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O nome de António Villeroy talvez não seja reconhecido imediatamente, mas muitas das suas canções tornaram-se célebres na voz de Ana Carolina, Gal Costa, Maria Bethânia, Maria Gadú ou das telenovelas brasileiras exibidas em Portugal: "Garganta", "Pra Rua Me Levar", "Confesso", "Ruas de Outono" ou "Recomeço" são apenas algumas delas.

Recentemente, fez 22 concertos em 48 dias, duas oficinas, uma masterclass e ainda gravou um disco. Uma viagem ao Brasil tão "puxada" que, quando regressou a Portugal, dormiu dois dias seguidos. O álbum, "Cenas Extraordinárias", sai em novembro e é uma espécie de autobiografia.

E tudo regressa à infância, ao tempo em que, sentado à beira da cama, o pai tocava para afugentar a pneumonia, ou, em Porto Alegre, o grupo de adolescentes se reunia junto ao "murão" para treinar os últimos acordes aprendidos, ou a "electrola" passava os cinco discos seguidos de uma vez, ou o LP falado ensinava a tocar guitarra.

Mas foi no dia em que descobriu o "Clube da Esquina" que o seu mundo mudou, mesmo com a faculdade de Agronomia intrometer-se pelo caminho. Talvez noutra encarnação. Nesta, António Villeroy é todo música de São Gabriel. E não só.

"Com o disco "Minas", do Milton, comecei a explorar todo o universo do 'Clube da Esquina'"

Costuma dizer que "Beijo Perdido" mudou a sua vida. Porquê, o que tinha essa canção que não encontrou em nenhuma outra?

Na verdade, foi o disco "Minas", do Milton. Saiu em 1975, eu tinha 13 para 14 anos e estava a começar a tocar violão, umas coisas básicas, com quatro, cinco acordes. E o disco inteiro foi uma transformação, era muito rico, uma coisa realmente inovadora. Nessa altura eu não sabia que isso tinha sido intencional, mas vi algumas entrevistas recentes em que ele o afirma.

Entre as músicas, estava "Beijo Partido", de Toninho Horta, cantada por Milton. Era uma coisa muito orgânica, mas ao mesmo tempo muito diferente, acordes estranhos. Ao mesmo tempo que me provocava uma estranheza, passava-me uma familiaridade; não era um estranho que metia medo, era o contrário, um estranho que me fazia querer conhecer melhor, saber como aquilo se fazia.

E pensei: preciso de aprender a tocar guitarra a sério, porque com os acordes que conheço não vou conseguir reproduzir isto e muito menos compor algo deste nível. Com este disco comecei a explorar todo o universo do "Clube da Esquina".

"Um dia um jornalista perguntou-me como é que eu definia a minha música, porque havia muitos estilos — samba, bossa, balada, jazz, latina, pop — e eu respondi: "Eu faço música de São Gabriel". Porque era lá que eu morava, era lá que ouvia toda a música que me chegava"

Há dois álbuns, o primeiro, de 1972, e o segundo, de 1978. Está a falar do "Clube da Esquina 1"?

Sim. Comprei o disco e comecei a ver que havia ali uma frescura, uma juventude com ecos de Beatles, ecos de barroco mineiro. Um universo muito rico, com uma grande profundidade e ao mesmo tempo com uma certa leveza — a jovialidade de Lô Borges, que teria 16 ou 17 anos quando compôs as músicas.

Havia aquela coisa de turma: eles foram para uma casa de praia em Niterói, ao lado do Rio de Janeiro, e ficaram lá a criar, a inventar juntos. É um disco realmente coletivo, com vários músicos, Beto Guedes, Lô Borges e Márcio Borges, Milton Nascimento, Toninho Horta, Fernando Brant, Ronaldo Bastos e outros, que se revezavam nos instrumentos: um toca baixo num e toca guitarra noutro, fazem os coros... Uma coisa tão bonita, porque é um disco que traz amor, amor pela humanidade. A amizade transparece no disco.

