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Em meados da década de 1980, Portugal atravessava um dos períodos mais turbulentos desde a consolidação da democracia. A crise económica fazia-se sentir no quotidiano: o desemprego aumentava, a pobreza tornava-se mais visível e o cansaço político era evidente. O governo do denominado "Bloco Central", a coligação entre PS e PSD, liderada por Mário Soares e Carlos da Mota Pinto, governava num clima de desgaste e de crescente contestação social.
Em 1985, os sinais de rutura tornaram-se claros. No discurso de Ano Novo, o Presidente da República, Ramalho Eanes, criticou duramente a atuação do executivo, acusação que levou o Governo a responder que o chefe de Estado se comportava como líder da oposição. Pouco depois, Mota Pinto demitiu-se, sendo substituído por Rui Machete, numa altura em que Aníbal Cavaco Silva conquistava a liderança do PSD e anunciava a intenção de abandonar o Bloco Central após a assinatura do Tratado de Adesão à CEE.
"O rancor dos lideres partidários a Eanes era ainda suficientemente grande para o Presidente não ter sido convidado para a cerimónia pública da assinatura do tratado de adesão à CEE, 12 de junho" (Rui Ramos, Observador, 2017), sinal evidente do distanciamento entre Belém e os partidos do poder.
Em outubro desse ano, novas eleições legislativas deram a vitória ao PSD, que formou um governo minoritário liderado por Cavaco Silva, viabilizado pelo recém-criado PRD, o Partido Renovador Democrático.
Um sistema em desgaste e a fragmentação da esquerda
O PRD (Partido Renovador Democrátido) surgia como resposta à desilusão com o regime, prometendo regenerar o sistema político e afirmando-se como uma alternativa “nem de esquerda nem de direita”, inspirada diretamente em Ramalho Eanes que ,mais tarde, afirma: "O PRD nasceu demasiado grande, envecelheceu demasiado depressa".
"Não havia grandes alternativas, mas havia alternância. Depois do governo do chamado "Bloco central", nem alternância havia. Uma sondagem mostrava que os portugueses desconfiavam da democracia. Era preciso criar uma realidade política nova, mesmo que transitória e efémera que dê uma saída, uma esperança para evitar o que agora acontece com o Chega", afirma José Carlos Vasconcelos, fundador do PRD, na série da RTP, "A Duas Voltas: Mário Soares e as Presidenciais de 1986".
Nas presidenciais de 1986, o partido nasceu, antes de mais, para apoiar um candidato a Belém. Após a desistência de Manuel da Costa Braz, a escolha recaiu sobre Francisco Salgado Zenha, antigo aliado de Mário Soares, cuja candidatura aprofundou ainda mais a divisão do eleitorado socialista.
À esquerda, o cenário era de fragmentação. Maria de Lourdes Pintasilgo, ex-primeira-ministra e engenheira química, apresentava uma candidatura de rutura, simbolizando a possibilidade de uma mulher chegar pela primeira vez à Presidência da República. As sondagens iniciais colocavam-na entre as favoritas, mas a falta de apoios institucionais acabaria por limitar o seu avanço.
Francisco Salgado Zenha, por seu lado, tentava captar o descontentamento com a liderança de Mário Soares dentro do PS, mas a multiplicação de candidaturas no mesmo espaço político fragilizava o campo da esquerda numa altura decisiva.
Freitas do Amaral entra em cena
À direita, a preferência inicial recaía sobre um candidato militar, Firmino Miguel, que acabou por não avançar. O foco passou então para Diogo Freitas do Amaral, fundador do CDS, que em 1985 se mostrava descrente em relação à política e pessimista quanto ao rumo da sociedade portuguesa.
A sucessão de acontecimentos nesse ano, a queda de Mota Pinto, o desgaste do governo socialista e a fragmentação da esquerda, abriu espaço para que Freitas do Amaral visse na candidatura presidencial uma oportunidade histórica. A 26 de abril de 1985 anunciou oficialmente a sua corrida a Belém, publicando em simultâneo o livro "Uma solução para Portugal", que funcionou como manifesto de pré-campanha (Joaquim Vieira, Retratos Políticos).
