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Os documentos revelam não apenas a investigação que levou à sua detenção em julho de 2019, mas também os esforços que desenvolveu para proteger a sua reputação, influenciar a narrativa pública e evitar novas consequências legais. Ao mesmo tempo, mostram como procuradores federais em Nova Iorque construíram secretamente um novo caso contra ele.

Quando a história começa, em novembro de 2018, Epstein já era uma figura profundamente controversa. Uma década antes, enfrentara acusações federais muito graves relacionadas com o recrutamento, abuso sexual e exploração de dezenas de raparigas menores de idade. Os procuradores tinham preparado acusações que poderiam resultar numa pena de várias décadas de prisão.

No entanto, através de uma equipa de advogados de alto perfil e de negociações com procuradores federais da Florida, Epstein conseguiu um acordo extraordinariamente favorável. Em vez de responder a acusações federais, declarou-se culpado de crimes estaduais relacionados com prostituição. Recebeu uma pena de 18 meses de prisão, mas acabou por cumprir apenas 13 meses numa cadeia local. Beneficiou ainda de um regime especial que lhe permitia sair da prisão durante grande parte do dia para trabalhar.

Associações de apoio especializado à vítima de violência sexual:

Quebrar o Silêncio (apoio para homens e rapazes vítimas de abusos sexuais)
910 846 589
apoio@quebrarosilencio.pt

Associação de Mulheres Contra a Violência - AMCV
213 802 165
ca@amcv.org.pt

Emancipação, Igualdade e Recuperação - EIR UMAR
914 736 078
eir.centro@gmail.com

Mais controverso ainda, o acordo concedia imunidade federal não apenas a Epstein, mas também a vários alegados cúmplices. As vítimas não foram informadas da existência do acordo, numa aparente violação dos seus direitos legais.

Após sair da prisão, Epstein conseguiu reconstruir parcialmente a sua vida social. Continuou a conviver com figuras influentes dos negócios, da política, do meio académico e da alta sociedade. Embora tivesse o estatuto oficial de agressor sexual registado, mantinha acesso a círculos de poder que poucos condenados por crimes sexuais conseguiriam preservar.

A investigação do Miami Herald muda tudo

A situação alterou-se radicalmente em novembro de 2018, quando o Miami Herald publicou uma série de reportagens da jornalista Julie K. Brown que analisavam em profundidade a forma como Epstein escapara à justiça em 2008.

As reportagens provocaram indignação nacional. Pela primeira vez em muitos anos, o caso voltou ao centro da atenção pública. Surgiram exigências para reabrir investigações e rever o polémico acordo judicial.

Em público, Epstein procurou transmitir calma. Dizia a amigos que era apenas mais uma vaga de cobertura negativa e que passaria rapidamente. Contudo, os documentos revelam que, nos bastidores, entrou imediatamente em modo de gestão de crise.

Poucos dias depois da publicação das reportagens, transferiu grandes quantias de dinheiro para antigas colaboradoras próximas. Segundo os registos financeiros revelados nos ficheiros, enviou 100 mil dólares a Nadia Marcinkova e 250 mil dólares a Sarah Kellen. Ambas tinham trabalhado para ele durante os anos em que ocorreram os abusos e tinham beneficiado da imunidade concedida pelo acordo de 2008.

Mais tarde, as duas afirmariam que os pagamentos não lhes pareceram invulgares, uma vez que Epstein costumava ser financeiramente generoso com pessoas próximas.

Enquanto Epstein procurava limitar os danos, algo muito mais sério estava a acontecer em Nova Iorque. No gabinete do procurador federal do Distrito Sul de Nova Iorque, um dos mais prestigiados dos Estados Unidos, vários procuradores ficaram chocados ao ler as reportagens do Miami Herald. O chefe do gabinete, Geoffrey Berman, considerava o acordo de 2008 uma enorme falha do sistema judicial.

Poucos dias depois, os procuradores começaram a discutir a possibilidade de abrir uma nova investigação.

O principal obstáculo era jurídico: o acordo de 2008 concedera imunidade federal a Epstein. No entanto, a equipa de Nova Iorque acreditava que essa imunidade se aplicava apenas à jurisdição da Florida e não impediria novas acusações por crimes cometidos noutros locais.

Assim, em dezembro de 2018, o FBI em Nova Iorque abriu discretamente uma nova investigação criminal. O processo foi conduzido com um grau extraordinário de secretismo. Segundo Berman, havia receio de fugas de informação e preocupação de que pessoas influentes pudessem interferir.

Steve Bannon torna-se conselheiro informal e outros aliados

Durante este período, uma das figuras mais presentes nas comunicações de Epstein foi Steve Bannon, conselheiro de Trump. Os documentos revelam centenas de mensagens entre ambos. Bannon, que deixara a Casa Branca em 2017, estava a trabalhar em projetos mediáticos e documentais. A relação entre os dois tornou-se particularmente próxima no final de 2018 e início de 2019.

Nas mensagens, Epstein procura constantemente aconselhamento sobre como responder à crise. Sugere contratar antigos juízes, lançar investigações independentes, publicar artigos de opinião e até criar centros dedicados ao combate ao tráfico humano.

Bannon responde frequentemente como um estratega de comunicação. Numa das trocas mais citadas, afirma que Epstein não conseguirá "comprar a saída" do problema e que terá de trabalhar para recuperar a sua imagem.

As mensagens revelam também tentativas de minimizar ou reinterpretar as acusações. Em vários momentos, ambos discutem formas de desafiar a narrativa dominante de que Epstein era um predador sexual.

Outra figura importante neste período foi Kathy Ruemmler que conhecia Epstein através de contactos profissionais e pessoais. Embora nunca o tenha representado formalmente em tribunal, os documentos mostram que lhe dava conselhos sobre questões reputacionais e jurídicas.

