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A 7 de outubro de 2023, um ataque do Hamas a partir de Gaza, no sul de Israel, resultou num banho de sangue: mais de 1000 pessoas foram mortas e mais de 200, entre elas crianças e idosos, foram sequestradas e feitas reféns. O choque destes acontecimentos – o ataque terrorista mais mortífero da história do país – levou o governo israelita a lançar um ataque militar contra a densamente povoada Faixa de Gaza.
Um bombardeamento sem precedentes pela sua intensidade exterminou famílias inteiras e deixou dezenas de milhares de mortos sob os escombros. Em todo o mundo, eclodiu um debate extraordinário que refletiu os medos existenciais de ambos os lados.
Na Universidade de Columbia, onde leciono, os debates transformaram-se em manifestações, contra-manifestações, ocupações pacíficas e acampamentos. Os protestos estudantis tornaram-se um espetáculo nacional e desencadearam um movimento internacional, antes de serem interrompidos por uma demonstração de força do Departamento de Polícia de Nova Iorque, cujas brigadas de intervenção invadiram os relvados e os passeios para prender várias dezenas de manifestantes.
Mais tarde, o reitor da universidade falou diante das câmaras a partir de um campus normalmente cheio de vida, mas agora estranhamente deserto. Os portões estavam trancados com cadeados e guardados por seguranças particulares; estudantes e professores estavam impedidos de entrar; a comunidade de aprendizagem que eu conhecia e amava tinha desaparecido.
Paralelamente à tragédia que se desenrolava no Médio Oriente, outro drama fez o seu curso na primavera de 2024, diante dos meus olhos, um drama muito menos grave em termos de sofrimento humano ou violência, mas com as suas próprias reverberações políticas e culturais. Estavam ligados, mas a natureza da ligação era tudo menos óbvia e parecia importante tentar descobri-la.
Nos meses anteriores, alguns dos manifestantes tinham hasteado bandeiras vermelhas, verdes, brancas e pretas, acampado em tendas, afirmado a sua solidariedade com Gaza e apelado ao mundo para que prestasse atenção ao número crescente de mortos palestinianos. Contramanifestantes buscaram simpatia pelas vítimas israelitas: espetaram bandeiras azuis e brancas nos relvados do campus e afixaram panfletos com os rostos dos reféns. A linguagem abreviada da contestação política – símbolos, slogans e cânticos – é concebida para causar impacte, não clareza semântica; as ambiguidades eram inerentes e as discussões acaloradas. O apelo à «Intifada» era um incitamento ao genocídio ou simplesmente um incentivo aos palestinianos para se levantarem e lutarem pelos seus direitos? Uma faixa com a Estrela de David sinalizava solidariedade com os judeus, Israel ou o sionismo? A expressão «Do rio ao mar» refletia antigos slogans a favor de um Grande Israel, mas aqui era entendido como o oposto: referia-se a uma Palestina árabe sem judeus, ou à liberdade para os árabes que viviam ao lado deles? Algumas pessoas diziam que o significado destas coisas era claro e exigiam ação; outras insistiam em que podiam ter significados diferentes para pessoas diferentes. Eu achava que o significado provavelmente nem sempre era evidente, mesmo para aqueles que os usavam, e que usá-los era muitas vezes o início de um processo de descoberta do seu próprio significado. Via os debates ao meu redor como uma forma de educação, indisciplinada, mas também admirável. No mundo exterior, porém, muitos viam-nos de maneira diversa.
Em lado nenhum a tensão foi maior do que em torno do significado de antissemitismo. Ninguém queria ser rotulado de antissemita, mas, a dar crédito às autoridades na matéria, havia antissemitas por todo o lado, e Manhattan parecia Berlim na véspera da Kristallnacht.
