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Entre as quatro paredes da casa onde vive há quase 30 anos, Francisca López Ruiz guarda as memórias de uma vida inteira. Conhecida por todos como Paquita, a espanhola de 82 anos enfrenta agora o momento mais difícil da sua vida: a possibilidade de ser despejada da habitação onde vive desde finais da década de 1990, na rua Santa Ana, em La Latina, um dos bairros mais emblemáticos de Madrid.
Com um grau três de dependência e diagnosticada com doença de Parkinson, Paquita diz que aquela casa é muito mais do que um teto. "Para mim, esta casa significa a minha vida inteira. A minha mãe e o meu marido morreram aqui", conta ao jornal espanhol El Mundo, emocionada.
Natural de Huelva, chegou a Madrid aos 15 anos e afirma ter pagado, durante 28 anos, uma renda mensal de 1.150 euros. Agora, a perspetiva de abandonar a casa onde construiu a sua vida deixa-a sem esperança. "Sinto-me morta, porque esta é a minha vida. É tudo o que tenho."
Segundo a família, o despejo não resulta de incumprimento no pagamento da renda, mas da intenção do proprietário, a empresa Tolesanta S.L., de converter o edifício em alojamentos turísticos.
A Associação de Moradores La Chispera denuncia que, só naquele prédio, existem pelo menos 21 apartamentos turísticos ilegais, acusando a crescente turistificação de estar a expulsar os residentes históricos do bairro.
Para Paquita, a transformação já alterou profundamente o quotidiano. "Há dias em que se encontra o prédio cheio de lixo e sujidade. Só querem dinheiro, dinheiro e mais dinheiro", afirma, convencida de que o objetivo passa por transformar a sua casa num alojamento local.
Mais do que perder uma habitação, a idosa receia perder toda a rede de apoio que construiu ao longo de décadas. Conhece comerciantes, vizinhos e amigos que a ajudam no dia a dia e que lhe permitem manter alguma autonomia apesar do agravamento do estado de saúde.
A situação tornou-se ainda mais difícil devido ao curto prazo inicialmente concedido para abandonar a casa. A família dispunha de apenas três semanas para encontrar uma alternativa habitacional, num mercado de arrendamento cada vez mais inacessível.
"Como é que vou procurar uma casa do dia 1 ao dia 22, sem conseguir valer-me bem e com o meu filho a trabalhar o dia inteiro?", questiona.
Paquita vive com o filho, Carlos, de 47 anos, trabalhador no setor dos transportes. Segundo a família, os rendimentos não permitem competir com os elevados preços do mercado imobiliário de Madrid, onde a oferta de arrendamento permanente é cada vez mais escassa. "Só querem contratos de um ano ou alojamento turístico", lamenta.
Até ao momento, a família afirma não ter recebido qualquer solução habitacional por parte dos serviços sociais da Câmara de Madrid. Contactados pela imprensa espanhola, os serviços sociais sustentam, no entanto, que o agregado familiar "não se encontra em situação de vulnerabilidade económica", acrescentando que o Samur Social estará presente no momento do despejo para avaliar tecnicamente o caso.
O despejo estava marcado para esta quarta-feira, às 11h00, mas foi adiado na véspera, depois de o advogado da idosa ter informado a família do adiamento da diligência judicial.
Apesar da suspensão, dezenas de moradores mantêm a concentração prevista junto ao edifício, sob o lema "Todos somos Paquita", numa demonstração de solidariedade para com a octogenária.
Sem saber o que acontecerá a seguir, Paquita admite viver dias de profunda angústia, mas procura manter a serenidade.
"Não temos nenhum plano. Será o que Deus quiser."
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