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O PODER DO COMPROMISSO

Despertar o potencial de todos os jovens

Quando Kia estava no jardim de infância em Hunter, no Dakota do Norte, era a criança mais inteligente da turma. Acabava os trabalhos de casa durante o horário escolar, assim que eram dados, e nunca tinha de levar nada para casa. No tempo livre, lia todos os livros de Percy Jackson. Tocava saxofone e piano antes de começar a aprender a tocar guitarra. Por sugestão do pai, aprendeu sozinha canções como «Tribute», de Jack Black. Havia menos de quatrocentas pessoas na aldeia rural onde vivia, mas estava sempre ocupada. Passava as noites com o pai, a ler, a brincar ou a ouvir música.

Mas, no quinto ano, o trabalho de casa aumentou, e Kia começou a perder o interesse. A questão não era apenas o aumento da dificuldade; o currículo era muitas vezes rígido e padronizado, pelo que não conseguia apelar-lhe à imaginação nem aproveitar as suas paixões: ler, desenhar, cantar e fazer música. Kia tinha particular dificuldade em concentrar-se em tarefas repetitivas que não ativassem o seu lado criativo. O enquadramento tradicional da sala de aula, com a ênfase em ficarem sentados e quietos, a ouvir em silêncio e preencher fichas de exercícios, era opressivo para ela. Kia não via razão para se esforçar para fazer algo que, para ela, não tinha significado.

Aos doze anos de idade, foi diagnosticada com PHDA, tal como o pai, e, embora o diagnóstico a tenha ajudado a compreender as dificuldades que sentia na escola, não a ajudou a ficar mais motivada. Aos treze anos, recebeu um telemóvel e começou a passar muito mais tempo a olhar para o ecrã do que a fazer os trabalhos. Ficava no quarto a ver vídeos e agarrada às redes sociais. Saía cada vez menos de casa e deixou de falar com as pessoas. Deixou de ler, de caminhar e de se dedicar a todos os outros passatempos que tinha. Quando a pandemia chegou, e Kia teve de aprender a partir de casa, as coisas não melhoraram. Embora a escola estivesse bem preparada para a aprendizagem online, Kia, como muitos outros adolescentes, não fez nada. Quase reprovou no nono ano, em 2020-2021, e insiste que só passou porque toda a gente passou. «A escola deixou de ser divertida e passou a ser
uma obrigação, uma obrigação que eu nunca cumpria, e depois ficava tensa porque nunca tinha nada feito», disse-nos.

A escola sabia que Kia estava com dificuldades: «Estamos a perder esta miúda. Não quer fazer nada, não faz os trabalhos de casa, não se empenha em nada», lembra-se de pensar Tom Klapp, um dos professores de Kia na altura. Tanto o pessoal como os educadores a consideravam uma miúda simpática, «uma pessoa com quem se pode ter uma boa conversa, que se expressa muito bem», com talento para a escrita e uma paixão pela leitura. Mas era evidente para todos os envolvidos que a escola não estava a funcionar para ela. Os professores diziam: «Escreve isto», e ela recusava-se a fazê-lo, disse Klapp. «Não via vantagem em nada do que lhe pedíamos para fazer.»

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Kia não gostava de não fazer sequer um esforço. Quando começou a desistir, sentiu vergonha e culpa. Ficava zangada ao ver que fazer as coisas parecia muito fácil para os outros e começou a sentir-se estúpida. Mas era por causa do pai, Lee, que ela se sentia ainda pior. Lee abandonara a universidade e trabalhava na fábrica de grãos da cidade havia vinte anos, tendo ascendido ao cargo de gerente. Mas sempre fizera questão de que Kia se saísse bem na escola, para que viesse a ter melhores opções do que ele teve. Transmitir-lhe conhecimento, disse-lhe um dia, era a sua forma de mostrar o amor que sentia por ela. Quando Kia virou costas à aprendizagem, ele não deixou de a acompanhar e de a incentivar a fazer perguntas. «Falávamos durante horas», disse-nos ela. O pai era a pessoa mais inteligente que ela conhecia, e ela detestava dececioná-lo.