O "Clube da Esquina 2" é um pouco mais denso, mais profundo, com mais religiosidade.

Essa evolução tem a ver com quê, maturidade?

Um pouco, mas o "Clube da Esquina 2" não é um disco de Milton e de Lô Borges, é um disco de Milton com várias pessoas, não tem o fator Milton e Lô. Tem o Chico Buarque ["Canción por la Unidad Latinoamericana"], tem um poema de Carlos Drummond de Andrade, "Canção Amiga", que o Milton musicou, tem coisas deste género.

"Tive uma pneumonia forte quando era muito pequeno, e acho que o que me curou foi o meu pai sentar-se à beira da minha cama a tocar violão"

Voltando à sua adolescência e ao violão: de onde lhe vem o gosto pela música?

Na minha casa havia muita música na minha infância. O meu pai tocava guitarra, piano, acordeão e também compunha. Lembro-me que tive uma pneumonia forte quando era muito pequeno, e acho que o que me curou, o que me fez bem mesmo, foi o meu pai sentar-se à beira da minha cama a tocar violão. Isso foi fundamental.

"Beatles não ouvíamos em disco, era na rádio. Que também passava música clássica. Uma das mais tocadas era a 5.ª Sinfonia de Beethoven, que foi uma influência grande"

E tínhamos uma electrola [gira-discos] onde se ouvia vinil, os discos LP. Era uma electrola para cinco discos: o braço batia, caía um disco. Quando esse acabava, o braço batia e caía outro disco. Só tocava um lado inteiro de cada vez. Era ali que ouvia tudo: música regional — eu sou do sul do Brasil, por isso, música gaúcha —, bossa nova, samba, Beatles.

Aliás, Beatles não ouvíamos em disco, era na rádio. Que também passava música clássica. Uma das mais tocadas era a 5.ª Sinfonia de Beethoven, que foi uma influência grande, também. Na altura, um jornalista perguntou-me como é que eu definia a minha música, porque havia muitos estilos — samba, baladas, jazz, música latina, pop — e eu respondi: "Eu faço música de São Gabriel". "Como assim?", diz ele. É como se eu dissesse que fazia música do Alentejo [risos]. Para mim, nessa época, como eu morava em São Gabriel, tudo era de São Gabriel.

Eram muitas influências e bastante distintas, mas chegavam-lhe todas ali.

Sim. E para mim valia tudo: não tinha um compromisso, não seguia uma corrente musical. Porque há um pouco esta tendência, às vezes cobram-nos um estilo: música regional, pop, rock. Como gosto de muita coisa, faço muita coisa diferente.

"Quando eu tinha 13 ou 14 anos, deram-nos um violão — somos três irmãos. Junto vinha um encarte, um disco falado que ensinava a tocar"

Nem sempre quem toca compõe e quem compõe canta. É uma escolha?

O meu pai não gostava que nós tocássemos nas suas guitarras, às vezes deixávamos uns arranhões, umas marcas. Então, quando eu tinha 13 ou 14 anos, deram-nos um violão — somos três irmãos. E junto vinha um encarte, um disco falado que ensinava a tocar, a afinar, ensinava alguns acordes e músicas com esses acordes — o professor era Gessé Silva.

Um tutorial de há umas décadas?

Um tutorial em LP, mas com um repertório pequeno, músicas com quatro ou cinco acordes. Muitas, na verdade. Aprendi aquelas músicas, mas queria fazer as minhas. E comecei, fui ampliando.

Na minha rua também existia uma espécie de Clube da Esquina: um murão. E combinávamos: "Ah, vamos lá para o murão". Era um muro largo, todo arborizado, onde os adolescentes se reuniam no final da tarde. E toda a gente tocava, cada um vinha com uma informação diferente, algo que tinha aprendido com alguém em algum sítio, e aprendíamos acordes novos, músicas novas. E começámos todos a compor, a participar em festivais.

