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Com uma taxa de propagação extremamente rápida, a alga asiática consegue ocupar até 90% do fundo marinho entre os dez e os 20 metros de profundidade, uma ameaça para a biodiversidade local, um problema para a atividade piscatória e um obstáculo ao turismo balnear.
Para já, sabe-se que existe uma relação direta entre o aumento da temperatura e a proliferação destas macroalgas. "Este ano e no ano passado registámos uma temperatura da água do mar anormalmente elevada. Em locais onde em junho registávamos 16ºC ou 17ºC, este ano chegámos aos 19.7ºC. É um valor muito elevado para a zona costeira de Cascais", exemplifica a bióloga marinha Ana Margarida Ferreira.
As consequências são muitas. "As nossas espécies não conseguem competir com esta espécie invasora". Além disso, "a alteração da temperatura da água do mar tem impactos na fisiologia da fauna - peixes e invertebrados — e da flora. Ou seja, representa um forte stresse para o nosso ecossistema marinho costeiro - as espécies que lá existem ou migram, ou se adaptam ou desaparecem".
No futuro, "é provável que as espécies tenham de se adaptar a estas novas realidades, porque é previsível que, cada vez mais, a frequência destes eventos extremos aumente", prevê a bióloga.
O tráfego marítimo também é responsável e os cascos dos navios ou de embarcações marítimo-turísticas estão identificados "como agentes que introduzem este tipo de algas em diversas zonas". A espécie começou por ser detetada no Algarve, já é um problema grave em Cascais e em breve deverá afetar outras regiões costeiras de Portugal, do Portinho da Arrábida a Moledo e à Póvoa de Varzim, "zonas de extrema vulnerabilidade".
"Neste momento, está a entrar para dentro do estuário, a colonizar a costa sul do concelho de Cascais, já chegou à zona de Carcavelos, e na zona oeste está já na Guia, ainda não passou a barreira natural do Cabo Raso. Acreditamos que dentro de um ou dois anos consiga passar esta barreira física", adianta Ana Margarida Ferreira.
"Esta é uma espécie que se propaga nas superfícies rochosas, não é uma espécie típica de areia. É normal que exista onde existe um fundo rochoso marinho subaquático, comum a toda a costa em Cascais, por exemplo, mas menos comum em praias como a de Carcavelos ou do Guincho, em zonas de pouca profundidade (em zonas de grande profundidade é outra coisa)".
Relativamente ao resto do país, e tendo em conta diversos registos, "já está a subir". Muito concentrada na zona do Algarve, "já há registos na costa Oeste" - Nazaré, Peniche, São Martinho do Porto, para dar alguns exemplos.
"É normal que, desde que haja condições propícias, a alga comece a colonizar e cada vez mais, até porque estes eventos de aumento da temperatura são cada vez mais frequentes a norte do país", onde as águas eram habitualmente mais frias do que no sul. É expectável um impacto elevado em todas estas zonas, principalmente em zonas de parque natural e de conservação prioritárias, onde existe uma elevada biodiversidade".
Recolhidas mais de 2.500 toneladas de alga em Cascais
Ana Margarida Ferreira é também responsável pelo Plano de Gestão e Monitorização de Rugulopteryx okamurae em Cascais, onde a alga foi detetada pela primeira vez em 2024 e onde estão a ser desenvolvidos diversos projetos piloto.
A autarquia tem mobilizado meios humanos e técnicos para a remoção diária de alga asiática, sobretudo na Praia das Moitas, na Praia da Poça e na Praia da Azarujinha, as mais atingidas pelo fenómeno. Entre junho de 2024 e julho de 2025, foram recolhidas mais de 2.370 toneladas da macroalga castanha, o equivalente a uma piscina olímpica cheia de água, um relvado de futebol coberto até ao joelho ou 200 autocarros da Carris.
Só desde o início da época balnear, a 1 de maio, o município investiu mais de 60 mil euros em equipamentos para reforçar a limpeza, que conta também com o apoio de voluntários do programa Maré Viva. A recolha é geralmente feita de madrugada, durante a maré baixa, ou por volta das onze da manhã (casos excecionais).
A biomassa recolhida está a ser trabalhada num projeto piloto, o ReAlga, uma iniciativa que conta com a participação do Instituto Superior de Agronomia, a start-up OffKelp e a Vivid Farms. O objetivo é fazer biofertilizantes e os testes laboratoriais estão "a correr bem". A primeira fase é tirar a alga da areia, mas a ideia é devolver a areia à praia para evitar a erosão.
