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“Quero contar a minha história pelas minhas próprias palavras. Com este livro, espero passar uma mensagem de força e coragem a todos os que possam estar a passar por momentos difíceis. Que nunca sintam vergonha”, escreveu Gisèle Pelicot, explicando a decisão de tornar públicas as suas memórias.

Escrito com a jornalista e romancista francesa Judith Perrignon, o livro 'Um hino à vida', editado pela Presença, percorre a infância de Gisèle Pelicot, de 73 anos, o casamento de quase cinco décadas com Dominique, a descoberta, em 2020, de que era drogada e violada pelo marido e por dezenas de homens recrutados na internet, e o julgamento que, em 2024, levou à condenação de 51 arguidos.

Este número fica aquém do total de suspeitos identificados pela investigação, que apontou para pelo menos 72 homens envolvidos nos abusos entre 2011 e 2020, embora apenas 51, incluindo Dominique, tenham sido formalmente acusados e julgados.

Os abusos foram gravados, gerando cerca de 20 mil fotos e vídeos, apresentados no julgamento, tornando-o um dos casos mais documentados e mais explícitos da justiça francesa.

O relato de Gisèle Pelicot no livro não se cinge aos anos de violência ou ao processo judicial, recuando no tempo até à infância em Indre, França, para recordar a morte da mãe, quando tinha nove anos, e a vida familiar que construiu depois. Com este regresso ao passado, Gisèle Pelicot procurou recuperar a existência que tinha antes de se tornar mundialmente conhecida pelo chamado processo de Mazan.

Um dos episódios centrais do livro é o momento em que, a 2 de novembro de 2020, acompanhou o marido à esquadra, depois de este ter sido apanhado a filmar mulheres por baixo das saias num supermercado.

No final do livro, Gisèle Pelicot revela ainda que pretende visitar Dominique na prisão, apesar dos avisos de pessoas próximas para que não o faça, porque quer confrontá-lo diretamente e obter respostas para perguntas que continuam sem resposta, entre elas se terá abusado da filha, Caroline, e se terá cometido outros crimes.

Gisèle Pelicot escreve que tem de ir ver o ex-marido à prisão, assegurando que não se trata de um ato de bondade ou demonstração de fraqueza, mas uma despedida e uma etapa que considera necessária para a sua recuperação.

A referência à filha é um tema particularmente delicado, já que Caroline Darian, que publicou em 2025 o seu próprio testemunho sobre os crimes do pai, chegou a questionar se também tinha sido drogada e abusada por Dominique.

Estas dúvidas surgiram depois de a polícia ter encontrado no seu computador imagens da filha a dormir, mas Dominique Pelicot negou tê-la violado.

Gisèle termina o livro afirmando que, apesar de tudo o que aconteceu, não perdeu a confiança nas pessoas, e que essa, que era a sua “maior fraqueza”, é atualmente a sua “força”.

Dominique Pelicot foi condenado em dezembro de 2024 a 20 anos de prisão, a pena máxima prevista em França para os crimes em causa.

Os restantes 50 arguidos no processo foram igualmente condenados por violação ou outros crimes sexuais, sendo que cerca de outras duas dezenas de homens captados nas gravações não chegaram a ser identificados pelas autoridades.

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