O aumento dos crimes de ódio em todo o país e mais além era real: o agravamento do conflito no Médio Oriente estava a pôr judeus e muçulmanos em risco. No exterior do campus, um grupo heterogéneo de extremistas ideológicos disputava a atenção das câmaras, e por vezes havia uma fila de fotógrafos com três quarteirões de comprimento na esperança de entrar e ver algo que fosse notícia. Mas do lado de lá dos portões, as coisas estavam bastante calmas e, com a notável exceção do jornal estudantil, que se revelou a única fonte confiável de informação de testemunhas oculares, o que eu lia e ouvia na imprensa era uma distorção do que via. Os insultos antissemitas tinham aumentado de tom, e alguns dos meus amigos e alunos tinham sido ostracizados por serem israelitas, o que não me parecia exatamente antissemita (acontecera algo semelhante com estudantes russos após a invasão da Ucrânia), mas sabia sem margem para dúvidas ser igualmente errado. Os insultos, no entanto, eram recíprocos, e eu não conseguia entender a difamação de estudantes de todas as origens e credos por se manifestarem contra as coisas terríveis que estavam a acontecer em Gaza, o assassinato semana após semana de pessoas inocentes a uma escala que superava tudo o que se tinha visto anteriormente na história do conflito.
Aquilo tinha-se tornado, sob qualquer ponto de vista, uma das grandes questões do nosso tempo. Os manifestantes e os professores que os defendiam eram realmente considerados antissemitas? Eu sabia por experiência própria que a alegação de que as universidades americanas eram focos de antissemitismo institucionalizado era uma acusação tão absurda quanto prejudicial.
Em resposta às exigências de políticos, curadores e financiadores, foram criadas equipas especiais para investigar e erradicar «esse antigo flagelo». Mas primeiro teriam de descobrir o que era o flagelo.
Há já muitos anos que eu lecionava, escrevia e refletia sobre perseguição, violência e nacionalismo na história europeia, e se uma coisa estava clara para mim, era que as linhas que separavam o antissemitismo da oposição às políticas israelitas e da crítica ao sionismo se tinham tornado irremediavelmente confusas. Coisas que alguns achavam que precisavam de ser ditas num momento de catástrofe eram consideradas inaceitáveis por outros. Seria possível negar o «direito de existir» de Israel sem ser rotulado de antissemita? Seria possível falar sobre Gaza como um genocídio e, se não, porque não? Perguntava-me quem eram os sionistas de que alguns agora falavam com tanto ódio.
Aliás, o que era exatamente o antissionismo, e seria isso agora também antissemitismo? Amplificada e distorcida na câmara de eco de uma opinião pública inflamada, a acusação de antissemitismo parecia abranger uma série de pecados – alguns graves, outros veniais, outros inexistentes.
É verdade que foram raros os incidentes no campus da Columbia que envolveram qualquer tipo de violência física. No entanto, apenas seis anos após o massacre na sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburgh, e cinco após a chacina perpetrada por um neofascista na cidade alemã de Halle, nenhuma pessoa sensata acreditaria que a ameaça de violência contra os judeus tinha desaparecido para sempre.
A extrema-direita está a florescer de ambos os lados do Atlântico, e as teorias da conspiração à moda antiga voltaram a ganhar força. O populismo racista está em ascensão. Uma crise com reféns numa sinagoga do Texas, em 2022, que poderia facilmente ter resultado em mortes, serviu como lembrete do risco constante representado pelos simpatizantes da Al-Qaeda. Em suma, parecia haver boas razões para combater o antissemitismo onde ele representava uma ameaça à vida e à integridade física. No entanto, foi o campus que chamou a atenção dos media e dos políticos americanos. Em Washington, DC, membros do Congresso que antes não eram conhecidos pela sua solicitude para com os judeus ou as universidades desenvolveram um grande interesse por ambos, organizando comissões de inquérito de tom macartista e ocasionalmente surreais. Um legislador perguntou se Deus amaldiçoaria as universidades que não tomassem medidas. Outro ficou incomodado com a palavra asquenormatividade, um neologismo desajeitado que provavelmente ninguém no Capitólio tinha encontrado até um investigador o descobrir no manual de um aluno, após o que toda a gente se fingiu indignada diante das câmaras. Como se viu, a palavra não tinha nada que ver com antissemitismo. Se envolvia algum tipo de ofensa, era contra a língua inglesa. Mas isso era a última coisa com que as pessoas se preocupavam.