No décimo ano, um professor reparou que Kia tinha opiniões fortes sobre a futilidade da escola e sugeriu que ela integrasse um painel consultivo de estudantes que se ia reunir em Fargo. Poderia ela ir falar com o conselho escolar sobre formas de os legisladores e educadores tornarem a escola mais apelativa? «Foi um momento em que o meu cérebro deixou de pensar “isto não serve de nada” e começou a pensar “esperem lá, talvez eu tenha uma palavra a dizer”», explicou Kia. «Por isso, disse que sim, claro.»

O grupo foi a Fargo e fez o seu depoimento. Kia estava nervosa. Não tinha muita prática em falar em público e tinha muito para dizer. Uma vez que ela e os outros alunos estavam lá para responder a perguntas, não podia preparar-se como devia ser. De início, respondeu às perguntas do conselho escolar «Quais são as tuas preocupações em relação ao futuro?», «Que mudanças deveriam ser feitas para melhorar as coisas?», tentando soar o mais oficial possível («frases compridas e enroladas que, na verdade, não dizem nada», explica). Mas depois lembrou-se de que deveria deixar de tentar parecer inteligente e concentrar-se em fazer passar a mensagem. Tinha de ser clara como água.

Por fim, quando o conselho escolar lhe perguntou se ela tinha mais alguma coisa a dizer, Kia viu uma oportunidade. Disse-lhes que os adolescentes não viam a relevância da escola, sentados em secretárias, a engolir conteúdos muito restritos, em vez de fazerem coisas relacionadas com os problemas que existem para lá da porta: alterações climáticas, subemprego, o aumento dos problemas de saúde mental. Não se pode forçar os adolescentes a aprender, disse. Eles têm de querer fazê-lo. Mas quando quiserem, quando aprender os entusiasmar a sério, serão imparáveis. Depois de finalmente dizer o que pensava, Kia sentiu uma onda de alívio. Tinha dito o que tinha para dizer. Tinham-na ouvido. Sentiu-se poderosa.

Naquela reunião do conselho escolar, Kia estava a falar em nome de inúmeros outros estudantes. De acordo com um inquérito levado a cabo pela escola de Kia, em 2021, apenas 34% dos alunos considerava a escola relevante, um número que não destoa das médias nacionais dos Estados Unidos. «Fazemos perguntas honestas — “Quem somos?” “Qual é o nosso objetivo na vida?” e, em vez de respostas, recebemos uma equação», escreveu Kia depois da visita a Fargo numa redação em que resumia o depoimento que tinha feito. «Queremos oportunidades para descobrirmos a nossa paixão, para nos encontrarmos.» Aprender bem, estar bem.

Ser adolescente nunca foi fácil. Mas os níveis de infelicidade estão descontrolados por toda a parte: em estudos, nas notícias, nas nossas casas. Entre 2011 e 2021, as taxas de depressão entre alunos do ensino secundário subiram para mais de 40%. Além disso, há uma percentagem tragicamente alta de jovens com idade para frequentar o ensino secundário em risco de morrer por suicídio: em 2021, 22% diziam que tinham pensado seriamente em suicidar-se; 18% tinham planeado o suicídio e 10% tinham-no tentado.

Entre estes, os adolescentes LGBTQ+ eram duas vezes mais passíveis de planear um suicídio. E isto não se deveu apenas à pandemia: entre 2007 e 2017, as taxas de suicídio aumentaram mais de 56%. Os problemas mentais dos jovens são um assunto tão grave no país, que o Diretor-Geral de Saúde dos EUA publicou uma nota informativa em dezembro de 2021, onde afirmava que se tratava da «crise de saúde pública definidora do nosso tempo», elevando-a ao nível de uma consciência nacional. Os jovens sentem-se mais sozinhos do que nunca, e mais sozinhos do que as pessoas de qualquer outra faixa etária, o que é uma anomalia na história. Os miúdos têm menos amizades, estão a fazer menos sexo e estão a beber menos. Poderíamos dizer que estes dois últimos pontos são vitórias, não fora o tremendo mal-estar que os substituiu. Estão até a evitar o lugar em que ainda se espera que se concentrem: mais de um quarto dos jovens em idade escolar estiveram ausentes da escola 10% do tempo ou mais durante o ano letivo de 2022-2023.