"Resolvi fazer faculdade de Agronomia. Porque, ao mesmo tempo, havia o mito de que a música não era profissão"

Ainda estava em São Gabriel?

Nesse tempo, morava em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Saí de São Gabriel para Porto Alegre, que tinha um movimento musical muito forte por causa da Rádio Continental, que gravava os compositores num estúdio próprio e depois passava as músicas e fazia espetáculos coletivos com os artistas da época.

Claro que eu não estava entre esses artistas, mas estava na plateia de todos os concertos e ouvia a rádio em direto. E aquilo também foi um incentivo, esse movimento com tanta gente boa tão perto de mim. Afinal, não era só uma ilusão, aquilo era possível, eu podia fazer aquilo.

Mas não foi isso que fez. Porquê?

Quando chegou a hora, terminei o ensino secundário e resolvi ir para a faculdade e seguir Agronomia. Porque, ao mesmo tempo, havia o mito de que a música não era profissão. Quem morava no Rio, em São Paulo ou até mesmo em Salvador, na Bahia, onde estava a indústria e as gravadoras, as grandes emissoras de televisão e rádio, já tinha a possibilidade de seguir uma carreira.

Mas onde eu morava aquilo era meio incerto. Então, fui para a faculdade para me garantir. Só que quando estava no terceiro ano, começou a surgir muita coisa para fazer, concertos para lá e para cá, e comecei a viajar, a perder aulas. Matriculava-me, tentava, passava a uma cadeira e as outras ficavam por fazer.

Depois fui viver para o Rio. Aí, defini que seria essa realmente a minha carreira, com todos os riscos possíveis.

Como conheceu Toninho Horta e em que momento é que a admiração pelo músico se transformou numa amizade?

Foi em 1985. Fui ao Rio como profissional pela primeira vez como músico acompanhante de uma cantora, Maria Rita Stumpf (que depois se tornou produtora, fez outras coisas pelo meio e foi redescoberta por uns DJ ingleses). A carreira artística é uma questão de temperamento: exige muita exposição, muitas viagens, é muito cansativa.

Um destes dias, aconteceu uma coisa engraçada: um grupo de ex-colegas da faculdade de Agronomia meteu-me num grupo de WhatsApp. São todos agrónomos, formados há anos. Uma manhã, comecei a ouvir o meu telemóvel: "Plim!", "Plim!", "Plim!". Aquilo nunca mais parava. Vou ver o que se passa e descubro que estão todos a discutir cuias — aqueles recipientes onde se toma o chimarrão mate, uma bebida típica do Rio Grande do Sul. Uns diziam que tomavam numa cuia chamada Stanley, modelo industrial, outros diziam que não podia ser, tinha de ser num utensílio tradicional.

Eles nisto, eu a estudar o repertório do "Clube da Esquina". Até que vou ao grupo e digo: "Olha, estava a ver a vossa conversa e já decidi que na próxima encarnação quero ser agrónomo; entro na faculdade, faço as cadeiras que me faltavam e passo o resto das manhãs a beber mate e a falar de cuias".

Por outro lado, não vão em digressão. Estava a contar do seu primeiro espectáculo no Rio como músico profissional.

Naquele tempo, a produção não tinha muito dinheiro. Fui de autocarro — 24 horas de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. E no caminho fui a pensar nos artistas que gostava de conhecer, os que admirava mais — Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento — pessoas que eu imaginava que não qualquer hipótese de conhecer. Então, meti na cabeça que queria conhecer o Toninho Horta.

Porquê?

Porque a partir de certo momento passou a ser o compositor mais importante para mim: tinha uma expansão do campo harmónico e dos acordes que ia além de Tom Jobim. Depois apareceu o Guinga, que também fez isso e influenciou o Chico Buarque a ir ainda mais longe. De maneira que, naquele momento, eu queria conhecer Toninho Horta.