Enquanto observava, ocorreram-me duas perguntas. Primeiro, perguntei-me o que aquelas denúncias de antissemitismo estavam a impedir-nos de discutir. Porque me parecia cada vez mais claro que a constante invocação do antissemitismo precisava de ser entendida como uma recusa em reconhecer outras coisas: senti que, se a exigência é que o antissemitismo deve ser sempre tratado em primeiro lugar, e se praticamente qualquer defesa da posição palestiniana provoca gritos de antissemitismo, então criou-se um obstáculo formidável que nos impede de ver o outro lado da luta que está no cerne de tudo isto – ou seja, a existência de um povo palestiniano sofredor e o seu desejo de liberdade – como algo que mereça realmente atenção. O sentimento de vitimização coletiva, que tem assolado a compreensão contemporânea de Israel sobre si mesmo e o seu lugar no mundo, constitui uma reviravolta impressionante em relação ao que os fundadores do sionismo esperavam ou desejavam. O antissemitismo oferece uma justificação para o facto: invocar a velha maldição tornou-se uma espécie de recusa de encarar os factos e aceitar o significado das críticas. Mas hoje grande parte do mundo recusa essa recusa: diz que se pode lamentar os mortos israelitas e também os mortos palestinianos.
O que levou à questão por trás deste livro: o que aconteceu ao conceito de antissemitismo? Tentar compreender as contradições que ele hoje contém é como entrar numa sala de espelhos. Um termo que começou como uma forma de descrever a hostilidade enfrentada pelos judeus como uma minoria que lutava pelos seus direitos legais é agora usado para defender um Estado de maioria judaica que priva a minoria que vive no seu seio dos respetivos direitos. Antes, combater o antissemitismo significava lutar contra o etnonacionalismo; agora, muitas vezes, justifica os excessos do etnonacionalismo. Para alguns, o antirracismo e os direitos humanos são a solução; para outros, são o problema.
O antissionismo é antissemitismo, dizem alguns; o sionismo é que é, dizem outros. Hoje, até os racistas dizem que estão a combater o antissemitismo, algo que seria inimaginável quando o termo foi criado e deve ser, por si só, um sinal de que está agora a ser usado de forma abusiva.
Na sua encíclica Fratelli tutti (Somos todos irmãos), de 2020, o papa Francisco fez-se eco do apelo do seu homónimo medieval a um sentido renovado de fraternidade universal, expressou a sua preocupação com o aumento do ódio nacionalista nos últimos anos e alertou que este estava a ser agravado por uma crescente falta de consciência histórica e pela facilidade com que, em consequência disso, as palavras podiam ser manipuladas. Tal como escreveu: «Uma maneira eficaz de enfraquecer a consciência histórica, o pensamento crítico, a luta pela justiça e os processos de integração é esvaziar de significado palavras de grande peso ou manipulá-las, de modo a que possam ser adaptadas e moldadas para servirem como instrumentos de dominação, meras etiquetas sem sentido que podem ser usadas para justificar qualquer ação.» Quarenta anos antes, já Antony Lerman tinha avisado que o termo dificilmente serviria para combater o antissemitismo se chegasse a ser usado «tão largamente que significasse ao mesmo tempo tudo… e nada». Embora o termo consiga, por enquanto, abarcar as suas atuais contradições, não temos meio de saber como será em anos futuros. Não obstante os esforços para fixar-lhes o significado, as palavras são coisas recalcitrantes, e é o curso futuro dos acontecimentos, não a vontade administrativa, que geralmente determina o que lhes acontece. Irá a atual confusão de significados e associações sobreviver, ou alguns deles serão transformados, descartados ou esquecidos?
O filólogo Viktor Klemperer observou o processo «através do qual uma expressão atualmente muito na moda, que ninguém diria destinada a ser expurgada, de repente fica silenciosa e desaparece com o contexto que lhe deu origem». Poderá o antissemitismo tornar-se um desses termos que – como Klemperer escreveu – permanecem «como fósseis» para testemunhar as preocupações de uma era passada?
Tudo o que podemos dizer é que a controvérsia sobre o antissemitismo não terminará provavelmente tão cedo. O objetivo de tentar esclarecer termos como este não é ajudar a resolver os conflitos que os sustentam: isso está além do poder de tal análise. Trata-se, antes, de nos tornarmos mais conscientes das profundezas ocultas das ideias, associações e implicações que herdamos, de perceber que os significados podem variar de acordo com as circunstâncias que os motivaram, e encontrar a nossa própria maneira de usar as palavras para, assim, nos tornarmos participantes no processo de mudança do mundo.
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