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Portugal despede-se de uma das vozes mais exigentes, radicais e influentes da literatura portuguesa das últimas décadas. Com uma obra marcada pela intensidade formal e pela exploração implacável da memória e do trauma que alterou profundamente o modo de narrar em Portugal e influenciou gerações de escritores.

Se a sua escrita foi por vezes considerada difícil, foi também amplamente reconhecida como uma das mais ambiciosas e consistentes do panorama literário contemporâneo. A vida de Lobo Antunes não termina aqui porque a sua obra permanecerá como testemunho de uma inquietação contínua perante o mundo e a condição humana.

 Nascido em Lisboa, a 1 de setembro de 1942, cresceu numa família numerosa e seguiu inicialmente o caminho da medicina, à semelhança do pai. Formou-se em Medicina na Universidade de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Entre 1971 e 1973 foi mobilizado como médico militar para Angola, durante a Guerra Colonial. Essa experiência, marcada pela violência, pelo isolamento e pelo confronto com a morte, deixou uma marca indelével na sua vida e vai mais materializar-se  nas suas obra literárias. Regressado a Portugal, exerceu psiquiatria no Hospital Miguel Bombarda até 1985, ano em que decidiu abandonar definitivamente a prática clínica para se dedicar exclusivamente à escrita.

A estreia literária deu-se em 1979 com a publicação de Memória de Elefante, romance fortemente autobiográfico que acompanha um psiquiatra em crise num único dia em Lisboa. No mesmo ano publicou Os Cus de Judas, uma obra visceral sobre a experiência da guerra em Angola que rapidamente o afirmou como uma das vozes mais inovadoras e contundentes da ficção portuguesa. Seguiu-se Conhecimento do Inferno, completando uma espécie de trilogia inicial marcada pela experiência da guerra, do hospital psiquiátrico e da desagregação interior. Desde cedo, a crítica reconheceu na sua escrita uma ruptura com as formas narrativas mais tradicionais, quer pelo uso intensivo do monólogo interior, quer pela fragmentação do discurso e pela sobreposição de vozes.  Ao longo das décadas seguintes, construiu uma obra vasta e coerente, com mais de três dezenas de romances, entre os quais Fado Alexandrino, que reúne antigos combatentes da Guerra Colonial numa longa noite de memórias e frustrações; Tratado das Paixões da Alma, onde aprofunda o retrato das relações humanas e do desencanto contemporâneo; Esplendor de Portugal, uma reflexão amarga sobre o fim do império colonial; Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, centrado na memória familiar; e Sôbolos Rios que Vão, marcado pela experiência da doença. O seu último romance, O Tamanho do Mundo, confirmou a persistência de uma escrita exigente e singular. Paralelamente à ficção, publicou inúmeros volumes de crónicas, que revelam uma faceta mais direta e quotidiana, mas igualmente literária, do seu olhar sobre o mundo.

O último livro de António Lobo Antunes chegou às bancas apenas há quatro anos e aos 80 anos “Tamanho do mundo” manteve a narrativa a que nos habituou, saltitando entre a sátira e a crueza de se ser humano.

O escritor vencedor do Prémio Saramago, Francisco Mota Saraivaquestionado pelo 24notícias sobre que livro de Lobo Antunes ler primeiro aconselha "Sôbolos rios que vão" para quem nunca leu António Lobo Antunes e queira agora começar, refere a obra escrita "a partir de um verso do Camões", que caracteriza como "talvez o melhor exercício de memória, escrito entre a vida e a morte, a partir do olhar da doença". Contudo ressalva, "acho difícil escolher apenas um considerando que a obra dele é una, como quem escreve a biografia de um só deus".

O método de trabalho de Lobo Antunes tornou-se quase lendário. Escrevia à mão, numa caligrafia densa e minuciosa, trabalhando obsessivamente cada frase, reescrevendo e depurando o texto até alcançar a cadência desejada. A sua escrita caracteriza-se por uma forte dimensão polifónica, com múltiplas vozes que se entrelaçam e confundem, exigindo do leitor atenção constante. A fragmentação narrativa, as repetições com variações subtis, o fluxo de consciência e a dissolução das fronteiras entre passado e presente são marcas distintivas do seu estilo. Os seus romances exploram temas recorrentes como a Guerra Colonial, a infância, a família, o declínio do império português, a doença, a culpa e a morte, fundindo memória individual e história coletiva numa mesma tessitura literária.

Amplamente traduzido e estudado, tornou-se um dos autores portugueses mais reconhecidos internacionalmente, sendo frequentemente apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, distinção que nunca chegou a receber. Em 2022, foi condecorado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a Grã-Cruz da Ordem de Camões, reconhecimento máximo do Estado português na área da cultura. Após a morte, foi já anunciado que ser-lhe-á atribuído o Grande-Colar da mesma Ordem, sublinhando o peso institucional do seu legado.

*Texto originalmente publicado na newsletter Isto é útil

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