O show com Maria Rita Stumpf era uma temporada de duas semanas, de domingo a sábado. No primeiro dia, ela concedeu-me a gentileza de me deixar tocar uma música minha. Na plateia, estava Gilda Horta, irmã de Toninho. "Aquela música que você tocou, menino. Você tem de conhecer o meu irmão", disse ela. Percebeu a influência na minha música. No sábado seguinte ele tinha um concerto e eu fui. Depois, fomos jantar e ficámos amigos logo ali. 

Em 1986, ele fez um seminário de música instrumental de duas semanas na cidade de Ouro Preto, em Minas, um encontro bem intenso, muito importante para músicos de todo o Brasil. E no ano seguinte convidou-me para cantar num disco dele, "Diamond Land".

Em 1990, voltei a viver em Porto Alegre, fui gravar o meu primeiro disco. E pensei: o Toninho vem a Porto Alegre, vou chamá-lo e vou convidá-lo a gravar comigo. Então, ele participou no meu primeiro disco também. A partir daí as coisas foram acontecendo.

Tem alguma história de bastidores que vos defina?

Há uma coisa engraçada, aconteceu em 1995, na minha segunda digressão pela Europa. Comecei em França, depois Itália, um concerto em Pescara. E alguém me diz: quem esteve aqui na semana passada foi o Toninho Horta. Vou para outra cidade e... a mesma coisa.

Depois fui para Viena, encontrei um grupo de amigos que me diz: "Olha, na semana passada fizemos aqui um espectáculo com o Toninho Horta. A seguir fui para Munique e dizem-me: "O Toninho Horta esteve aqui há poucos dias". Chego a Bruxelas e alguém me mostra uma demo. Só conheço uma pessoa que toca assim violão, digo eu. "É o Toninho Horta, esteve aqui há uns dias", respondem. Vou para Londres, a mesma coisa.

Caramba, que loucura. Fiquei a pensar naquilo. Passado um tempo, vou ao Maui, no Havai. Bem, aqui o Toninho nunca deve ter estado. E então, estou eu no sítio onde ia tocar e oiço alguém: "To my friends of Casanova and Toninho Horta" [ri]. Foi muito engraçado, fartámo-nos de rir.

Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia

Também tem uma história com João Gilberto, ouvi dizer.

Não. Pessoalmente, nunca estive com João Gilberto; ele era amigo do meu pai. Em 1955, foi a Porto Alegre e ficou lá seis meses. O meu pai fazia parte do grupo de amigos que andava com ele, fizeram uma vaquinha para lhe comprar um violão. Mas quando ele foi embora ficou a despesa do hotel, fizeram uma vaquinha para pagar também [ri].

Muito mais tarde, João Gilberto teve um empresário — não me recordo do nome — que frequentava os saraus em minha casa. E através dele João Gilberto acabou por ouvir as minhas músicas e pediu-me para eu lhe enviar algumas das minhas composições. Então, fiz uma seleção de todas as "músicas de São Gabriel". Mas nunca o conheci, só por mensagem.

"Lembro-me de ver a mulherada enlouquecida — e eu ali no meio, bem quietinho, enquanto elas faziam aquele coro feminino. Até que a Ana Carolina fez um making of de um vídeo em que apareço várias vezes. A partir daí vinha sempre uma galera fazer fotos"

Fez carreira na música. Muita gente conhece as músicas, mas nem todos conhecem António Villeroy. Como é isso? Chato, divertido, positivo, negativo?

É engraçado pensar que, quando chego a um país, a um local, as minhas músicas chegaram antes de mim, já fizeram a minha apresentação. São o meu cartão de visita, abrem-me as portas.

Toquei em Portugal pela terceira vez em 2022, mas só nessa altura, pela primeira vez, fiz espectáculos com assessoria de imprensa — até aí era sempre uma espécie de missão secreta, só anunciava nas redes sociais. Tinha uma boa aceitação do público, mas não era a mesma coisa.