Há muitas possíveis causas bem documentadas: o isolamento e a ansiedade provocados pela pandemia; as redes sociais e os telemóveis; o aumento da desigualdade, com os jovens de famílias abastadas ansiosos por entrar nas universidades de elite e os de famílias de baixos rendimentos preocupados em saber de onde vem a próxima refeição; as alterações climáticas, os massacres com armas de fogo e a capacidade aparentemente interminável dos americanos para se dividirem são fatores que pesam muito nos ombros dos jovens.

Mas esquecemo-nos demasiadas vezes de uma causa insidiosa: os alunos não gostam do que fazem na escola. No primeiro e segundo ciclos do ensino básico, três quartos das crianças vivem a escola com entusiasmo.

Mas, chegados ao ensino secundário, a percentagem inverte-se: mais de 65% dos alunos afirma sentir-se desinteressada da escola. O pior de tudo é que acham que não podem fazer nada para inverter a situação. Sentem-se desamparados e impotentes. Estão desejosos de encontrar formas de contribuir e de ter um impacto no mundo em que vivem na escola, junto dos amigos, nas respetivas comunidades e não o conseguem fazer. Em vez disso, na maior parte do tempo, andam de sala de aula em sala de aula a sentar-se passivamente às secretárias para ouvir os adultos. Alguns estão tão ocupados a tentar vencer a corrida para serem fora de série em tudo e chegarem à melhor universidade possível, que não param para pensar qual é a corrida que querem fazer.

Outros acham que a corrida é estúpida, pelo que não chegam a apertar os atacadores. Como pais, encolhemos os ombros, talvez sintamos alguma empatia, mas partimos do princípio de que não há muito que possamos fazer. Terminar o ensino secundário é essencial atualmente, e o ensino secundário é, bem, o ensino secundário. Algo a ser ultrapassado.

Essa mensagem já não tem efeito.

A pandemia ensinou-nos muitas coisas, incluindo o princípio óbvio de que os miúdos têm de estar bem para aprender bem. Uma criança ansiosa ou deprimida vai ter dificuldades em aprender Álgebra. Mas a experiência na sala de aula, o senso comum e mais de trinta anos de estudos científicos sobre aprendizagem e de estudos epidemiológicos longitudinais mostram que o inverso também é verdade: quando aprendem bem, os jovens têm tendência a sentir-se melhor.

O compromisso é uma componente central para uma boa aprendizagem. Os sentimentos, os pensamentos e as ações funcionam em conjunto e determinam se os jovens se aplicam quando as coisas se complicam ou se desistem; se tentam perceber alguma coisa ou se a esquecem; se pedem ajuda e mobilizam recursos para o que lhes interessa ou se aceitam passivamente o que lhes é oferecido. Quando os jovens estão desinteressados, ficam perdidos, como aconteceu com Kia no terceiro ciclo do ensino básico. Perdem a motivação, abandonam a escola e fecham-se no seu próprio mundo (e nos seus telemóveis) ou agem em desespero. Não querem ser assim: tal como Kia, estão ávidos por aprender coisas novas que sintam que têm significado. Mas o desinteresse sufoca-os. É altamente corrosivo para o seu bem-estar.

A boa notícia é que, com o apoio certo, todos os jovens se podem envolver mais. Não é nada do outro mundo, mas é verdade que envolve alguma ciência, o que fazemos por si. Compreender o compromisso irá ajudá-lo a ver e a compreender a aprendizagem dos seus filhos tal como um treinador vê e compreende um atleta. O treinador avalia os níveis de forma do atleta, define objetivos realistas, desenvolve estratégias para que ele se torne mais forte e reúne uma equipa de apoio para alcançar melhorias. Quando se faz isto com compromisso, os jovens têm melhor desempenho e sentem-se melhor.