Depois de um tribunal federal decidir, em fevereiro de 2019, que o governo tinha violado os direitos das vítimas ao esconder-lhes o acordo de 2008, Epstein procurou ajuda junto de vários contactos influentes.

Enviou mensagens semelhantes a Ruemmler, ao jornalista Michael Wolff, ao antigo presidente de Harvard Larry Summers e a outros conhecidos.

Ruemmler respondeu de forma particularmente solidária, assegurando-lhe que o ajudaria a ultrapassar a "tempestade".

À medida que as notícias negativas se acumulavam, Epstein tornou-se cada vez mais obcecado com a forma como era retratado.

Os documentos mostram inúmeras tentativas de influenciar jornalistas, moldar a cobertura mediática e desenvolver estratégias de comunicação.

Chegou a considerar conceder entrevistas a repórteres que investigavam o seu caso. Também insistiu repetidamente na ideia de produzir um documentário sobre a sua vida. O projeto seria conduzido por Steve Bannon.

Segundo as mensagens, o documentário deveria apresentar Epstein como um intelectual, filantropo e pensador incompreendido. A ideia era contrariar a imagem pública de predador sexual que dominava a cobertura mediática.

A investigação avança em segredo

Enquanto Epstein se concentrava na batalha mediática, os procuradores federais avançavam rapidamente.

Durante a primavera de 2019, agentes do FBI entrevistaram vítimas em Nova Iorque e na Florida. Muitas continuavam profundamente traumatizadas pelos abusos ocorridos anos antes.

As testemunhas descreveram um padrão recorrente: eram adolescentes recrutadas para massagens pagas em propriedades luxuosas de Epstein. Depois das primeiras sessões, os contactos evoluíam para abusos sexuais. Muitas eram incentivadas a recrutar outras raparigas e recebiam pagamentos por isso.

Os investigadores concluíram que tinham provas suficientes para avançar.

Em junho de 2019, um grande júri federal aprovou secretamente uma acusação contra Epstein por tráfico sexual de menores e conspiração para tráfico sexual de menores.

Durante a primavera de 2019, Steve Bannon conseguiu finalmente avançar com as filmagens do documentário. Foram gravadas mais de quinze horas de entrevistas em propriedades de Epstein em Nova Iorque e Palm Beach.

Um dos momentos mais notáveis ocorreu quando Bannon perguntou diretamente a Epstein se acreditava ser "o próprio Diabo".

Epstein pareceu desconfortável e tentou terminar a conversa. O diálogo tornou-se particularmente revelador porque mostra um raro momento em que alguém do círculo próximo de Epstein o confronta diretamente com a imagem pública que tinha adquirido.

Em 6 de julho de 2019, tudo mudou. Epstein regressava de Paris para Nova Iorque quando agentes federais o aguardavam no aeroporto de Teterboro.

Segundo os investigadores, ficou completamente surpreendido. Um responsável do FBI afirmou mais tarde que o seu "queixo quase caiu ao chão" quando viu os agentes. Ao mesmo tempo, o FBI executava mandados de busca na sua mansão em Manhattan.

A operação revelou uma enorme quantidade de material comprometedor: dinheiro vivo, diamantes, passaportes, computadores, discos rígidos, milhares de fotografias e CDs identificados com títulos como "Girl Pics Nude" e "Misc Nudes".

Os procuradores consideraram a operação um enorme sucesso. Tinham conseguido investigar durante meses sem que Epstein percebesse o que estava a acontecer.

A prisão e a luta pela liberdade

A 8 de julho de 2019, Epstein compareceu perante um juiz federal e declarou-se inocente.

Os seus advogados tentaram obter liberdade sob fiança através de um plano extraordinário: prisão domiciliária na sua mansão, vigilância privada armada e garantias financeiras avaliadas em dezenas de milhões de dólares.

O juiz recusou. Pela primeira vez em muitos anos, Epstein encontrava-se verdadeiramente encurralado.

Nas semanas seguintes, a situação deteriorou-se rapidamente.

Em julho ocorreu um primeiro incidente em que Epstein foi encontrado ferido na cela, com marcas no pescoço. Nunca ficou totalmente esclarecido se se tratou de uma tentativa de suicídio ou de uma agressão.

Pouco depois foi colocado sob vigilância especial.

Na manhã de 10 de agosto de 2019, foi encontrado morto na sua cela no Metropolitan Correctional Center, em Manhattan.

A conclusão oficial foi suicídio por enforcamento.

Contudo, os documentos revelam falhas graves na supervisão prisional. Os guardas responsáveis não cumpriram procedimentos obrigatórios de vigilância e existem registos que sugerem que parte das rondas nunca foi efetuada.

Estas circunstâncias alimentaram teorias da conspiração que continuam a persistir até hoje.

A morte de Epstein significou que nunca haveria julgamento. Para muitas vítimas, foi mais uma forma de ele escapar à justiça.

Ainda assim, o caso teve consequências importantes. Alexander Acosta demitiu-se devido ao escrutínio sobre o acordo de 2008. Em 2020, Ghislaine Maxwell foi detida e posteriormente condenada por tráfico sexual de menores, tornando-se a única pessoa condenada no âmbito do principal caso federal contra Epstein.

Numa audiência realizada poucas semanas após a morte de Epstein, várias vítimas dirigiram-se ao tribunal. Muitas expressaram a frustração de verem o homem que consideravam responsável pelos seus traumas escapar novamente a uma responsabilização plena.

Uma delas resumiu esse sentimento ao afirmar que, depois de ter escapado à justiça durante tantos anos, Epstein conseguira uma vez mais evitar enfrentar as consequências dos seus atos — desta vez através da própria morte.

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