Em 2022, fiz vários programas de rádio e de televisão. E percebi que me estendiam o tapete vermelho, que queriam falar comigo, conheciam as minhas músicas, algumas das novelas, da Ana Carolina, da Maria Bethânia, da Gal Costa e de tanta gente para quem compus. Só que a maioria não associava a canção à figura.

Lembro-me de no início, quando ia aos espetáculos destas artistas, ver a mulherada enlouquecida — e eu ali no meio, bem quietinho, enquanto elas faziam aquele coro feminino. Até que a Ana Carolina fez o vídeo do disco "Estampado", e eu apareço várias vezes no making of. A partir daí, as pessoas começaram a reconhecer-me, a reparar em mim e, principalmente nos shows da Ana, quando eu ia, vinha uma quantidade de gente para tirar fotografias, o que é engraçado.

"Uma vez, em casa da Maria Bethânia, toquei uma música e ela disse: 'Essa você tem de dar para mim, não pode dar para uma cantora nova porque não tem maturidade para cantar isso'"

As suas músicas foram gravadas por um leque muito vasto e variado de artistas. Quando compõe, imagina quem vai tocar ou cantar aquela música?

Geralmente componho a pedido, já é uma encomenda de alguém. Mas também acontece compor porque me apetece e, no fim, achar que a música tem a cara de uma pessoa em particular, da Maria Bethânia, da Alcione, da Ana Carolina. 

Uma vez, em casa da Maria Bethânia, toquei uma música e ela disse: "Essa você tem de dar para mim, não pode dar para uma cantora nova porque não tem maturidade para cantar isso". Entretanto, fiz uma demo que foi parar às mãos de Jorge Fernando, um diretor de telenovelas, que me disse que a queria. Mas gostava muito de uma cantora, Jussara Silveira. Então, tive de dar a música à Jussara, que é amiga da Bethânia, e perdi a Bethânia.

"'Garganta' fiz para a Ana Carolina cantar num bar em Belo Horizonte. Gravou-a tão bem que quando as pessoas pediam para eu cantar eu não tinha vontade"

As músicas tornam-se de um intérprete, ganham uma personalidade nova, independentemente do autor?

"Garganta", por exemplo, fiz para a Ana Carolina, para ela cantar num bar em Belo Horizonte, quando ainda não era uma cantora conhecida. Ela gravou-a tão bem, ficou tão marcada pela identidade dela, a cara dela, que as pessoas pediam para eu cantar e eu não tinha vontade.

"Hoje as pessoas nem sequer distinguem se uma música é criada por Inteligência Artificial"

O "Clube da Esquina" tem mais de 50 anos e continua a ser ouvido e a emocionar as novas gerações. O que explica isso?

Em primeiro lugar, a originalidade e a identidade, que são muito fortes. Depois a sinceridade, toda a verdade que existe no disco. Principalmente agora, com tanta música que é só uma coisinha, uma casquinha, sem profundidade, canções com letras e melodias pobres, que não falam sobre nada.

"Quando se ouve música como a do 'Clube da Esquina' não é simplesmente comer um feijão com arroz — apesar de feijão com arroz já ser uma experiência. É entrar num universo, tomar contacto com toda uma gama de música e poesia e amizade"

Hoje as pessoas nem sequer distinguem se uma música é criada por Inteligência Artificial. É curioso como usamos as palavras hoje: nada é sobre a música, é tudo sobre a experiência da música. A comida não são os ingredientes, é a experiência. Se quero tomar uma cerveja, compro no supermercado e tomo em casa, mas a experiência seria pedir uma imperial, sentar-me no paredão a olhar para o mar e pagar quatro vezes mais por isso. As coisas perderam identidade.