O plano de gestão está inserido na Estratégia Municipal para o Mar de Cascais e está a ser desenvolvido para minimizar os efeitos da alga na zona costeira. "É uma equipa alargada, somos mais de 15 pessoas a trabalhar neste plano, e o que fizemos foi, primeiro, verificar quais as melhores metodologias para recolha da alga, definir várias etapas — é diferente em zonas protegidas ou de difícil acesso —, e tentar minimizar os estragos debaixo de água", explica.
Para isso, estão a ser desenvolvidos uma série de projetos piloto, uns com a academia, outros com empresas, públicas e privadas.
O primeiro projeto está a ser desenvolvido em conjunto com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), e tem a ver com a análise da qualidade das águas, para saber de que forma esta invasão de biomassa afeta a qualidade das águas balneares.
Um segundo projeto, "que foi logo solicitado pela população e pelos concessionários que trabalham nas praias", é o desenvolvimento de uma rede de contenção de biomassa, tentar conte a biomassa no mar e impedi-la de chegar às áreas balneares. As redes já existem para conter outra espécie, o sargaço. A diferença é que o sargaço flutua, enquanto a alga asiática afunda, pelo que é preciso desenvolver uma rede que ocupe toda a coluna de água.
Um terceiro projeto prende-se com a erradicação e controlo, em parceria com o MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa. A ideia é saber se é possível fazer ações de recolonização de ouriços-do-mar, um predador natural desta espécie, para ajudar as espécies autóctones a recuperarem ou a dar-lhes mais tempo para liderem com esta invasão biológica. Além disso, serão testadas outras metodologias de erradicação que ainda não foram testas em Espanha, como a criação de jardins e gorgónias ou de esponjas, extremamente sensíveis.
O projeto "mais difícil, e também aquele que é mais necessário para a gestão costeira", é a identificação da mancha de dispersão da espécie ao longo do concelho, acompanhado de um modelo de previsão dos arrojamentos, quando e onde haverá uma chegada de biomassa às praias. É o mais ambicioso "porque recorre a imagens de satélite, que no mar são difíceis de trabalhar por causa da refração da superfície da água (ondas)". "O ideal, é dentro de dois ou três anos termos este sistema montado e saber que com a temperatura X, a agitação marítima Y e as correntes Z haverá um arrojamento em determinada zona, para afetar para aí os meios mecânicos".
A estratégia nacional: minimizar ou adaptar
A alga asiática foi detetada pela primeira vez em Portugal em 2019, perto do maior porto comercial da Ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores. Depressa se espalhou às águas europeias e rapidamente se tornou abundante no Algarve. Em Cascais, o primeiro bloom foi registado em 2024, entre a Praia das Moitas e a Praia da Rainha.
"Não há muitas técnicas e erradicação que possam ser aplicadas a algas invasoras. No entanto, os colegas espanhóis testaram um sem-número de metodologias, mecânicas, químicas, de gestão de habitat. Ao longo destes dez anos, muita coisa foi feita, o que estamos a verificar é que muitos destes estudos e destes testes não tiveram resultados eficazes", justifica a bióloga. "Ainda é necessário fazer muita investigação".
O governo aprovou a Estratégia Nacional para a Gestão da Macroalga Invasora Rugulopteryx okamurae no final de julho, sob a coordenação da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), mas a medida peca por chegar tarde. O objetivo é monitorizar e compreender a dinâmica de expansão da espécie nas diferentes regiões do país, mitigar os impactos negativos nas zonas balneares, na pesca e na economia local e valorizar a biomassa recolhida.
Para já, Portugal beneficia da experiência espanhola. A alga asiática foi detetada em Espanha em 2015, nas costas de Ceuta, e em 2020 foi inserida no Catálogo Español de Especies Exóticas Invasoras. Em julho de 2022, era catalogada como uma das espécies exóticas invasoras mais preocupantes para a União Europeia.
Além de utilizadas como fertilizantes, a produção de biogás, a farmacologia, a cosmética, a biomedicina, as tintas ou a produção têxtil podem ser outras aplicações da alga asiática.
No limite, "pode não haver nenhuma metodologia eficaz" para erradicar a Rugulopteryx okamurae e poderá dar-se o caso "de termos de nos adaptar, quer os ecossistemas marinhos, quer os humanos, e termos de aprender a viver com esta alga no nosso dia-a-dia", conclui Ana Margarida Ferreira.
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