. Para ele, é hipnótico”, conta.
“Têm um perfil sensorial diferente do nosso, sentem as coisas muito mais do que nós”, dá nota. Estabeleceu uma ligação “mesmo muito forte” com o mar. “Ajuda-o a regular a hiperestimulação que sentem e a regular o sistema nervoso”, acrescenta.
Jacinta dá conta do “comportamento autolesivo” do filho. “Agride-se”, informa, a seco. “Quando começámos as aulas, agredia-se”, dispara. “Não fazíamos os exercícios com o grupo, íamos diretamente para o mar. Conseguia regular e vestir-lhe o fato”.
“O mergulhar, sentir a energia e o bater das ondas no corpo ajudava-o a não ter necessidade de se autoagredir”, notifica. “A autoagressão é uma forma de se regular, tal como nós temos uma forma de regulação e, antigamente, ruíamos lápis”, compara.
“A necessidade de baterem na cabeça não é gratuita. Para nós, é um bocadinho agressivo de ver. Como mãe, dói-me a alma quando vejo o meu filho agredir-se. Tento, dentro do possível, minimizar a situação, mas ele não vai deixar”, compreende.
“O objetivo não é quem fez melhor. É apoiar-nos uns aos outros”
“Vivi uma fase em que o meu filho estava mais desregulado. Apesar de estar como mãe e treinadora ao pé dele, havia momentos em que ficava um bocadinho mais tranquilo, na areia, as outras mães conseguiam chegar ao Miguel e eu conseguia desempenhar o meu papel de treinadora”, recorda. Desempenhou esse papel ora com a Clarinha, ora com o Ricardo.
“Somos uma comunidade de pessoas, não estamos a comparar-nos uns com os outros. O objetivo não é quem fez melhor. É apoiar-nos uns aos outros”, sustenta.
“Acho que esta interação entre os treinadores e pais, de respeito e confiança, tem sido ótima. Não há pais num sítio, treinadores no outro. Há uma entreajuda que contribui para que os miúdos ganhem confiança com os treinadores e os treinadores têm confiança que os pais colaboram para melhorar a prática”.
Passou mais de hora. “Não há limite”, diz Miguel. “No inverno, por causa do frio, pode ser um pouco menos, no verão não querem sair da água”, sorri. Ricardo despede-se a cortar uma onda. Rafael sai aos pulos. Laura parece estar numa cadeira de um carrossel. Clarinha quer mais um mergulho. Dão a mão aos pais.
Joaquim entra areia dentro. A fita da manhã volta para trás. Sentado no veículo de três rodas, é empurrado areal acima até ao paredão. Volta a ser pendurado entre braços. António e Miguel tiram-lhe o fato. Seco, colocam-no na cadeira de rodas.
O 24noticias despiu o fato e sacudiu a areia dos pés. António e Miguel encarregam-se de passar por água pranchas e fatos. As famílias seguiram caminho.
Nuno Ryder, meio corpo à mostra, despede-se, não sem antes desvendar a receita e os ingredientes do que assistimos. “Digo sempre ao António e ao Miguel, é apanhar ondas, dar boas sessões aos nossos meninos, sorrir e seguir no que acreditamos. No final, o que interessa é o sorriso de um surfista, de uma mãe ou de um pai”, resume.
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