Quando se ouve música como a do "Clube da Esquina", não é simplesmente comer um feijão com arroz — apesar de o feijão com arroz já ser uma experiência. É entrar num universo, tomar contacto com toda uma gama de música e poesia e amizade. Uma coisa que já não existe, porque estamos a passar por uma crise de valores.

Como é que a crise de valores se reflete na música?

Hoje há uma série de apelos, de desvios, a começar pelas redes sociais: o telemóvel na palma da mão o tempo inteiro. O ecrã, o ecrã, o ecrã. Há muita informação, mas esse excesso de informação, sem distinguir nada, faz-nos perder a identidade, já não sabemos exatamente quem somos.

Este excesso de informação torna-nos mais superficiais. Somos o que lemos, o que ouvimos, uma construção constante de experiências que nos levam para dentro de nós. Vejo pelas minhas filhas: "Olha só essa paisagem, vamos fazer uma caminhada, um piquenique à noite, à luz da lua".

No final dos anos 60, o movimento hippie, a contracultura, a Guerra do Vietname, a Guerra Fria, os golpes militares em vários países da América Latina — Brasil primeiro, depois Chile e Argentina —, todas essas tensões geraram uma necessidade de resposta que veio através da arte.

E nasce então no Brasil o Tropicalismo, que mistura música, poesia, teatro, artes visuais, numa atitude de ruptura cultural.

Chega com Caetano Veloso e com Gilberto Gil, um movimento coletivo, mas que falava muito mais sobre o indivíduo, sobre a liberdade do indivíduo, as escolhas — "tomar uma Coca-Cola" e "mergulhar na piscina", como dizia a canção "Alegria, Alegria". Na época, muita gente criticou Caetano por usar estas palavras.

No fim, a ditadura mandou os dois embora, achavam que eram mais perigosos do que os outros. O Chico tinha letras explícitas, só que se auto-exilou, foi para Itália antes que o mandassem embora. Mas era uma coisa partilhada, o individual diluído numa coletividade para ser uma coisa maior. As roupas extravagantes, o comportamento em comunidade, tudo no "Clube da Esquina" era ainda mais hippie que o hippie. 

Essa foi a grande identidade que eles cunharam e que continuaram nos seus discos independentes, no seu trabalho a solo. Lô Borges, Beto Guedes, Milton Nascimento, Toninho Horta continuaram e ganharam alguns adeptos como Joyce, Danilo Caymmi, todos vão de certa forma na direção de construir um imaginário durante os anos 70. Mesmo fazendo álbuns separados, são todos vistos como o "Clube da Esquina".

Foi essa geração que construiu um pensamento de transformação do Brasil numa coisa melhor. A partir das liberdades individuais, nessa coisa do Caetano, do Gil, de dar voz à mulher, ao gay — sem falar em gay, mas falando do amor entre dois homens, entre duas mulheres. O Chico Buarque também, com a sua voz feminina dela, tudo foi construindo o desejo de uma sociedade que avança, avança, avança.

Depois chega a SIDA, que é um corte, um travão, põe um pé atrás em tudo.  Se não fosse isso, talvez o mundo tivesse sido muito melhor. Tal como agora, no século XXI, estamos a assistir ao regresso do fascismo no mundo: no Brasil está muito forte, na Argentina fortíssimo, toda a América Latina a eleger a extrema-direita.

Voltando um pouco atrás, a Inteligência Artificial é mais uma ameaça ou um aliado da música, dos compositores?

Vejo mais como um incómodo. Porque não sabemos exatamente onde vai dar. Eu, particularmente, não uso. Uso IA para fazer pesquisa e, mesmo assim, discuto com ela, procuro outras fontes. E digo: isso está errado. Aí a IA vem e pede desculpa, diz que eu tenho razão. E eu digo sempre: "Não tenta me adular" [gargalhada]. E não dou a resposta certa, nem falo sobre a minha vida pessoal, não estou lá para treinar a IA, não contem comigo para isso.

