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Esta situação resulta, em grande medida, da redução drástica da ajuda alimentar de emergência nos últimos dois anos, causada pela diminuição do apoio internacional, segundo a CNN. Em abril de 2025, a administração de Donald Trump cortou por completo a ajuda alimentar ao Afeganistão, um dos países mais pobres do mundo.

Até então, os Estados Unidos eram o maior financiador do PAM, contribuindo com 4,5 mil milhões de dólares do total de 9,8 mil milhões em donativos recebidos em 2024. Com os cortes, dezenas de programas financiados pelos EUA, incluindo cuidados médicos, apoio alimentar, programas de educação para raparigas e clínicas rurais, foram encerrados. A suspensão dos fundos da USAID teve um impacto devastador, rapidamente seguido por reduções orçamentais em países como o Reino Unido, França e Alemanha. O encerramento de hospitais e clínicas forçou muitas famílias a percorrer longas distâncias para receber cuidados médicos. Em muitos casos, essa assistência chega tarde demais, conta a estação americana.

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Num hospital da província de Nangarhar, uma mãe chorava a morte do seu filho de um ano, Mohammad Omar, vítima de desnutrição severa e meningite. A criança nasceu com problemas de saúde, mas a falta de medicamentos e de cuidados médicos — anteriormente garantidos pela ajuda norte-americana — acelerou a sua morte. Desde os cortes, a taxa de mortalidade infantil aumentou entre 3 a 4%, segundo médicos do hospital. Os pacientes têm agora de pagar os medicamentos do próprio bolso, algo que muitas famílias não conseguem suportar, enquanto centenas de clínicas foram encerradas em todo o país.

Em visita ao Afeganistão, a CNN encontrou clínicas vazias, salas de parto abandonadas e medicamentos saqueados. Organizações humanitárias alertam que o fim da ajuda comprometeu o acesso a cuidados básicos, sobretudo em zonas rurais. Mulheres grávidas dão à luz em casa, muitas vezes sem assistência, aumentando drasticamente o risco de morte para mães e bebés. A UNFPA estima que, no Afeganistão, uma mulher morre a cada duas horas devido a complicações relacionadas com a gravidez e parto — causas geralmente evitáveis com cuidados especializados.

As consequências dos cortes vão além da saúde física. Uma psiquiatra que trabalhava num programa financiado pelos EUA perdeu o emprego em março. Ela acompanhava uma rapariga com depressão profunda, cujo estado melhorou com acompanhamento regular e medicação. Após o fim do apoio, a jovem morreu por suicídio. "O corte da ajuda causou isto", disse a médica, que também entrou em depressão por estar desempregada e sem poder ajudar.

A administração Trump insiste que ninguém morreu devido ao fim dos financiamentos. Marco Rubio, secretário de Estado, afirma que a ajuda externa será canalizada apenas para programas que sirvam os interesses dos EUA, de forma mais “eficiente” e “responsável”. No entanto, especialistas alertam que as consequências já são visíveis. A revista médica The Lancet estima que mais de 14 milhões de pessoas poderão morrer nos próximos cinco anos por causa dos cortes na ajuda, incluindo quase 5 milhões de crianças com menos de cinco anos.

As alterações climáticas agravam ainda mais a crise, com secas prolongadas, inundações e escassez de água a afetar especialmente as comunidades agrícolas. Paralelamente, o regresso forçado de milhares de afegãos expulsos do Irão e do Paquistão sobrecarrega ainda mais os limitados recursos disponíveis. O PAM afirma que só conseguiu apoiar uma pequena fração desses retornados e que precisa de, pelo menos, 539 milhões de dólares até janeiro para responder às necessidades mais urgentes.

Apesar da gravidade da situação, os talibãs afirmam que o país não depende da ajuda externa e que a sua governação é sustentável com recursos internos — uma posição amplamente contestada pelas evidências no terreno. Além disso, sob o regime talibã, as mulheres estão entre os grupos mais afetados: estão proibidas de trabalhar, estudar, viajar sozinhas ou falar em público, e foram praticamente apagadas da vida pública. Recentemente, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de captura contra dois líderes talibãs por crimes contra a humanidade, nomeadamente a perseguição sistemática de mulheres e raparigas.

A administração norte-americana, por sua vez, justifica os cortes com a alegada transferência de milhões de dólares para o regime talibã sob a forma de impostos e taxas cobradas às ONGs. Um projeto de lei republicano — o “No Tax Dollars For Terrorists Act” — quer impedir qualquer financiamento ao Afeganistão enquanto os talibãs estiverem no poder. O congressista Tim Burchett declarou: "Os americanos também estão a passar fome. Não podemos ser o banco do mundo."

Enquanto se debatem políticas em Washington, no hospital de Nangarhar os lençóis são mudados na cama onde uma criança acabou de morrer, para dar lugar ao próximo paciente. A fila de famílias à espera de ajuda continua a crescer.