Mário Soares confirmou a candidatura a 27 de julho, no mesmo dia em que o fez Maria de Lourdes Pintasilgo. Ramalho Eanes acabaria por apoiar Salgado Zenha, numa tentativa clara de dividir o eleitorado socialista e fragilizar a candidatura de Soares.
A primeira volta: a direita à frente, a esquerda dividida
A campanha revelou-se uma das mais intensas desde o 25 de Abril. Freitas do Amaral apostou numa estratégia de comunicação inovadora para a época, inspirada nos métodos do marketing político norte-americano. Chapéus brancos com o slogan “P'ra Frente Portugal!” e a imagem cuidada do candidato, com o seu característico sobretudo de loden verde-acinzentado, ajudaram a construir uma figura de proximidade e modernidade conservadora.
A 26 de janeiro de 1986, os portugueses foram às urnas. Freitas do Amaral ficou perto da vitória à primeira volta, com mais de 46% dos votos. À esquerda, o escrutínio funcionou como uma espécie de primárias informais: Mário Soares liderou com cerca de 25,5%, seguido de Salgado Zenha com quase 21% e Maria de Lourdes Pintasilgo com pouco mais de 7%.
O resultado confirmou o que muitos antecipavam, pela primeira vez na história democrática, as presidenciais iriam a uma segunda volta, marcada para 16 de fevereiro, entre Freitas do Amaral e Mário Soares.
A campanha decisiva
O país entrou num clima de forte polarização ideológica. A disputa deixou de ser apenas entre dois candidatos e passou a simbolizar dois projetos para a democracia portuguesa: de um lado, a direita democrata-cristã; do outro, o fundador do PS e um dos rostos mais marcantes do pós-25 de Abril.
Freitas do Amaral não conseguiu, contudo, evitar deserções no seu próprio campo político. Figuras como Francisco Pinto Balsemão optaram por não apoiar formalmente o candidato do CDS, e Helena Roseta considerou a campanha excessivamente conservadora.
Do lado socialista, Mário Soares apostou numa retórica de mobilização emocional. No último tempo de antena televisivo, acusou Freitas do Amaral de manter salários em atraso no jornal O Primeiro de Janeiro, episódio que marcou os dias finais da campanha. Apesar das tentativas de desmentido, o impacto mediático foi imediato.
A união à esquerda dá-se com a decisão "relâmpago" de Álvaro Cunhal ao apelar aos comunistas, no comício extraordinário do PCP na Amadora, que "engulam o sapo" e votem em Mário Soares.
"Se for caso disso, não leiam o nome de Soares, que não olhem para o seu retrato. Mas que marquem a cruz no quadrado que está à frente desse nome e desse retrato", diz Álvaro Cunhal.
A campanha de Soares teve um "namoro" à esquerda, que faz o lema passar de "Soares é fixe!" para "O voto do povo".
O comício de encerramento de Freitas do Amaral, que encheu os Restauradores e a Avenida da Liberdade, tornou-se um dos momentos simbólicos da campanha. Confiante, comentou à mulher: “Se isto não dá os 50% dos votos, não sei o que é preciso para os obter.”
A 16 de fevereiro de 1986, os portugueses decidiram. Mário Soares venceu com 51,18% dos votos, contra 48,82% de Freitas do Amaral. A diferença foi de apenas 138 692 votos, num universo de quase seis milhões de eleitores.
A vitória foi histórica: o fundador do PS tornava-se Presidente da República, derrotando o criador do partido mais conservador do sistema constitucional pós-25 de Abril.
A última sondagem para a campanha das Presidenciais 2026, da Pitagórica, coloca António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, André Ventura, João Cotrim Figueiredo e Luís Marques Mendes numa luta renhida pelo primeiro lugar, revela o ECO. 40 anos depois tudo indica que haverá outras presidenciais cujo destino também se decidirá apenas à segunda-volta.
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