Vejo muita gente entusiasmada com a IA, no caso da música, a compor. Mas então não é essa pessoa que está a compor, é a IA. E ainda está a ensinar a IA como é que se faz, está a dar material para a IA se desenvolver e a pagar para isso. Daqui a pouco já não precisam de nós.

"Estamos a assistir a uma mudança global de tudo, não simplesmente em relação à música. É a iminência dessa mudança que está a trazer tanto conflito, as pessoas agarram-se ao que podem como tábua de salvação, entram em modo de sobrevivência"

Ainda há esperança de a música voltar a ter a profundidade de que falava?

Acho que estamos a assistir a uma mudança global em tudo, não simplesmente em relação à música. Estamos numa fase de transformação brutal da humanidade. É a iminência dessa mudança que está a trazer tantos conflitos: as pessoas agarram-se ao que podem como tábua de salvação, entram em modo de sobrevivência. Nesse modo de sobrevivência, em vez de darem as mãos e de se ajudarem, ficam como ratos dentro da gaiola, começam a comer-se uns aos outros, a lutar. É essa a agressividade que vemos no mundo.

"Não consigo imaginar a história da música separada de tudo o resto. Seria ingénuo da minha parte pensar que a música vai voltar a ser o que era"

O que vai ser da música nesta nova fase?

Não consigo imaginar a história da música separada de tudo o resto. Seria ingénuo da minha parte pensar que a música vai voltar a ser o que era: não há volta atrás. Mas vamos fazer esta travessia da melhor maneira possível. Os valores — verdade, honestidade, amizade, amor — é que nos vão ajudar a fazer a travessia. Quem estiver em modo guerra, competição, mentira, mentira, mentira, fica para trás. Acho que uma boa música acompanha um bom vinho.

Se tocasse uma música do "Clube da Esquina" para apresentar a música brasileira a alguém que não conhece, que tema escolheria e porquê?

Talvez tocasse a "Clube da Esquina 2", uma música de Milton Nascimento e Lô Borges com letra de Márcio Borges. É bem expressiva, porque carrega o nome do movimento e também porque a letra reflete muito o que se vivia na época. E harmonicamente é muito a expressão da música mineira.

Depois de tantos anos de carreira, o que é que ainda causa algum frisson quando sobe ao palco?

Acho que uma das coisas que mais gosto, que mais mexe comigo, é compor, é criar um repertório novo.

Acaba de gravar um disco. Pode falar mais sobre ele?

O disco foi gravado no Brasil, chama-se "Cenas Extraordinárias" e é um disco autobiográfico. Porque viajo muito, comecei a escrever sobre as minhas viagens, umas crónicas encomendas por uma revista no Brasil. Um editor viu e teve a ideia de transformar aquilo num livro, "Caderno de Viagens". Então, comecei a aprofundar.

Quando comecei a escrever, comecei a perceber que para contar aquelas histórias, o que aconteceu, as minhas reações e as minhas motivações tinham uma raiz: a minha infância. Foi também um processo para me compreender. E fui regressando à infância, como se fosse um pêndulo, para lá e para cá.

Ao escrever, comecei também a compor as músicas. O que para mim é sempre estimulante é criar um álbum com uma cara, que conte uma história. Que é uma coisa que hoje existe pouco, as pessoas limitam-se a fazer um apanhado de músicas.

Quando será lançado o álbum?

Em novembro.

Se pudesse voltar atrás, ao princípio dos anos 70, o que diria a si próprio, que conselho se daria sabendo já o que veio depois?

Acredita que vai dar certo. Acho que devo ter ouvido isso de mim próprio, há muitos anos.

Mudou-se para Portugal em 2022. Porquê?

