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Por que motivo os médicos falharam consigo

Quando decidi especializar-me no tratamento da obesidade, recebi olhares de reprovação de alguns colegas. Houve cometários do tipo: «Uau, porquê? Detesto lidar com essas pessoas.» Essas pessoas eram pessoas com obesidade, que carregam um excesso de peso significativo — o que representa cerca de 43% da população dos EUA*.

Talvez não devesse ter-me surpreendido o facto de os médicos, à semelhança de muitas pessoas — ou mesmo a maioria — da nossa sociedade, estigmatizarem o excesso de peso. Ainda assim, incomodou-me. Os médicos têm um poder enorme sobre o bem-estar dos seus pacientes, sendo que todos os médicos fazem um juramento de não causar dano. Se alguma vez foi alvo de estigma devido ao peso, sabe que tal é causador de muito sofrimento.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Os meus pacientes contam-me histórias que me chocam. Poderão ir ao médico devido a queixas de dor aguda, mas, em vez de os ouvir, o médico interrompe-os de forma brusca para falar sobre o seu peso. Em vez de se sentirem vistos e apoiados, sentem-se ignorados. Em vez de receberem cuidados, são humilhados. Assim, não é de surpreender que muitos simplesmente deixem de ir ao médico.

Os médicos adoram recomendar a perda de peso, mas a ironia é que, muito frequentemente, não são qualificados para darem conselhos sobre o tema. Historicamente, os estudantes de medicina e os médicos internos praticamente não recebem formação sobre nutrição. A maioria dos médicos dá aos seus pacientes os mesmos conselhos que eu recebi quando era jovem e o meu peso oscilava perto do limite superior do peso saudável: «Mexe-te mais, come menos.» Talvez lhes forneçam também algumas indicações rápidas ou um folheto sobre nutrição, que é basicamente uma repetição das diretrizes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Os conselhos tendem a ser alheados da realidade ou sem substância. E, todavia, quando os pacientes não conseguem perder peso e mantê-lo, quem é que os médicos culpam? Adivinhou: os pacientes.

Até muito recentemente, os médicos consideravam o excesso de peso fundamentalmente uma falta de força de vontade. As pessoas com excesso de peso eram vistas muitas vezes como vítimas da sua própria preguiça, ignorância ou uma combinação de ambas. Graças à investigação na minha área, sabemos agora que a obesidade é um facto biológico. É um estado de doença, e explicarei no capítulo 1 porque é que requer frequentemente intervenção médica para ser revertida.

Porém, também sabemos que a obesidade é complexa. O aumento de peso é multifatorial, o que significa que normalmente não é causado por apenas um fator. Isto faz com que seja legitimamente difícil para os médicos oferecerem um tratamento eficaz. As consultas de 20 minutos, que são o padrão no nosso sistema de saúde, não proporcionam tempo suficiente para que os médicos e os seus pacientes desvendem o conjunto de questões, tanto físicas como psicológicas, que podem complicar a manuten-ção de um peso saudável.

Livro: "A Revolução Ozempic"

Autor: Alexandra Sowa

Editora: Penguin

Data de lançamento: 22 de junho de 2026

Preço: € 18,35

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Enquanto médica que trabalha exclusivamente com indivíduos com excesso de peso significativo, sei que não podemos ignorar essas questões mentais e físicas e sermos bem-sucedidos. Mas também sei o seguinte: toda esta complexidade, todo este
estigma, constitui precisamente o motivo pelo qual os fárma-cos agonistas de GLP-1 (iniciais de glucagon-like peptide-1 ou
«peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1») — como o Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound — são a ferramenta mais poderosa, transformadora e salvadora que tenho para oferecer aos meus pacientes.

Os pacientes que atendo na minha clínica têm diferentes históricos que contribuíram, todos eles, para o seu excesso de peso
— e, ainda assim, os fármacos GLP-1 funcionam em praticamente todos. Isso inclui pessoas como Alice, que estava a recuperar de um distúrbio alimentar compulsivo. Ou David, um maratonista de longa data que ficou afastado devido a uma estenose lombar e precisava de voltar a ter um peso saudável para uma cirurgia corretiva. Ou Catherine, que não conseguia perder peso depois da gravidez. Ajudo mulheres que precisam de perder peso para poderem iniciar um tratamento de fertilidade. Pacientes que lidam com o aumento de peso devido a protocolos de tratamento do cancro. Pacientes em recuperação de trauma sexual. Pessoas que fizeram dietas ao longo da vida. Alcoólicos em recuperação que substituíram a bebida por comida. E ainda outros que, sem conseguirem identificar o motivo, sabem que o número na balança aumentou mais de 20 kg nos últimos 10 anos e que agora… não… cede.

De uma forma generalizada, os meus pacientes em tratamento com GLP-1 sentem um alívio extraordinário quando os fármacos lhes comprovam que uma condição de saúde corrigível os impedia de perderem peso. O ruído alimentar — a voz na cabeça que está incansavelmente centrada no que devem comer a seguir — silencia-se, para seu grande alívio. Depois de muitos anos ou de uma vida inteira de restrições constantes, conseguem por fim sentir como é pousar o garfo, porque estão satisfeitos. Quando já não precisam de lutar contra a biologia ou temer a balança, sentem-se finalmente fortes para lidarem com outros fatores que poderão ter contribuído para o seu excesso de peso. Com a ajuda dos fármacos GLP-1, somos capazes de separar o aspeto médico do aspeto emocional e do aspeto comportamental de uma maneira nova e profunda.

* Segundo dados do INE (2022), em Portugal, mais de 50% dos adultos têm excesso de peso (37%) ou obesidade (16%). [N. da T.]

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