Infelizmente, os pais podem subestimar o nível de desconexão dos filhos. Notam alguma apatia ou tensão, mas partem do princípio de que é normal. A nossa investigação descobriu que o amor dos alunos pela escola cai a pique depois do terceiro ano.

No relatório da Brookings-Transcend, «The Disengagement Gap: Why Student Engagement Isn’t What Parents Expect» (As diferenças de desinteresse: porque é que o compromisso dos alunos não é o que os pais esperam), chegámos à conclusão de que, no décimo segundo ano, apenas 25% dos alunos adoram a escola, um número que os pais julgam que se situa nos 60%.

Descodificar o compromisso (e o desinteresse)

Não é surpresa que os pais não compreendam toda a extensão desta crise. Não se trata apenas do que os jovens fazem: vão para a escola, fazem trabalhos de casa e testes. É isto o que os pais e os professores podem ver com facilidade. Trata-se também do que sentem: o ideal é que se sintam seguros, integrados e interessados no que estão a fazer. Estes sentimentos têm influência no que pensam. Sem eles, os estudantes têm dificuldade em focar-se na aprendizagem: em associar o cálculo da área de um retângulo à pintura de uma vedação no quintal, em ver a relação entre a Revolução Industrial e as origens da poluição. O compromisso também tem que ver com serem os alunos a iniciar a sua aprendizagem, desde perguntar ao professor se podem escrever uma redação sobre o Manchester United a perder-se em vídeos do YouTube para aprender tudo o que há sobre como cozinhar beringelas.

Livro: "Adolescentes sem Propósito"

Autores: Jenny Anderson e Rebecca Winthrop

Editora: Alma dos Livros

Data de lançamento: abril de 2026

Preço: € 19,45

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O compromisso explica por que razão alguns jovens podem chegar a casa só com notas máximas, mas, na verdade, estar profundamente desconectados da aprendizagem, ao passo que outros podem sentir dificuldades nas aulas, mas desenvolver excelentes competências de aprendizagem fora da sala de aula. É também por isso que é tão difícil para os pais e professores saberem o que fazer.

Se não são capazes de ver muito do que contribui para o desinteresse dos alunos, não podem fazer muito para o contrariar. O que os jovens fazem, sentem, pensam e iniciam corresponde ao que os investigadores chamam compromisso comportamental, emocional, cognitivo e proativo.

O compromisso e a desconexão podem assumir muitas formas diferentes, e os jovens podem passar por várias destas formas a uma velocidade surpreendente. Se tem mais de um filho, ou é professor, sabe muito bem que diferentes jovens olham para a aprendizagem de muitas maneiras diferentes. Podem ligar o piloto automático, marcando presença e fazendo os trabalhos que lhes são pedidos sem pensar muito. Podem fazer todo o trabalho com determinação e intensidade, mas terem um esgotamento no momento seguinte. Ou podem tomar a iniciativa para encontrar formas de tornar as coisas mais interessantes para eles, enviando um e-mail a um professor a perguntar se podem ler um livro que não está na lista de leituras recomendadas.

Um único jovem pode passar por todos estes estados ao longo de um único dia, dependendo da relação que tem com o professor ou da inspiração que uma tarefa lhe suscita. Pode estar comprometido num minuto e desinteressado no minuto seguinte, animado na disciplina de Inglês, desesperado na de Matemática. Ou pode passar todo o ensino secundário desinteressado e, chegado à universidade, começar subitamente a comprometer-se com a aprendizagem. Ou, como Kia, pode ser uma mistura, passivamente comprometida no primeiro e segundo ciclos do ensino básico, completamente empenhada em aprender música em casa com o pai, absolutamente desligada no terceiro ciclo e completamente dedicada na segunda metade no ensino secundário, apoiada pelo pai, pela escola e pelo conselho escolar de Fargo.

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