Nessa época eu estava a fazer muitos espectáculos em vários países. E comecei a pensar: onde é que eu seria capaz de viver? Talvez em Viena, na Áustria, que é uma cidade muito organizada, limpa — em 1994 já tinha separação de lixo em cinco categorias —, tem uma comunidade brasileira de músicos muito forte, além de ser um lugar muito cultural, muito artístico.

Tinha vindo tocar a Portugal pela primeira vez em 2006 e só voltei em 2019 e, mais tarde, em 2022  — era para vir em 2020, mas meteu-se a pandemia. Fui muitíssimo bem recebido. Nessa altura, várias pessoas começaram a tentar convencer-me a mudar para cá.

No Brasil, havia a questão da violência crescente. Tenho duas filhas pequenas e houve um crime em frente à escola delas. Foi a gota de água, pensei que não podia continuar ali. Também seria uma oportunidade para aprenderem outras línguas, viver a vida, a cultura de outros países.

"Na escola, uma auxiliar chamou a atenção da minha filha no pátio, disse que ela não podia falar brasileiro"

Há alguma música que só pudesse ter sido composta em Portugal, no Estoril?

Nossa, no ano passado compus mais de 50 temas. Este ano talvez umas oito, por causa dos espectáculos. Mas há uma música, "Língua Viva", que compus aqui a partir de uma conversa com o professor da minha filha mais nova.

Na escola, uma auxiliar chamou a atenção da minha filha no pátio, disse que ela não podia falar brasileiro. E eu expliquei: as minhas filhas chegaram agora, é natural que ainda falem determinadas palavras, que usem expressões que usavam no Brasil. É uma coisa natural na vida delas, além disso algumas palavras têm um sentido diferente cá e lá, têm uma grafia diferente, até. Além de que não existe "brasileiro", existe a língua portuguesa falada em Portugal e falada no Brasil.

"A língua é viva e é preciso aceitar isso sem muito 'mimimi'"

E disse ao professor: "O português é uma língua viva, o que implica o conceito de transformação. Veja, por exemplo, quantas palavras têm origem no tupi-guarani [família de línguas indígenas da América do Sul]: abacaxi, pipoca, abacate, carimbo, bugiganga. Mas podia ir buscar palavras árabes. A língua é viva e é preciso aceitar isso sem muito "mimimi". Quando os portugueses foram para as colónias, também não perguntaram aos locais se queriam lá esses visitantes: instalaram-se e miscigenaram-se.

Que semelhanças encontra entre Minas Gerais e Portugal?

O Barroco. Minas Gerais é o lugar no Brasil onde há maior presença do Barroco.

O que tem Portugal de melhor?

Uma coisa que adoro em Portugal é o tempo mais dilatado. Mas há muitas coisas de que gosto: o bacalhau, as sardinhas, o vinho, as músicas do Alentejo, o fado, a poesia portuguesa, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Camões, Zeca Afonso.

"A criminalidade no Brasil é uma questão fundamental e que não se controla com mais violência. Não é um problema para resolver com balas, é para resolver com inteligência, que é muito mais difícil"

Está a viver em Portugal há quase cinco anos. Como olha para o Brasil a partir de cá?

Eu diria que há vários Brasil. Por exemplo, sou do Rio Grande do Sul; a minha região é completamente diferente do Nordeste nos hábitos, nos costumes, na cultura, nos preconceitos. O Rio Grande do Sul é mais preconceituoso, mais racista, tem uma presença muito mais europeia. E foi lá que nasceram as primeiras escolas de samba.

Outra questão que tem a ver com a dimensão do Brasil é a dificuldade de controlar a criminalidade, que já se expandiu, com milícias no Rio e grupos de drogas pelo país inteiro. Cada Estado tem as suas versões, o Rio Grande do Sul também tem facções. Esta é uma questão fundamental, que não se controla com mais violência, não se controla a invadir morros com tiros de metralhadora, como se fossem heróis. Não há ali heróis, há chacinas. Não é um problema para resolver com balas, é para resolver com inteligência, o que é muito mais difícil.

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